“Sei que ela é a mãe e que partiu para construir uma vida melhor para eles. Mas fui eu quem os criou durante estes anos. Como é que se aprende a deixar partir duas crianças que se tornaram a nossa vida?”
Quando a partida provisória se torna uma vida inteira
Há partidas que deveriam durar pouco e acabam por redefinir a estrutura de uma família inteira.
Entre as histórias e desabafos que chegam à redação através da rubrica Entre Nós, destacamos este testemunho por refletir uma realidade profundamente enraizada na sociedade cabo-verdiana: a emigração de um progenitor em busca de melhores condições de vida, ficando os filhos entregues aos cuidados e ao afeto dos avós.
O que acontece, porém, quando o horizonte temporal provisório se estende por mais de meia década?
Para salvaguardar a privacidade dos intervenientes, adotamos o nome fictício de Rosa para a avó que partilha este testemunho íntimo.
“A ideia era ficarem comigo apenas até ela se organizar”
A filha de Rosa emigrou para a Europa há seis anos. Na altura, as duas crianças estavam ainda na primeira infância e o acordo familiar previa a permanência com a avó em Cabo Verde até que a mãe conseguisse trabalho regular, alojamento condigno e estabilidade documental e financeira.
Rosa aceitou de imediato. Afigurava-se a solução mais sensata para proteger os menores da precariedade inicial e conceder à filha a tranquilidade necessária para construir bases sólidas.
Os meses, todavia, converteram-se em anos.
Ao longo de todo este ciclo, a mãe assegurou contactos telefónicos regulares e enviou remessas monetárias consoante as suas possibilidades. Rosa recusa liminarmente qualquer acusação de abandono ou desinteresse parental:
“Ela nunca se esqueceu deles. Telefonava, mandava dinheiro e fazia o que conseguia. Sei que tudo o que fez foi também a pensar no futuro dos filhos.”
Contudo, a gestão do dia a dia decorreu integralmente no chão das ilhas. Foi Rosa quem garantiu o ritmo das manhãs escolares, cuidou nas noites de febre, acompanhou o rendimento letivo, impôs limites disciplinares e celebrou cada aniversário.
Sem fronteiras formais, a missão de tutora temporária transformou-se em parentalidade efetiva:
“Eles são meus netos, mas tornaram-se também os meus meninos.”
Agora a mãe quer finalmente reunir a família
Seis anos depois, o objetivo migratório da filha concretizou-se. Dispõe de estabilidade laboral, uma habitação com condições para acolher o agregado e expressou a decisão de levar os filhos para o país de acolhimento europeu.
Era o desfecho esperado e planificado desde a partida. Rosa reconhece a legitimidade da reunificação, mas depara-se com um bloqueio emocional severo:
“Quando a minha filha me disse que queria levá-los, respondi que estava feliz. Depois desliguei o telefone e chorei.”
A avó assegura não querer erguer barreiras ou forçar as crianças a um conflito de pertença, mas confessa o receio perante o esvaziamento da casa e o silêncio que se avizinha.
A apreensão estende-se à adaptação dos netos. Criados no ambiente sociocultural cabo-verdiano, com laços escolares, comunitários e de amizade consolidados, as crianças têm na mãe uma referência afetiva construída sobretudo por videochamada e à distância:
“Às vezes pergunto-me se elas estão preparadas para deixar tudo de uma vez. Depois sinto-me culpada, porque talvez seja apenas uma maneira de eu tentar encontrar razões para que fiquem comigo. Sei que não posso reter os filhos da minha filha só porque vou sofrer com a ausência. Mas como é que se deixa partir quem esteve connosco todos os dias durante seis anos?”
Resposta da Direção
Cara Rosa,
A dor que manifesta não transforma a sua filha numa mãe ausente, nem faz de si uma avó possessiva.
O seu relato espelha o sacrifício partilhado de milhares de famílias no nosso arquipélago: uma mãe que partiu para viabilizar um futuro materialmente mais seguro e uma avó que assumiu, durante seis anos críticos do crescimento, o papel de esteio afetivo e protetor para viabilizar esse mesmo projeto de vida.
Ambas integraram a vida destas crianças em dimensões indispensáveis. É vital desconstruir a linguagem de posse: os filhos não são objetos a “devolver”.
Ao longo destes seis anos foram edificados laços de filiação afetiva genuínos. A mudança de país e a necessária integração com a mãe não devem, nem precisam, de anular o património emocional que as crianças construíram consigo em Cabo Verde.
Sugerimos que esta transição não seja tratada como um assunto exclusivo entre adultos. Consoante a faixa etária e a maturidade dos seus netos, as crianças devem ser preparadas psicologicamente, ouvidas nas suas dúvidas e informadas com clareza sobre as mudanças que vão viver.
Sempre que a logística o permita, uma transição faseada mitiga o risco de rutura abrupta: explicar antecipadamente os detalhes da nova cidade, a dinâmica escolar, manter canais de comunicação diários com a avó e transmitir-lhes a certeza de que a partida para a Europa não encerra a ligação com a família que permanece no arquipélago.
Aconselhamos igualmente uma conversa honesta e serena com a sua filha. É perfeitamente legítimo manifestar regozijo pelo sucesso do seu reagrupamento familiar e, no mesmo fôlego, assumir a vulnerabilidade do seu luto e da sua saudade.
O cuidado essencial consiste em não transferir essa angústia para o universo dos menores sob a forma de culpa inconsciente, evitando qualquer leitura de rivalidade afetiva. Os seus netos precisam de saber que amar a mãe e abraçar a nova etapa não representa qualquer deslealdade para com a avó.
A sua casa sentirá inevitavelmente o vazio da partida. Contudo, o alicerce humano e moral que lhes transmitiu ao longo de seis anos não se dissolve no momento do embarque. O desafio de toda a família reside agora em gerir a distância geográfica sem fragilizar a força do vínculo familiar.
E você, o que faria?
Se tivesse assumido a criação integral dos seus netos durante seis anos, com que maturidade enfrentaria a hora da partida?
Considera que o reagrupamento com a mãe biológica deve ser imediato assim que existam condições materiais ou defende um período de adaptação progressivo?
Em que medida a estabilidade emocional e a opinião das próprias crianças devem pesar na decisão final?
Partilhe o seu testemunho com a redação
A rubrica Entre Nós existe para dar visibilidade às encruzilhadas humanas, relacionais e geracionais que tantas vezes permanecem no recato privado dos lares cabo-verdianos e da nossa diáspora.
Se enfrenta ou superou um dilema familiar, afetivo, profissional ou social e deseja partilhá-lo de forma segura, escreva para a redação do Caboverde24.info.
O anonimato e a confidencialidade dos intervenientes são rigorosamente garantidos. O seu relato poderá ser selecionado e adaptado editorialmente, permitindo abrir pontes de reflexão e apoio mútuo na nossa comunidade.
Cape Verde 24.info
Fonte: Testemunho de leitora — Entre Nós / Caboverde24.info.
POST





























