“A guerra no Médio Oriente, a volatilidade do combustível e um consumidor mais prudente estão a reconfigurar o turismo português — e Cabo Verde surge no centro do debate”
Um ano mais difícil do que o esperado
A combinação entre guerra no Médio Oriente, volatilidade do combustível e um consumidor mais prudente está a reconfigurar o turismo português — e Cabo Verde tornou-se um dos destinos mais afetados pelas revisões de preço aplicadas a viagens já reservadas.
As agências de viagens portuguesas enfrentam um ano marcado pela incerteza, com menos reservas, viagens de menor valor e um volume crescente de reclamações. A guerra em curso, a instabilidade em vários destinos e o aumento dos custos do combustível de aviação vieram alterar um cenário que, no início do ano, se previa promissor.
Cabo Verde com mais turistas, mas também mais reclamações
Responsáveis de agências de viagens portuguesas identificaram Cabo Verde como um dos destinos que mais reclamações gerou em 2026, precisamente por causa das sobretaxas de combustível aplicadas pelos operadores turísticos a pacotes já adquiridos.
Os aumentos comunicados para viagens a Cabo Verde rondam os 75 euros por pessoa — um encargo que, numa família com filhos, pode representar uma despesa adicional considerável e completamente inesperada no momento do pagamento.
Natalie Lopes, diretora da agência 4 Seasons, resumiu o problema: “Uma coisa é um casal pagar mais 50 euros por pessoa, outra coisa é uma família que, por exemplo, tem três filhos.” Apesar das queixas, a maioria dos clientes acaba por aceitar os aumentos, mas a relação com as agências fica fragilizada.
Importa sublinhar que as sobretaxas não resultam de decisões das autoridades cabo-verdianas nem dos operadores locais, mas sim de revisões de preço aplicadas pelos operadores turísticos portugueses ao abrigo da legislação europeia em vigor.
Na prática, quase todos os aumentos comunicados para Cabo Verde ficam abaixo do limite legal de 8%, o que impede os clientes de cancelar gratuitamente e alimenta o descontentamento. Miguel Quintas, presidente da ANAV, sublinhou que os contratos de pacotes turísticos “devem ser o mais transparentes possível” e que as cláusulas de revisão de preço devem ser explicadas ao cliente como uma obrigação, especialmente em momentos de maior volatilidade.
Cabo Verde em alta como destino de substituição
Apesar da polémica em torno das sobretaxas, o arquipélago está a beneficiar do momento de instabilidade global. Flávio Brás, da Âncora Viagens, destacou que “Cabo Verde está a ter uma afluência enorme”, enquanto muitos viajantes abandonam destinos asiáticos ou rotas com escala no Médio Oriente em favor de alternativas mais seguras e acessíveis.
A mesma tendência foi observada por vários operadores: os clientes estão a trocar viagens de longo curso por destinos mais próximos, o que se traduz em vendas de menor valor para as agências, mas também numa maior procura por destinos como Cabo Verde, as ilhas Canárias e o Caribe.
Para o arquipélago, este cenário representa uma oportunidade concreta de captar mais turistas portugueses ao longo de 2026. A questão das sobretaxas, sendo uma decisão dos operadores e não do destino, não deveria penalizar a imagem de Cabo Verde — mas a gestão da comunicação será determinante para que assim seja.
O combustível e o pânico mediático
Miguel Quintas alertou que parte do alarme em torno da disponibilidade de combustível de aviação foi alimentada por notícias que geraram pânico desnecessário: “Saiu a notícia de que não iríamos ter jet fuel e todas as pessoas entrou em pânico”, afirmou, acrescentando que o Governo português foi rápido a garantir stocks disponíveis pelo menos até agosto e que a Galp confirmou não ter problemas de abastecimento a curto prazo.
Até ao início do conflito no Médio Oriente, o setor estava a crescer cerca de 5% face ao ano anterior. A manutenção da guerra alterou o comportamento dos consumidores: as pessoas pesquisam viagens, mas não concluem a reserva. O alerta da ANAV é direto: se o conflito se prolongar pelo verão, essa cautela vai converter-se em menos reservas.
Um setor à espera de respostas
As agências de viagens continuam na linha da frente de uma crise que não controlam, mas que são obrigadas a gerir perante os clientes. “Somos nós a dar a cara, somos nós os intermediários dos operadores e das companhias aéreas, somos nós que vamos ter de assumir a situação”, afirmou Natalie Lopes, da 4 Seasons.
Para Cabo Verde, o momento é simultaneamente de oportunidade e de desafio. O arquipélago atrai mais turistas, mas precisa que os operadores portugueses comuniquem com clareza — para que as sobretaxas de combustível não se transformem num argumento negativo associado ao destino.
Recordamos que…
Este artigo tem como base um conjunto de entrevistas realizadas pela revista portuguesa TNews a responsáveis de agências de viagens e à Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), publicadas a 1 de junho de 2026. As reclamações reportadas prendem-se com as revisões de preço operadas na Europa, mantendo-se o arquipélago fortemente competitivo e em alta procura como destino seguro de substituição no mercado internacional.
Caboverde24.info
Fonte: TNews







































