“A embaixada de Praia foi incluída na lista dos 20 postos consulares que continuam a processar vistos para os Estados Unidos em todo o continente africano”
Uma reestruturação sem precedentes na diplomacia americana em África
O Departamento de Estado dos Estados Unidos vai reduzir drasticamente o número de postos diplomáticos em África com capacidade para processar pedidos de visto. Os quase 50 postos atualmente em funcionamento serão reduzidos a 20 nas próximas semanas, segundo três funcionários norte-americanos e um memorando interno obtido pela Associated Press.
A medida insere-se no esforço da administração Trump para restringir a emissão de vistos imigrantes e não imigrantes, como parte do objetivo mais amplo de limitar a imigração para os Estados Unidos e combater as situações de permanência ilegal após o término do visto.
Praia na lista dos escolhidos
A embaixada americana na Praia foi incluída nos 20 hubs selecionados. Os postos que permanecem abertos para todo o processamento são: Abidjan (Costa do Marfim), Acra (Gana), Adis Abeba (Etiópia), Cidade do Cabo (África do Sul), Dacar (Senegal), Dar es Salaam (Tanzânia), Jibuti, Joanesburgo (África do Sul), Campala (Uganda), Kigali (Ruanda), Kinshasa (Congo), Lagos (Nigéria), Lomé (Togo), Luanda (Angola), Malabo (Guiné Equatorial), Monróvia (Libéria), Nairobi (Quénia), Port Louis (Maurícias), Praia (Cabo Verde) e Iacundé (Camarões).
Por que razão Praia foi escolhida
O memorando não explica os critérios de seleção, mas a escolha da Praia não é surpreendente à luz da relação histórica entre os dois países. O primeiro consulado americano em toda a África subsaariana foi estabelecido em Cabo Verde em 1818, e a tradição de emigração para os Estados Unidos iniciada nessa época mantém-se até hoje. A diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos é comparável à população atual do arquipélago, sendo as comunidades da Nova Inglaterra as mais representativas.
A isto acresce um investimento diplomático recente de grande dimensão. O Departamento de Estado está a construir uma nova embaixada na Praia, com um orçamento de 443 milhões de dólares e conclusão prevista para 2028, no âmbito de uma parceria focada no desenvolvimento económico, na cooperação em segurança e na governação democrática. Um investimento desta dimensão tornaria politicamente difícil — e financeiramente absurdo — a exclusão da Praia da lista dos hubs.
O que muda para os países não seleccionados
Os cidadãos de países não incluídos na lista terão de se deslocar a um dos 20 postos aprovados para tratar os seus processos de visto, o que pode representar desafios logísticos e custos de viagem consideráveis. As secções consulares dos países excluídos manterão atividade, mas com serviços muito limitados. Continuarão a poder prestar assistência a cidadãos americanos em renovações de passaporte e situações de emergência consular, bem como em casos de interesse nacional especial e pedidos de visto diplomático.
Um dado que não pode ser ignorado
A inclusão da Praia na lista dos hubs não significa que os cabo-verdianos tenham acesso facilitado aos vistos americanos. A realidade é mais complexa. Desde 21 de janeiro de 2026, os nacionais de Cabo Verde que se candidatam a visto B1/B2 são obrigados a depositar uma caução de até 15.000 dólares, devolvida apenas se o titular regressar ao país dentro do prazo autorizado.
A medida reflete uma preocupação direta de Washington com as taxas de permanência ilegal. Um relatório do Center for Immigration Studies indicou que 25,7% dos cabo-verdianos titulares de vistos F, M e J permaneceram ilegalmente nos Estados Unidos em 2023, e que a taxa para vistos de turismo e negócios (B) foi de 12,8%.
A Praia é, portanto, hub regional — mas os cabo-verdianos continuam sujeitos a algumas das condições mais restritivas aplicadas em África para acesso ao território americano.
Uma posição estratégica com responsabilidades acrescidas
Com a reestruturação agora anunciada, a embaixada americana na Praia assume uma posição de maior peso no mapa diplomático do continente. Cidadãos de países vizinhos sem hub próprio poderão vir a ser encaminhados para a Praia para tratamento dos seus processos. Espera-se que a concentração de serviços num número reduzido de centros aumente a pressão sobre os sistemas de marcação e os recursos administrativos dos postos selecionados.
Recordamos que…
A administração Trump tem vindo a implementar, desde o início de 2025, uma série de restrições progressivas ao acesso a vistos americanos em África, incluindo proibições de viagem, cauções obrigatórias e reduções de pessoal nas representações diplomáticas em todo o mundo. A centralização dos serviços consulares em apenas 20 postos continentais reconfigura a atividade diplomática na região e coloca a embaixada da Praia como uma referência fundamental na África Ocidental neste início de junho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: Associated Press (AP)































