Organizações ambientais alertam para impactos da iluminação LED sobre aves marinhas e tartarugas em Cabo Verde

“Preocupam os efeitos da iluminação artificial sobre a fauna noturna durante a modernização da iluminação pública.”

Três organizações de conservação da natureza em Cabo Verde estão a denunciar os efeitos nocivos da substituição da iluminação pública por tecnologia LED, um processo que começou formalmente em fevereiro de 2025. Segundo as organizações, organizações de conservação associam a nova iluminação a um aumento da mortalidade de aves marinhas e alertam para possíveis impactos na nidificação de tartarugas.

A situação na ilha de Santo Antão

Silvana Roque, diretora-executiva da Terrimar (Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável), começou a detetar impactos há alguns meses. Na zona da Ribeira das Pombas, em Santo Antão, segundo a Terrimar, foram identificadas mais de 30 aves marinhas mortas nos últimos três meses, um número muito superior ao habitual.

“Várias aves marinhas têm sido encontradas mortas ou caídas no solo, situação que a organização associa ao encandeamento provocado pela iluminação artificial. Aquela luz desorienta esses animais que têm hábitos noturnos, e eles caem no chão e aí ficam vulneráveis a predadores, como os gatos”, explicou Silvana Roque.

​Os casos foram registados em zonas onde a Terrimar trabalha há vários anos, mas nunca tinha observado quedas de aves deste volume durante esse período. A literatura científica demonstra que a iluminação artificial noturna pode desorientar aves marinhas, aumentando o risco de quedas, colisões e exposição a predadores.

Tartarugas afetadas pelas praias iluminadas

​A organização identificou praias de nidificação de tartarugas onde a iluminação pública é suficientemente intensa para atingir toda a faixa costeira. Segundo as organizações ambientais, a iluminação artificial pode interferir na deslocação das fêmeas para as zonas de desova, e os juvenis recém-nascidos são atraídos pela luz artificial em vez de se orientarem pela luminosidade natural do oceano.

​Desde junho, segundo os dados de monitorização apresentados pela organização, o número de ninhos registados numa dessas praias correspondeu a cerca de um terço do observado no mesmo período de anos anteriores — uma queda que compromete a viabilidade das populações de tartaruga.

Sal: preocupações com o aumento da iluminação artificial

​Na ilha do Sal, Albert Taxonera, presidente do Projeto Biodiversidade, manifestou uma preocupação relacionada com o aumento da iluminação artificial, especialmente ao longo da estrada entre Santa Maria e Espargos.

“A preocupação não está necessariamente relacionada com a tecnologia LED em si, mas com a multiplicação de fontes de luz, que pode afetar a fauna noturna,” explica. Entre as principais preocupações estão os efeitos sobre as tartarugas recém-nascidas, que usam a luz natural para se orientar para o mar e podem ser atraídas por fontes artificiais.

Brava: um dos casos mais preocupantes

​A situação na Brava é particularmente grave. Em abril de 2025, o Projeto Vitó denunciou a morte de mais de 150 aves, um número que o Projeto Vitó associou à substituição das antigas lâmpadas de vapor de sódio por iluminação LED branca de alta intensidade.

​Posteriormente, foram identificadas aves de três espécies endémicas de Cabo Verde e de uma espécie migratória. Algumas morreram após colisão direta com a iluminação; outras foram predadas por gatos após ficarem desorientadas no solo.

​Na altura, a EDEC afirmou que ainda não estava cientificamente comprovada uma relação causal entre a iluminação LED e a mortalidade das aves, defendendo a necessidade de dados que permitissem confirmar essa associação.

Recomendações das organizações ambientais

​As três organizações de conservação apresentam propostas concretas:

  • Instalação de proteções nas luminárias para direcionar a luz apenas para o solo
  • Evitar ou reduzir a iluminação em zonas sensíveis de reprodução
  • Realização de estudos de impacto ambiental antes da implementação de mudanças significativas
  • Consulta obrigatória a organizações de conservação durante o processo de modernização
  • Criação de um grupo de trabalho multissetorial (entidades públicas e conservação)
  • Redução de iluminação durante períodos críticos de reprodução

​A Terrimar já elaborou mapas das zonas sensíveis em Santo Antão e mapas de outras ilhas, que entregou à empresa responsável pela iluminação. Apesar disso, algumas luminárias continuaram a ser instaladas em áreas consideradas sensíveis.

O contexto energético de Cabo Verde

​A substituição da iluminação pública por tecnologia LED integra a estratégia de transição energética de Cabo Verde, que visa aumentar a eficiência energética num contexto de mudança climática. O país pretende atingir mais de 50% da eletricidade produzida a partir de fontes renováveis até 2030.

​A Brava foi a primeira ilha de Cabo Verde a ter iluminação LED em toda a sua extensão, no início de 2026. Importa salientar que os impactos dependem não apenas da tecnologia LED, mas também da intensidade, cor, orientação, localização e horário de funcionamento da iluminação.

​O desafio passa, assim, por conciliar a modernização e eficiência da iluminação pública com medidas capazes de reduzir a poluição luminosa em zonas de importância ecológica.

A resposta das autoridades

​A Empresa de Distribuição de Eletricidade de Cabo Verde (EDEC) foi contactada pela Lusa para obter esclarecimentos, mas não forneceu resposta adicional além da posição já manifestada em relação aos casos da Brava.

Quem é…?

Terrimar — Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável

Organização de conservação ambiental que trabalha há anos em Santo Antão, focada na proteção da biodiversidade marinha e terrestre. Realiza investigação de campo, recolhe dados sobre impactos ambientais e fornece consultoria técnica às autoridades locais.

Projeto Biodiversidade

Iniciativa dedicada à investigação e conservação da fauna selvagem na ilha do Sal, com particular atenção às tartarugas marinhas e aves migratórias. Trabalha também em educação ambiental.

Projeto Vitó

Organização de conservação focada na Brava, com trabalho extenso na proteção de aves marinhas endémicas de Cabo Verde. Tornou-se conhecida pela denúncia dos impactos da iluminação LED em 2025.

Caboverde24.info

Fonte principal: Lusa

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