​A imprensa internacional dá voz às mulheres que ainda vivem da areia negra em Cabo Verde

“Reportagem da AFP mostra o quotidiano duro das apanhadoras de areia em Ribeira da Barca, numa prática ilegal mas tolerada há décadas”

O quotidiano na extração de inertes

​A agência francesa AFP publicou esta semana uma extensa reportagem sobre a realidade social das mulheres que, em Ribeira da Barca, na ilha de Santiago, continuam a extrair areia negra das praias para venda ilegal, uma atividade económica informal que já moldou boa parte da capital, Praia, mas que hoje deixa marcas profundas na paisagem e na vida destas trabalhadoras rurais.

Maria Eleonore Monteiro, Vania Tavares e outras quatro mulheres da zona repetem quase todos os dias o mesmo ritual físico: enchem baldes de areia mal a onda recua, equilibram o peso na cabeça e transportam-nos até um depósito, onde a areia será vendida a empreiteiros de construção ou revendedores. Um carregamento pode render cerca de 140 dólares, mas o processo de acumulação leva semanas.

​Conhecidas informalmente como “ladras de areia”, muitas destas mulheres não sabem nadar, apesar de trabalharem diariamente dentro de água. Monteiro conta à AFP que já não tem alternativa de emprego e que sofre dores nas costas e cicatrizes nas pernas resultantes de quedas nas rochas.

Uma prática ilegal, mas tolerada

​A extração de areia é estritamente proibida em Cabo Verde por legislação nacional aprovada entre 1997 e 2017, com penas que vão de multas financeiras a prisão efetiva.

​Ainda assim, a reportagem indica que as autoridades têm, em certos casos, tolerado a prática por se tratar de uma questão de sobrevivência: as mulheres ouvidas pela AFP afirmam não ter tido problemas com a polícia nos últimos três anos.

Consequências para a agricultura e o litoral

​A reportagem cita Samuel Leal, engenheiro agrónomo do Ministério da Agricultura e Ambiente em Santa Cruz, que descreve “consequências desastrosas para a agricultura” na zona da Praia de Areia Grande, onde a barreira natural foi quebrada e a água do mar penetrou nos terrenos, provocando a salinização do solo. Cerca de uma centena de agricultores terão abandonado os seus campos apenas nesta região.

Quem são as apanhadoras de areia de Ribeira da Barca?

​As apanhadoras de areia de Ribeira da Barca constituem um grupo social de mulheres chefes de família que encontram nesta dura atividade física a única fonte de rendimento para o sustento dos agregados familiares. Operando num contexto de isolamento geográfico e vulnerabilidade económica, personificam o desafio de transição ecológica nas comunidades costeiras da ilha de Santiago.

Ana Veiga, diretora da ONG Lantuna, é mais crítica em relação à atuação das autoridades e defende um plano estruturado de reintegração social para estas mulheres, que sente marginalizadas. Segundo a reportagem, dezenas delas já mudaram de atividade nos últimos dois anos, dedicando-se à criação de porcos e ovelhas.

Nota editorial:

Esta reportagem da AFP volta a colocar em evidência internacional um tema que atravessa décadas em Cabo Verde: a relação entre pobreza, ausência de alternativas económicas em zonas rurais e degradação costeira. É também um lembrete de como o arquipélago é olhado lá fora — nem sempre pelas praias de cartão-postal, mas também pelas realidades sociais menos visíveis.

Recordamos que…

A extração ilegal de areia em Cabo Verde é um problema antigo, ligado ao boom da construção nos anos 80 e 90, quando a areia se tornou o principal recurso natural disponível para a expansão urbana da capital, Praia, com a atualidade socioambiental a ser acompanhada detalhadamente hoje, sexta-feira, 17 de julho de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: AFP (Agence France-Presse)

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