Investigador cabo-verdiano identifica Cabo Verde como hotspot crítico para conservação de tubarões

“A sobrevivência dos tubarões é a sobrevivência dos nossos oceanos — e dos nossos pescadores”

Jaquelino Varela, investigador cabo-verdiano, concluiu o doutoramento em Ciências na Universidade de Lisboa com a classificação máxima — louvor e distinção, atribuída por unanimidade. A sua investigação destaca uma conclusão com profundas implicações para Cabo Verde e para a conservação marinha no Atlântico: o arquipélago é um hotspot crítico de biodiversidade e reprodução de tubarões, e uma zona prioritária para a proteção destas espécies no Atlântico Oriental, onde enfrentam pressões crescentes de sobrepesca industrial e artesanal.

​O trabalho, desenvolvido ao longo de vários anos entre Lisboa e Cabo Verde, revela que dois terços das espécies de tubarões identificadas em águas cabo-verdianas estão ameaçadas de extinção. Para um país cuja economia e segurança alimentar dependem fortemente da pesca e cujo setor do turismo cresce em torno da natureza marinha preservada, os resultados abrem um debate urgente sobre proteção dos oceanos.

​A descoberta que muda a equação

​A investigação de Varela não é apenas um exercício académico. Integra rigor científico com conhecimento ecológico local — conversas profundas com pescadores artesanais das ilhas, homens e mulheres que passam a vida no mar e observam há décadas as mudanças na abundância de tubarões. Em Cabo Verde, onde as séries de dados biológicos são ainda fragmentárias, esse conhecimento acumulado revelou-se determinante.

​Um dos achados mais significativos foi a identificação da baía de Sal Rei, na Boa Vista, como berçário crítico de espécies ameaçadas. A área funciona como zona de recrutamento — onde filhotes crescem antes de migrarem para águas mais profundas — e sua degradação poria em risco toda a dinâmica populacional.

​Implicações para políticas nacionais e regionais

​Varela propõe um Plano de Ação nacional para Conservação e Gestão de tubarões, sustentado em dados científicos rigorosos. Ao nível regional, identifica espécies prioritárias para iniciativas de conservação conjuntas entre arquipélagos do Atlântico Norte — trabalho colaborativo fundamental num oceano sem fronteiras políticas.

​As recomendações incluem: expansão de áreas marinhas protegidas, proteção de habitats críticos, melhoria robusta de sistemas de registo de capturas e articulação efetiva entre pescas, ambiente e turismo. A medida é urgente porque os desequilíbrios já começam a manifestar-se em cascata pela cadeia alimentar.

​Uma lição sobre comunicação entre saberes

​O que torna este trabalho particularmente valioso é como desafia a hierarquia tradicional entre “conhecimento científico” e “conhecimento local”. Varela demonstrou que a boa ciência — sobretudo a aplicada à conservação — precisa conversar com as comunidades, com a experiência direta, com a memória ecológica guardada pelos pescadores.

​Esta integração não é romantismo: é pragmatismo. Qualquer medida de proteção marinha que ignore a realidade socioeconómica das comunidades piscatórias está condenada ao insucesso. Os pescadores de Cabo Verde não vão aceitar restrições que os empobreçam se não compreenderem — e não forem incluídos — na lógica das soluções.

Uma visão de Cabo Verde no mundo

​Varela reflete que este reconhecimento académico é também um reconhecimento da capacidade de investigadores cabo-verdianos produzirem ciência de excelência internacional. Tal como Cabo Verde ganhou visibilidade global com o histórico desempenho na Copa do Mundo 2026, surge agora uma segunda frente de excelência: jovens que estudam em universidades de topo europeia e regressam (ou mantêm ligações) com investigação original e rigorosa.

​Para Varela, Cabo Verde reúne condições únicas para liderar a conservação marinha no Atlântico Tropical: localização estratégica, biodiversidade elevada, ligação histórica profunda ao mar. Mas isso requer instituições fortes, fiscalização eficaz e investimento contínuo em investigação. A economia azul — turismo de natureza, pesca sustentável, biotecnologia marinha — só prospera se os oceanos estiverem vivos.

A perceção errada sobre tubarões

​Um dos mitos que a investigação ajuda a desfazer: tubarões como animais intrinsecamente perigosos para humanos. Ataques são extremamente raros; a maioria das espécies não representa ameaça. O cinema e o sensacionalismo alimentaram essa imagem.

​A realidade é inversa: tubarões são predadores que estabilizam as cadeias alimentares marinhas. Sua desaparição gera desequilíbrios ecológicos massivos, com efeitos em cascata sobre toda a comunidade marinha — incluindo as espécies que os humanos pescam para alimentação. Proteger tubarões é proteção indireta dos ecossistemas que sustentam a pesca.

​Quem é Jaquelino Varela?

Jaquelino Varela é um investigador nascido em Cabo Verde, estudou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no programa de doutoramento, onde trabalhou sob orientação de especialistas em ecologia marinha. O seu trabalho integra modelação ecológica, dinâmica de populações, ecologia comportamental, e — particularmente inovador — metodologias participativas com comunidades locais. Atualmente, participa em fóruns científicos internacionais sobre oceanos, clima e desenvolvimento sustentável, representando tanto um percurso individual como a capacidade de Cabo Verde produzir conhecimento de relevância global.

Caboverde24.info

Fonte: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

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