“Estudos internacionais mostram que apenas entre 2% e 5% dos empregos correm risco real de desaparecer — mas há profissões concretas mais expostas do que outras”
Um medo global chega às ilhas
A inteligência artificial (IA) tornou-se, em 2026, um dos temas mais discutidos no mercado de trabalho mundial. Segundo o mais recente 2026 Global AI Jobs Barometer da PwC, que analisou detalhadamente mais de mil milhões de anúncios de emprego em 27 países e territórios, também Cabo Verde já é objeto de análise específica. O relatório da PwC Cabo Verde é claro quanto ao posicionamento do país: a IA afirma-se como uma oportunidade estratégica para acelerar a transição para uma economia mais digital e inteiramente baseada em talento, defende a prestigiada consultora.
Mas a pergunta que preocupa milhares de trabalhadores cabo-verdianos permanece: quais empregos estão realmente em risco?
O que dizem os números internacionais
A resposta mais sólida vem da Organização Internacional do Trabalho, segundo a qual apenas entre 2% e 5% dos empregos globais correm o risco de ser totalmente substituídos pela IA. O impacto real é bem mais complexo: um estudo do Banco Mundial mostrou que nos Estados Unidos as vagas de emprego em profissões mais expostas à IA caíram 12% em média entre o final de 2022 e junho de 2025, com esse efeito a agravar-se ano após ano. As funções mais atingidas foram o apoio administrativo e os serviços profissionais.
Exemplos concretos: empregos mais expostos
Alguns exemplos práticos ajudam a perceber onde a automação já está a substituir tarefas humanas, inclusive em contextos próximos da realidade cabo-verdiana:
- Operadores de caixa e atendimento em lojas — substituídos progressivamente por terminais de autoatendimento e pagamento automático.
- Serviços de apoio ao cliente por telefone ou chat — cada vez mais geridos por assistentes virtuais e chatbots.
- Introdução e processamento de dados, arquivo e digitação — tarefas repetitivas de escritório já automatizáveis por software de IA.
- Tradução básica de textos — ferramentas automáticas cobrem já grande parte da tradução simples.
- Contabilidade de rotina e emissão de faturas — sistemas automáticos reduzem a necessidade de trabalho manual repetitivo.
- Trabalho de linha de montagem e controlo de stock em armazéns — cada vez mais assistido por sensores e sistemas preditivos.
Estas funções, hoje presentes também em Cabo Verde no comércio, na administração pública e nos serviços de apoio empresarial, tendem a perder peso relativo à medida que as empresas adotam ferramentas digitais.
Exemplos concretos: empregos que não vão desaparecer
Do lado oposto, há profissões que continuam — e continuarão — a depender de competências exclusivamente humanas:
- Trabalhadores da hotelaria e restauração — receção, atendimento direto, hospitalidade e improviso não são replicáveis por máquinas.
- Pescadores e agricultores — trabalho manual em ambiente físico pouco estruturado.
- Trabalhadores da construção civil — tarefas manuais e de adaptação a terrenos e condições imprevisíveis.
- Enfermeiros, médicos e cuidadores — exigem confiança, empatia e julgamento clínico direto com o paciente.
- Professores e formadores — a relação pedagógica e o acompanhamento individual continuam insubstituíveis.
- Guias turísticos e animadores culturais — o valor está precisamente na experiência humana e local.
- Artesãos e produtores locais — o valor do trabalho manual e da autenticidade é, aliás, reforçado pela automação em massa noutros setores.
Cabo Verde: um mercado ainda pouco exposto
A estrutura do mercado de trabalho cabo-verdiano oferece, para já, alguma proteção. O setor terciário absorve 70% dos empregos do país, mas grande parte dessa fatia está concentrada em comércio, construção, alojamento e restauração — atividades fortemente ligadas ao turismo, sobretudo nas ilhas do Sal e da Boa Vista, que concentram a maior parte da procura turística nacional.
Segundo a PwC, os setores que mais cresceram em contratações ligadas à IA em Cabo Verde foram tecnologia, media e telecomunicações, e serviços profissionais — áreas que representam ainda uma fatia pequena do emprego formal do país.
Soma-se a isto um dado estrutural: quase metade da força de trabalho cabo-verdiana opera na economia informal, um universo praticamente impermeável, para já, à automação por inteligência artificial.
Nota editorial:
Os dados relativos ao impacto direto da IA sobre o emprego em Cabo Verde ainda são escassos e baseiam-se sobretudo em projeções internacionais aplicadas ao contexto nacional. A ausência de estudos locais aprofundados é, em si, um indicador da fase inicial em que o país se encontra nesta transição tecnológica.
Recordamos que…
A IA já está a transformar tarefas repetitivas em todo o mundo, mas que, em Cabo Verde, a forte presença do turismo, da pesca, da agricultura e da economia informal mantém, para já, uma margem de proteção altamente significativa para a maioria dos trabalhadores, estabilizando as perspetivas de emprego neste dia 3 de julho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: PwC Cabo Verde — 2026 Global AI Jobs Barometer





























