“Quase 25 mil pessoas já beneficiaram do sistema. Mas, para além da taxa de emprego, há uma mudança importante: parte do financiamento da formação passou a depender também do que acontece aos formandos depois do certificado.”
Em 30 segundos
🎓 Mais de 89% dos diplomados da formação inicial acompanhados estão empregados.
👥 O Fundo de Promoção do Emprego e da Formação já beneficiou 24.903 pessoas; 55% são mulheres.
💰 O financiamento anual passou de 88,6 milhões de escudos em 2021 para 795,2 milhões em 2025.
🔎 O próximo desafio é perceber não apenas quantos conseguem trabalho, mas que empregos conseguem e se as competências respondem às necessidades da economia.
Um número forte — e que exige contexto
Mais de 89%.
É a taxa de emprego reportada entre os diplomados da formação inicial acompanhados pelo Fundo de Promoção do Emprego e da Formação, segundo uma análise publicada pelo Banco Mundial.
O resultado chama a atenção. Mas talvez a parte mais interessante da experiência cabo-verdiana esteja menos na percentagem e mais na forma como o sistema tenta responder a uma pergunta essencial: o que acontece ao formando depois de receber o certificado?
Contar cursos, participantes e diplomas permite medir atividade. Não basta, porém, para saber se uma política de formação está realmente a aproximar as pessoas do mercado de trabalho.
É precisamente aí que o modelo destacado pelo Banco Mundial procura ir mais longe.
Os 89% não representam todos os formandos
Criado em 2012, o Fundo de Promoção do Emprego e da Formação já beneficiou 24.903 pessoas. As mulheres representam 55% e mais de metade dos beneficiários pertence aos dois escalões de rendimento mais baixos.
Há, contudo, uma distinção fundamental.
A taxa superior a 89% refere-se aos diplomados da formação inicial acompanhados. Considerando todos os tipos de formação financiados pelo fundo, a taxa de emprego reportada é de 66%.
Por isso, não seria correto concluir que nove em cada dez pessoas que passaram pelo sistema conseguiram emprego.
O que acontece seis meses depois
Um dos aspetos mais interessantes do modelo está precisamente no acompanhamento posterior à certificação.
Em colaboração com o Observatório Nacional do Mercado de Trabalho, são realizados inquéritos para verificar a situação profissional dos diplomados seis meses depois da certificação.
O acompanhamento procura saber não apenas se a pessoa está empregada, mas também se o trabalho obtido está relacionado com a área em que recebeu formação.
E os resultados têm consequências.
Os prestadores recebem o financiamento em duas parcelas e o segundo pagamento depende parcialmente dos resultados alcançados, incluindo indicadores de inserção profissional e abandono da formação.
A mudança de lógica é importante: não basta preencher salas e entregar certificados; passa também a contar aquilo que acontece depois.
Empresas também colocam dinheiro na formação
Na formação contínua existe outro mecanismo relevante: as empresas devem assegurar 50% do cofinanciamento.
A intenção é aproximar a formação das necessidades concretas dos empregadores. Quando uma empresa também investe recursos, aumenta naturalmente o seu interesse em que as competências ensinadas correspondam àquilo de que necessita.
O Banco Mundial considera, no entanto, que esta participação pode ser aprofundada, envolvendo mais as empresas na identificação das competências procuradas, elaboração dos programas e acompanhamento dos resultados.
De 88,6 para 795,2 milhões de escudos
Também a dimensão financeira do sistema mudou profundamente.
O financiamento anual passou de 88,6 milhões de escudos em 2021 para 795,2 milhões em 2025 — quase nove vezes mais em quatro anos.
Para 2026 estão previstos 768,5 milhões de escudos.
As chamadas para financiamento realizadas entre 2021 e 2024 abrangeram 13.985 beneficiários. Nesse período, o número anual passou de 2.608 pessoas em 2021 para 5.625 em 2024.
Aumentou também o peso dos recursos nacionais. Segundo o Banco Mundial, a participação do financiamento interno passou de 17% em 2022 para 47% em 2025, mantendo-se igualmente recursos provenientes de parceiros internacionais.
O paradoxo: bons resultados e milhares de jovens ainda de fora
É aqui que os números levantam uma questão maior.
Um diagnóstico recente do Banco Mundial estimava que, em 2024, mais de 41 mil jovens entre 15 e 35 anos estavam fora do emprego, educação ou formação.
Ao mesmo tempo, empresas continuam a relatar dificuldades para encontrar trabalhadores com determinadas competências.
Surge assim um aparente paradoxo: programas de formação apresentam taxas elevadas de inserção profissional, enquanto milhares de jovens permanecem afastados do mercado e empregadores continuam à procura de determinadas qualificações.
Uma realidade não invalida necessariamente a outra.
Pode significar que determinados programas estão a conseguir bons resultados, enquanto permanecem problemas mais amplos relacionados com qualificações, abandono escolar, informalidade, localização dos trabalhadores ou desencontro entre as competências disponíveis e aquelas que a economia procura.
Conseguir emprego é apenas metade da pergunta
É precisamente aqui que começa a próxima avaliação.
Saber que uma pessoa está empregada seis meses depois da formação é importante. Mas falta perceber quanto ganha, se o emprego é formal, durante quanto tempo permanece empregada, se existe possibilidade de progressão e se o trabalho corresponde efetivamente à qualificação adquirida.
O próprio Banco Mundial aponta para a necessidade de aprofundar o acompanhamento, incluindo a qualidade dos empregos e os rendimentos.
Os mais de 89% são, portanto, um resultado relevante.
Mas o verdadeiro teste para Cabo Verde será perceber se o forte crescimento do investimento em formação está a produzir não apenas mais pessoas empregadas, mas também melhores empregos e as competências de que a economia realmente necessita.
Caboverde24.info
Fonte: Banco Mundial — “How Cabo Verde uses data and financing to turn skills training into jobs”, publicado em 28 de setembro de 2026; documentação do programa Creating Opportunities and Reaching Results on Employment.





























