Três dias no Sal: os resultados dos encontros do futebol africano e os próximos passos

Em 30 segundos

  • ⚽ 54 federações africanas participaram nos encontros realizados de 7 a 9 de outubro, em Santa Maria, na ilha do Sal.

  • 🏆 O calendário do CAN poderá mudar novamente: a CAF admite reconsiderar a decisão de realizar a competição de quatro em quatro anos.

  • 💰 700 mil dólares anuais por federação: a CAF apresentou a evolução dos apoios e reafirmou o objetivo de atingir um milhão.

  • 🇨🇻 Cabo Verde pediu tratamento diferenciado para pequenos Estados, mas não foram anunciados novos investimentos específicos para o país.

O que aconteceu durante os três dias?

Entre 7 e 9 de outubro, a ilha do Sal recebeu a Conferência Estratégica da Confederação Africana de Futebol (CAF), reunindo representantes das 54 federações africanas, dirigentes internacionais, treinadores, antigos jogadores e especialistas.

Entre os participantes estiveram Patrice Motsepe, presidente da CAF, Gianni Infantino, presidente da FIFA, e Arsène Wenger, responsável pelo desenvolvimento global do futebol na organização internacional.

Cabo Verde esteve representado pelo presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol, Mário Semedo, e por Pedro Brito, conhecido por Bubista, antigo selecionador nacional.

A sessão oficial de abertura, realizada na quinta-feira, 8 de outubro, no Hotel Hilton, contou ainda com a intervenção de Janira Hopffer Almada, Presidente da República interina, que presidiu à cerimónia.

Os trabalhos dividiram-se em três momentos:

  • 7 de outubro — Formação e desenvolvimento: a Comissão Técnica e de Desenvolvimento examinou a formação de treinadores, a preparação de jovens jogadores e o reforço das estruturas técnicas. A CAF apresentou dados segundo os quais 19.685 treinadores foram certificados em África entre 2021 e 2026, demonstrando a dimensão dos investimentos realizados na qualificação profissional.

  • 8 de outubro — Estratégia e financiamento: os dirigentes das federações analisaram os recursos financeiros, a sustentabilidade das competições, as parcerias comerciais e a cooperação com a FIFA. Foi também reafirmado o apoio africano à recandidatura de Gianni Infantino.

  • 9 de outubro — O balanço do Mundial: o último dia foi dedicado à análise do Campeonato do Mundo de 2026 e às melhorias necessárias para 2030. Wenger apresentou uma avaliação técnica, com a participação de treinadores que estiveram no Mundial, incluindo Bubista.

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Primeira novidade: o CAN poderá continuar de dois em dois anos

Uma das principais notícias surgiu no encerramento da conferência.

Patrice Motsepe confirmou que a CAF está a reavaliar a decisão de realizar a Taça das Nações Africanas de quatro em quatro anos.

A alteração, anunciada em dezembro de 2025, previa a realização das edições de 2027 e 2028, seguindo-se uma nova periodicidade quadrienal a partir de 2032. Entretanto, a proposta suscitou reservas no futebol africano.

No Sal, Motsepe admitiu que todas as possibilidades estão novamente em análise, incluindo a manutenção da competição de dois em dois anos. Não foi anunciada uma decisão definitiva nem um prazo para concluir essa revisão.

Para Cabo Verde, a periodicidade do CAN influencia o calendário de qualificação, a preparação dos Tubarões Azuis e as oportunidades de participação nas fases finais. A próxima edição mantém-se prevista para 19 de junho a 17 de julho de 2027, com organização conjunta do Quénia, Tanzânia e Uganda.

Segunda novidade: mais recursos para as federações

O financiamento constituiu outro tema central.

Motsepe apresentou a evolução dos apoios anuais da CAF, que passaram de cerca de 200 mil para 700 mil dólares por federação, desde o início do seu mandato, em 2021.

O objetivo declarado é elevar esse montante para um milhão de dólares anuais por associação, através do crescimento das receitas comerciais, patrocínios e contratos de transmissão. A CAF pretende reforçar o financiamento da formação, das academias, do futebol escolar, das competições nacionais e das estruturas administrativas. Contudo, os 700 mil dólares correspondem ao nível de apoio já apresentado pela organização, enquanto o milhão continua a ser uma meta sem calendário público de concretização.

Da parte da FIFA, Gianni Infantino destacou o investimento de mil milhões de dólares em dez anos através do programa FIFA Forward. Segundo a organização, os recursos contribuíram para 124 projetos, incluindo instalações desportivas, centros de treino e infraestruturas administrativas. Trata-se de um investimento acumulado, não de uma nova verba aprovada durante os encontros no Sal.

Terceiro destaque: a CAF reafirma o apoio a Infantino

A conferência também ficou marcada pela reafirmação do apoio das 54 federações africanas à recandidatura de Gianni Infantino à presidência da FIFA, para o mandato de 2027 a 2031.

O posicionamento não constitui uma novidade. A CAF já tinha anunciado esse apoio por unanimidade em 29 de abril de 2026, numa reunião realizada em Vancouver, no Canadá, e voltou a renová-lo em agosto. O encontro no Sal serviu, portanto, para confirmar publicamente uma posição anteriormente assumida.

A reafirmação acontece num contexto de debate internacional sobre a gestão da FIFA, nomeadamente após o fracasso de um projeto que previa a participação de investidores privados numa estrutura comercial ligada aos direitos das competições.

Entretanto, surgiu um possível adversário de Infantino. Na quarta-feira, 7 de outubro, o antigo defesa internacional suíço Ramon Vega anunciou a intenção de disputar as eleições. Para formalizar a candidatura, terá de cumprir os requisitos estatutários, incluindo a apresentação por uma federação nacional e o apoio de pelo menos outras cinco. A eleição está prevista para 18 de março de 2027, em Rabat, Marrocos. Embora represente um apoio significativo, a posição anunciada pela CAF não substitui a votação formal das federações no Congresso da FIFA.

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O que Wenger concluiu sobre o futebol africano?

O último dia produziu algumas das conclusões mais diretamente relacionadas com o desempenho desportivo.

Dez seleções africanas participaram no Mundial de 2026 e nove conseguiram ultrapassar a fase de grupos, o melhor resultado coletivo do continente. Cabo Verde esteve entre essas seleções, empatando com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, antes de ser eliminado pela Argentina por 3-2, após prolongamento, nos dezasseis avos de final.

Arsène Wenger destacou os progressos na organização tática e na disciplina das equipas africanas, mas identificou dificuldades que continuam a fazer a diferença nos jogos decisivos. Entre os aspetos analisados estiveram a criação de oportunidades de golo, a presença na área adversária, a recuperação rápida da bola e a gestão dos minutos finais.

Segundo Wenger, o continente aproximou-se das principais potências mundiais, mas precisa de melhorar detalhes técnicos e táticos que frequentemente determinam o resultado de encontros equilibrados. Bubista apresentou a experiência cabo-verdiana como exemplo da importância de estabelecer objetivos claros e preparar diferentes soluções táticas. O técnico deixou entretanto o comando da seleção nacional, atualmente orientada por Humberto Bettencourt.

Futebol feminino, formação e infraestruturas

A conferência também dedicou atenção ao desenvolvimento do futebol feminino, à preparação de treinadores e ao apoio às camadas jovens. Os dirigentes defenderam melhores condições de formação, maior investimento nas estruturas desportivas e o reforço da sustentabilidade das federações.

Infantino destacou um problema concreto: há dois anos, 26 das 54 federações africanas não dispunham de estádios em condições para receber jogos internacionais. Segundo o presidente da FIFA, esse número diminuiu para 14, incluindo duas federações impedidas de jogar em casa por motivos de segurança. O objetivo é permitir que todas as seleções possam disputar os seus encontros internacionais nos próprios países.

O pedido de Cabo Verde: tratamento diferenciado para pequenos Estados

Uma das intervenções com maior interesse para o país foi realizada por Janira Hopffer Almada. Durante os encontros no Sal, a Presidente da República interina defendeu que a FIFA e a CAF adotem um tratamento diferenciado para pequenos Estados, como Cabo Verde.

Segundo a Presidência da República, o pedido foi apresentado diretamente aos responsáveis das duas organizações, tendo em conta as limitações de recursos que países de pequena dimensão enfrentam para desenvolver o futebol. A proposta procura que essas diferenças sejam consideradas nos mecanismos de apoio e desenvolvimento desportivo.

Não foi anunciada, contudo, qualquer decisão da FIFA ou da CAF que estabeleça um novo regime específico para Cabo Verde. A questão merece acompanhamento porque poderá ter implicações futuras no financiamento da formação, na construção de infraestruturas e nas condições de participação nas competições internacionais.

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O que ganhou Cabo Verde com a conferência?

A escolha da ilha do Sal representou um reconhecimento internacional do percurso alcançado pelos Tubarões Azuis no Mundial de 2026. O encontro permitiu ainda reforçar os contactos da Federação Cabo-verdiana de Futebol com dirigentes internacionais e representantes das restantes federações africanas.

A presença das delegações também trouxe atividade aos hotéis, restaurantes, transportes e serviços envolvidos na organização. Do ponto de vista desportivo, a conferência permitiu apresentar o exemplo cabo-verdiano como demonstração de que países de pequena dimensão podem competir ao mais alto nível internacional.

Mas, para além da visibilidade e dos contactos estabelecidos, há resultados que continuam por concretizar. Os comunicados finais da CAF não identificam novos estádios, centros de formação ou programas exclusivamente destinados a Cabo Verde, com financiamento e calendário de execução já definidos.

A Presidência da República tinha igualmente anunciado a previsão de uma Declaração de Cabo Verde sobre o desenvolvimento e o desempenho do futebol africano. No entanto, o balanço público final da CAF consultado não esclarece se o documento foi formalmente adotado nem disponibiliza o seu texto integral.

Os próximos encontros e datas importantes

  • 11 e 15 de novembro de 2026 — Cabo Verde frente à Libéria: estão previstos dois encontros consecutivos de qualificação para o CAN de 2027. Depois das derrotas com Mali e Ruanda, os jogos serão importantes para as possibilidades de qualificação dos Tubarões Azuis.

  • 18 de novembro de 2026 — Candidaturas à FIFA: prazo previsto para apresentação das candidaturas à presidência da organização internacional, momento para verificar se Ramon Vega formaliza a sua disputa eleitoral.

  • 21 de novembro de 2026 — Assembleia Geral da CAF: a Nigéria receberá a Assembleia Geral Ordinária da confederação, onde poderão surgir novos desenvolvimentos sobre o calendário e as prioridades do futebol africano.

  • 7 de dezembro de 2026 — Prémios do futebol africano: Lagos acolherá a cerimónia dos CAF Awards. As datas da Assembleia Geral e dos prémios foram aprovadas pelo Comité Executivo da CAF em 2 de outubro.

  • 18 de março de 2027 — Eleições da FIFA: o Congresso eleitoral terá lugar em Rabat, Marrocos, para escolher a liderança da organização internacional.

  • 19 de junho a 17 de julho de 2027 — Taça das Nações Africanas: o Quénia, a Tanzânia e o Uganda organizarão a fase final da competição. A presença de Cabo Verde dependerá dos resultados da qualificação.

  • 2028 e 2030 — As próximas grandes etapas: a CAF mantém prevista outra edição do CAN em 2028, enquanto o Campeonato do Mundo de 2030 será o principal horizonte para avaliar a evolução técnica e organizativa discutida no Sal.

Continuam sem datas públicas definidas a conclusão da revisão da periodicidade do CAN e a concretização da meta de um milhão de dólares anuais por federação.

O balanço: reconhecimento internacional e compromissos por concretizar

Os três dias no Sal permitiram reunir os principais responsáveis do futebol africano, examinar os resultados do Mundial e definir prioridades para os próximos anos.

A reconsideração do calendário do CAN foi a principal novidade competitiva. No financiamento, ficaram reafirmadas metas que ainda exigem concretização. No plano institucional, a CAF renovou o apoio a Infantino.

Para Cabo Verde, o encontro reforçou o reconhecimento internacional conquistado pela seleção e permitiu apresentar diretamente às organizações do futebol mundial as necessidades específicas dos pequenos Estados. Mas a conferência não deixou, nos documentos finais disponíveis, novos investimentos nacionais com execução já definida.

O verdadeiro legado dos encontros será medido nos próximos anos, sobretudo pela concretização dos compromissos financeiros, pelo desenvolvimento da formação e pelas condições oferecidas aos jogadores, clubes e seleções.

Caboverde24.info

Fontes: Confederação Africana de Futebol; FIFA.

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