“Há décadas que a conectividade interilhas permanece entre as fragilidades estruturais do país. Melhorá-la profundamente pode significar muito mais do que viajar melhor: pode aproximar mercados, investimentos, turismo e produção nacional.”
Em 30 segundos
- ✈️🚢 Os transportes interilhas continuam a ser uma das questões estruturais mais complexas de Cabo Verde, apesar das diferentes soluções experimentadas ao longo dos anos.
- 📈 Uma rede muito mais eficiente pode ter efeitos que vão além da mobilidade, estimulando turismo, comércio, investimento, agricultura, pescas e serviços.
- 🥬 Ligações rápidas e regulares podem facilitar a chegada de produtos nacionais aos grandes mercados consumidores das ilhas turísticas.
- 🏝️ A desconcentração do turismo depende também da confiança dos visitantes na possibilidade de circular entre as ilhas com previsibilidade.
- 🌍 Arquipélagos altamente conectados, como as Canárias, mostram como transportes frequentes podem reduzir economicamente as distâncias criadas pelo mar.
As recentes declarações do secretário de Estado do Turismo, José Pimenta Lima, durante uma visita a São Nicolau, voltaram a colocar em evidência uma ambição que Cabo Verde persegue há vários anos: distribuir melhor a atividade turística pelo território nacional e permitir que mais ilhas beneficiem do crescimento de um dos sectores mais importantes da economia.
A estratégia tem uma lógica evidente. Cabo Verde possui nove ilhas habitadas, com características naturais, culturais e económicas muito diferentes, mas uma parcela considerável da atividade turística continua concentrada sobretudo no Sal e na Boa Vista.
Existe, porém, uma questão que acompanha praticamente todas as discussões sobre a desconcentração do turismo: a conectividade interna.
O problema é anterior às atuais políticas turísticas e atravessa diferentes períodos da história recente do país. Apesar das sucessivas tentativas de encontrar modelos capazes de garantir estabilidade ao transporte aéreo e marítimo interilhas, Cabo Verde ainda não conseguiu transformar plenamente a sua rede doméstica numa infraestrutura com os níveis de frequência, regularidade e previsibilidade desejáveis para um arquipélago tão fragmentado.
É precisamente aqui que uma antiga fragilidade pode esconder uma das maiores oportunidades económicas do país.
Um problema que atravessou diferentes modelos e diferentes épocas
Seria redutor associar as dificuldades dos transportes internos a um único Governo, operador ou momento político. Ao longo dos anos, Cabo Verde conheceu diferentes modelos de gestão, mudanças de operadores, reestruturações empresariais, concessões, privatizações, intervenções públicas e novos investimentos.
No transporte aéreo, sucederam-se diferentes configurações empresariais e operacionais. No transporte marítimo, também foram testados modelos destinados a organizar uma rede capaz de assegurar ligações regulares entre ilhas com dimensões populacionais e níveis de procura muito diferentes.
Apesar dessas experiências, permaneceram problemas recorrentes. Em diferentes períodos, passageiros e empresas enfrentaram frequências insuficientes em determinadas rotas, cancelamentos, alterações operacionais e dificuldades em planear deslocações com a antecedência e a segurança desejáveis.
A questão tornou-se suficientemente relevante para que a Atualização Económica de Cabo Verde 2026 do Banco Mundial fosse dedicada precisamente à conectividade interilhas. A instituição considera que o desempenho dos transportes internos permanece abaixo das necessidades do país e identifica essa fragilidade como um dos obstáculos à integração económica e a um crescimento mais inclusivo.
Isso ajuda a compreender por que razão o debate não pode ficar limitado ao número de voos, navios ou passageiros transportados. A conectividade é também uma infraestrutura económica.
Nove ilhas habitadas, mas um mercado que pode ser muito maior
A geografia divide Cabo Verde em vários mercados naturalmente pequenos. Uma rede de transportes eficiente pode reduzir significativamente essa fragmentação, aproximando consumidores, empresas, trabalhadores e produtores que hoje estão separados não apenas pelo mar, mas também pelo tempo, pelo custo e pela incerteza das deslocações.
Para uma pequena empresa instalada numa ilha com poucos milhares de habitantes, essa diferença pode ser determinante. Se vender quase exclusivamente dentro da própria ilha, o seu mercado é necessariamente limitado. Se conseguir fazer chegar regularmente produtos ou serviços a outras ilhas, o mercado potencial aumenta.
O mesmo acontece com as pessoas. Quem viaja por motivos profissionais, familiares ou turísticos consome serviços no destino: alojamento, restauração, transportes terrestres, comércio e outras atividades. Uma maior circulação interna tende, portanto, a distribuir procura por diferentes sectores e diferentes pontos do território.
O impacto pode prolongar-se por toda a cadeia económica. Mais procura cria oportunidades para novas empresas e pode incentivar as existentes a expandirem-se. Maior atividade significa mais emprego e rendimento e, por consequência, pode também ampliar a base sobre a qual o Estado arrecada impostos e taxas.
É por isso que melhorar os transportes interilhas não significa simplesmente transportar mais pessoas. Significa aumentar a possibilidade de fazer circular mais atividade económica dentro do próprio país.
O turismo mostra claramente o que está em jogo
Sal e Boa Vista beneficiam de uma característica importante: grande parte dos seus visitantes internacionais chega diretamente à ilha onde passará as férias. A situação é diferente para vários outros destinos cabo-verdianos. Quem pretende conhecer São Nicolau, Fogo ou Santo Antão, por exemplo, ou combinar diferentes ilhas numa única viagem, depende em maior medida da rede doméstica aérea e marítima.
Neste caso, a qualidade do transporte interno passa a fazer parte da própria experiência turística. Uma rede frequente e previsível torna mais fácil vender não apenas férias numa ilha de Cabo Verde, mas uma viagem através de diferentes ilhas do arquipélago. Um visitante que permaneça dez dias no país poderia, com maior confiança, dividir a estadia entre dois ou três destinos.
Isso permitiria distribuir uma parcela maior da despesa turística: mais hotéis e pequenos alojamentos receberiam hóspedes, mais restaurantes teriam clientes, mais táxis fariam serviços e mais guias, operadores turísticos e comerciantes participariam dos benefícios gerados pelo sector. A desconcentração do turismo defendida por José Pimenta Lima e prevista há anos nos documentos estratégicos nacionais encontra, portanto, nos transportes uma das suas condições mais importantes.
As mercadorias também precisam viajar
Há, porém, uma dimensão menos visível da conectividade interilhas: o transporte de mercadorias. Num arquipélago, transportar rapidamente determinados produtos pode ser tão importante quanto transportar passageiros, especialmente quando se trata de bens perecíveis.
Frutas, legumes, pescado fresco e outros alimentos têm uma relação direta com o tempo. Quanto mais longa ou imprevisível for a cadeia logística, maiores podem ser as perdas, os custos e as dificuldades para colocar esses produtos no mercado em boas condições.
Neste contexto, transporte aéreo e marítimo podem desempenhar funções complementares. O navio é naturalmente mais adequado para grandes volumes e mercadorias menos sensíveis ao tempo, enquanto ligações aéreas regulares podem oferecer uma alternativa para determinados produtos frescos, urgentes ou de maior valor. Não se trata apenas de logística: trata-se de permitir que produtores de uma ilha tenham acesso efetivo aos consumidores de outra.
Da produção nacional aos grandes mercados turísticos
Esta questão torna-se particularmente interessante quando se observa a relação entre agricultura, pescas e turismo. Sal e Boa Vista concentram grandes unidades hoteleiras e milhares de consumidores adicionais todos os dias, mas uma parte significativa dos alimentos necessários para abastecer esse mercado continua a chegar do exterior.
Existem várias razões para essa dependência. A produção nacional enfrenta limitações de escala, disponibilidade de água, continuidade das quantidades, armazenamento, certificação, organização dos produtores e competitividade dos preços. Seria incorreto atribuir às dificuldades dos transportes toda a responsabilidade pela elevada dependência das importações, mas a logística é uma peça importante do problema.
Se produtos cultivados em Santiago, Santo Antão, Fogo ou São Nicolau, ou pescado desembarcado noutras ilhas, puderem chegar aos grandes mercados consumidores de forma rápida, regular e economicamente sustentável, aumenta a possibilidade de uma parcela maior da procura turística ser satisfeita pela produção nacional.
O efeito económico pode ser significativo porque altera o percurso do dinheiro gasto pelo visitante. O hotel compra a um fornecedor nacional, o fornecedor compra ao produtor, o produtor paga trabalhadores e serviços, adquire equipamentos e pode aumentar a produção. Dessa forma, uma parcela maior do valor gerado pelo turismo permanece e volta a circular na economia cabo-verdiana, aproximando o turismo de uma economia interna mais integrada e circular.
Transportes também influenciam onde se investe
Existe ainda uma consequência menos imediatamente visível, mas fundamental: a conectividade influencia as decisões de investimento. Antes de instalar um hotel, uma unidade de transformação, uma empresa de distribuição ou qualquer outra atividade numa ilha, o investidor considera a facilidade com que clientes, trabalhadores, equipamentos, matérias-primas e mercadorias poderão chegar e sair.
Quanto maior for a incerteza logística, maior tende a ser o risco associado ao investimento. Uma rede regular e previsível produz o efeito contrário: reduz o risco e amplia o mercado potencial.
A relação é especialmente relevante para as ilhas menores, onde a procura local pode não justificar determinados investimentos quando analisada isoladamente, mas pode tornar-se mais interessante se a ilha estiver efetivamente integrada numa rede económica nacional. É também por isso que o Banco Mundial relaciona a melhoria da conectividade interilhas com a possibilidade de as empresas alcançarem mercados maiores e com as próprias decisões de expansão.
O que mostram as Canárias
A experiência das Ilhas Canárias oferece um termo de comparação interessante, desde que consideradas as enormes diferenças económicas, institucionais e financeiras entre os dois arquipélagos. O elemento mais relevante não é simplesmente a existência de aviões e navios, mas a intensidade da rede.
Entre as principais ilhas canárias existem numerosos voos e ligações marítimas diárias. Em várias rotas, a frequência permite deslocações de ida e volta no mesmo dia. A mobilidade dos residentes beneficia ainda de importantes mecanismos públicos de apoio, enquanto avião e navio funcionam como componentes complementares de uma rede interinsular muito desenvolvida.
O resultado é que as distâncias geográficas continuam a existir, mas pesam muito menos sobre as relações económicas quotidianas. Uma empresa pode manter relações regulares com clientes e fornecedores noutra ilha, um profissional pode deslocar-se por algumas horas, um turista pode combinar destinos com facilidade e as mercadorias circulam através de uma rede logística com múltiplas alternativas.
Cabo Verde não possui a dimensão económica das Canárias, nem o enquadramento financeiro de uma região pertencente a Espanha e à União Europeia. Por isso, uma comparação direta entre os dois sistemas seria inadequada. Mas a experiência canária mostra um princípio económico importante: quando a frequência e a previsibilidade dos transportes aumentam suficientemente, o comportamento das pessoas e das empresas começa a mudar.
O verdadeiro valor está na previsibilidade
O salto qualitativo de que Cabo Verde poderia beneficiar não se mede apenas pelo número total de ligações realizadas. Mede-se também pela capacidade de confiar nelas.
Quando um cidadão sabe que pode deslocar-se e regressar dentro de um determinado período, organiza a sua vida de forma diferente. Quando uma empresa conhece com razoável segurança os tempos de transporte, pode assumir compromissos comerciais. Quando um produtor dispõe de uma cadeia logística regular, pode procurar clientes noutra ilha. Quando um turista encontra várias opções de ligação, sente-se mais confortável para construir um itinerário interilhas.
A previsibilidade transforma o transporte numa verdadeira infraestrutura económica porque permite planear. A sua ausência produz o efeito contrário: aumenta aquilo que poderíamos definir como o custo económico da insularidade.
Uma oportunidade muito maior do que o próprio sector dos transportes
Não é possível determinar antecipadamente quanto acrescentaria ao Produto Interno Bruto um sistema interilhas substancialmente mais eficiente sem um estudo económico específico. É possível, porém, identificar claramente os canais através dos quais esse impacto ocorreria:
- Maior mobilidade pode gerar mais consumo e distribuir a procura por diferentes ilhas;
- Uma rede turística interilhas pode aumentar os circuitos e as estadias fora dos destinos tradicionais;
- Uma logística melhor pode ampliar o mercado da agricultura, das pescas e de pequenas empresas;
- Maior previsibilidade pode reduzir riscos para investidores e viabilizar novos projetos.
Tudo isso significa mais transações dentro do país e maior possibilidade de uma parcela do rendimento produzido continuar a circular entre empresas, trabalhadores e consumidores cabo-verdianos. O crescimento dessa atividade pode também refletir-se nas receitas públicas, facilitando as relações económicas geradoras de riqueza.
A distância que não aparece no mapa
Cabo Verde continuará sempre a ser um arquipélago. Nenhuma política de transportes reduzirá fisicamente a distância entre Praia e São Nicolau, entre Santo Antão e Sal ou entre Fogo e Boa Vista.
Mas existe uma segunda distância, economicamente muito mais importante, que pode ser reduzida: aquela medida pelo tempo, pelo custo, pela frequência e pela incerteza necessários para fazer circular uma pessoa, um produto ou um investimento entre duas ilhas.
Depois de anos de diferentes modelos e tentativas de estabilização, os transportes interilhas permanecem uma das questões estruturais ainda não plenamente resolvidas do país. É precisamente por isso que o potencial associado à sua melhoria é tão relevante.
As recentes declarações sobre a desconcentração do turismo voltaram a colocar a questão em evidência. Mas o turismo representa apenas uma parte da oportunidade: o verdadeiro salto seria fazer com que nove ilhas habitadas, inevitavelmente separadas pelo mar, funcionassem cada vez mais como partes de um único mercado nacional.
Caboverde24.info
Análise / Redação































