“Nhu Ministru, si transport ki ta dziga ben, turizmu ta vualta dziga kasvê – é si que ta pone nos terra na kaminhu di futura.”
A nossa redação do blog recebeu esta carta aberta, enviada por um emigrante cabo-verdiano residente em Portugal, que nos pediu expressamente a sua publicação. Trata-se de um apelo direto dirigido ao Ministro do Turismo e Transportes, no qual o autor manifesta reconhecimento pelos progressos alcançados no setor do turismo, mas ao mesmo tempo alerta para a persistente fragilidade dos transportes internos, considerada por muitos como o verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento equilibrado do país. Pela atualidade e relevância do tema, decidimos partilhar integralmente este testemunho, deixando ao leitor e às autoridades competentes a reflexão necessária.
À Sua Excelência o Senhor
Ministro do Turismo
República de Cabo Verde
Assunto: Os transportes internos como condição essencial para o desenvolvimento turístico e económico
Excelentíssimo Senhor Ministro,
Quem lhe escreve é um emigrante cabo-verdiano atualmente residente em Portugal, para onde emigrei na busca de garantir a sustentabilidade económica da minha família. Ainda que distante da terra que me viu nascer, acompanho com grande atenção e esperança o desenvolvimento do nosso país. É movido pelo amor a Cabo Verde, pela preocupação com o futuro imediato e pelo desejo de um futuro melhor, que tomo a liberdade de dirigir-lhe esta carta aberta.
Cabo Verde vive atualmente uma fase de expansão turística que representa uma extraordinária oportunidade para o presente e para o futuro do País. O crescimento das chegadas, o otimismo das perspetivas e a confiança dos investidores internacionais são resultados concretos, possíveis não apenas graças às nossas belezas naturais e à estabilidade política, mas também pela coragem de alguns atores privados que acreditaram firmemente no potencial do arquipélago. Prova disso é a recente gestão dos aeroportos pela sociedade Vinci, que soube aplicar recursos e eficiência, produzindo resultados imediatos.
Todavia, todas estas conquistas correm sério risco de perder valor se o grande obstáculo dos transportes internos continuar a ser negligenciado. É evidente para todos que o atual sistema de ligações domésticas, apoiado em poucos aviões obsoletos e frequentemente avariados, não garante regularidade nem fiabilidade. Isso limita a liberdade de mobilidade dos cidadãos, penaliza os operadores turísticos e impede que as ilhas sem voos diretos internacionais – como São Nicolau, Fogo e Brava – possam integrar-se num circuito de desenvolvimento justo e competitivo.
Senhor Ministro, o turismo não cresce sozinho. O entusiasmo, a confiança e a continuidade dos investimentos são o verdadeiro motor da economia interna. Sem uma rede de transportes eficiente, esse motor corre o risco de se apagar. Pelo contrário, garantir voos internos regulares e acessíveis não deve ser entendido como uma despesa, mas sim como um investimento estratégico que gera PIB, empregos e novas receitas fiscais para o Estado.
Se, nos últimos anos, os recursos destinados a sustentar uma companhia estruturalmente deficitária tivessem sido canalizados para a aquisição ou aluguer de novos ATR 72, hoje teríamos um sistema capaz de responder tanto às necessidades da população cabo-verdiana quanto ao fluxo crescente de turistas, com efeitos multiplicadores imediatos em toda a economia. É difícil justificar que dezenas de milhões tenham sido gastos para manter operacional a TACV, companhia que não só se revelou incapaz de gerar lucros, mas que continua a atuar nas mesmas rotas internacionais já servidas por transportadoras estrangeiras muito mais eficientes e rentáveis para os seus acionistas.
A isto acresce um elemento humano que não pode ser ignorado: é fácil imaginar as frustrações vividas diariamente por figuras como o CEO da TACV, Pedro Barros, ou pelos dirigentes do Instituto do Turismo e de outros organismos estratégicos. Todos gostariam de apresentar resultados concretos, de responder às expectativas da população e dos operadores, mas muitas vezes são enviados a lutar sem as armas necessárias, privados dos instrumentos mínimos indispensáveis para alcançar os objetivos há muito aguardados.
Excelentíssimo Senhor Ministro, dirijo-Lhe, portanto, um apelo direto: faça valer, com determinação, a Sua voz no seio do Governo. O êxito do setor turístico, e com ele de toda a economia nacional, depende em grande medida de um sistema de transportes que saiba acompanhar e multiplicar as riquezas que o turismo pode gerar. E não se trata apenas de desenvolvimento económico: o próprio Governo, agindo como seria necessário, aumentaria decisivamente as suas hipóteses de ser reconduzido nas próximas eleições legislativas de 2026. Porque, como é sabido, quem vota lembra-se sempre com mais gratidão das melhorias recentes do que das falhas do passado.
Cabo Verde já não pode continuar a contentar-se em sobreviver às emergências; deve e pode construir um modelo de crescimento sustentável, assente em infraestruturas sólidas e serviços eficientes.
Com profunda estima, desejo sinceramente que o seu mandato possa ser recordado como o momento em que Cabo Verde escolheu transformar as dificuldades dos transportes num verdadeiro relançamento nacional.
E, para o dizer com a alma do nosso povo:
“Nhu Ministru, si transport ki ta dziga ben, turizmu ta vualta dziga kasvê – é si que ta pone nos terra na kaminhu di futura.”
(“Senhor Ministro, se os transportes funcionarem bem, o turismo crescerá com força – e é isso que pode colocar o nosso País no caminho do futuro.”)
Com elevada consideração e respeito,
J.L.
Cabo Verde24






































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