Francisco Carvalho falou crioulo nas Nações Unidas: como reagiu o mundo e que debate ficou em Cabo Verde

Em 30 segundos

🌍 A cobertura internacional deu visibilidade às mensagens de Cabo Verde, sem transformar o uso do crioulo numa controvérsia relevante.

🗣️️ Carvalho utilizou a língua cabo-verdiana para falar não apenas de identidade e morabeza, mas também de desenvolvimento, clima e direito internacional.

📜 As regras das Nações Unidas permitem discursos noutras línguas e José Maria Neves já tinha usado a língua cabo-verdiana na Assembleia Geral em 2011.

🏝️ A questão mais delicada ficou dentro do país: como aumentar a presença institucional do crioulo sem fazer uma variante parecer representar todas as outras?

“A dimensão do território nunca determina a dimensão dos seus sonhos”

Francisco Carvalho discursou, a 26 de setembro, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas em crioulo cabo-verdiano.

Logo no início, apresentou ao mundo um pequeno arquipélago que conhece as suas fragilidades, mas recusa deixar que a dimensão geográfica limite a sua ambição:

“A mim sa ta ben di un país constituído por 10 ilhas na meio di Atlântico, un país ki konxi si frakezas, mas ki prende tanbê ma tamanho di território nunka ka ta determina tamanho di se sonhos.”

Em português: “Venho de um país constituído por dez ilhas no meio do Atlântico, um país que conhece as suas fragilidades, mas que também aprendeu que a dimensão do território nunca determina a dimensão dos seus sonhos.”

A frase acabaria por ganhar uma projeção particularmente interessante.

A Associated Press escolheu Francisco Carvalho entre seis dirigentes cujas palavras decidiu destacar no quinto dia do debate geral. Foi precisamente a ideia de que a dimensão de um território não deve determinar a dimensão dos seus sonhos que a agência internacional selecionou.

A escolha da língua, entretanto, entrou rapidamente no debate em Cabo Verde.

Mas aconteceu o mesmo fora do país?

Lá fora, a discussão foi outra

O Caboverde24.info analisou a cobertura internacional conhecida até 30 de setembro, incluindo fontes das Nações Unidas e grandes meios estrangeiros.

Não encontrámos uma reação negativa relevante de governos, diplomatas ou grandes órgãos internacionais à decisão de discursar em crioulo.

Isso não significa que o mundo tenha “aprovado” a opção.

Significa algo mais rigoroso: fora de Cabo Verde, a utilização do crioulo não se transformou, até agora, numa controvérsia internacional relevante.

A Associated Press voltou a incluir Cabo Verde na sua cobertura das intervenções sobre alterações climáticas, concentrando-se na vulnerabilidade dos pequenos Estados insulares e nas mensagens levadas à Assembleia Geral.

Também no encontro realizado no mesmo dia entre Francisco Carvalho e o presidente da Assembleia Geral, o comunicado oficial das Nações Unidas destacou alterações climáticas, subida do nível do mar, oceanos, reforma das Nações Unidas e cooperação multilateral. Não apresentou a língua utilizada pelo primeiro-ministro como questão diplomática.

Até agora, portanto, o crioulo provocou mais debate dentro de Cabo Verde do que fora dele.

A “morabeza” também chegou às Nações Unidas

Carvalho levou à tribuna uma das palavras mais associadas à identidade cabo-verdiana:

“Nu ten ti un palavra rikéza ki é palavra morabeza, un palavra ki ta difini kel kalor, kordialidadi, kel simpatia di nos povu, ki mundu interu fika ta konxi un poku duranti Kopa di Mundu di futebol.”

Em português: “Temos uma palavra preciosa, morabeza, uma palavra que define esse calor, cordialidade e simpatia do nosso povo, que o mundo inteiro conheceu um pouco durante o Mundial de futebol.”

Foi um dos momentos em que língua e identidade ficaram mais diretamente ligadas.

Mas Francisco Carvalho não utilizou o crioulo apenas para falar de cultura, memória ou sentimentos.

Crioulo para falar também de direito internacional

Uma das passagens mais significativas tratou diretamente das relações entre os Estados:

“É pur isu ki Kabu Verdi ta kridita na diálogu, na koperason entri povus e ki direitu debi prevalese riba di forsa.”

Em português: “É por isso que Cabo Verde acredita no diálogo, na cooperação entre os povos e que o direito deve prevalecer sobre a força.”

O crioulo serviu, portanto, para falar de matérias habitualmente associadas à linguagem formal da diplomacia: cooperação, direito internacional, desenvolvimento, alterações climáticas e multilateralismo.

A escolha linguística não ficou limitada a uma demonstração de identidade. Foi a língua através da qual Cabo Verde apresentou posições sobre assuntos internacionais.

O discurso integral de Francisco Carvalho

🎥 Veja o discurso completo de Francisco Carvalho

Era permitido falar crioulo?

Sim.

Árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo são as seis línguas oficiais e de trabalho da Assembleia Geral.

Mas a Regra 53 permite expressamente que um representante faça uma intervenção noutra língua, desde que seja assegurada interpretação para uma das línguas oficiais. A interpretação para as restantes pode então ser feita a partir dessa primeira versão.

Do ponto de vista das regras das Nações Unidas, portanto, falar crioulo não constituiu qualquer irregularidade.

E Francisco Carvalho não foi o primeiro

Há ainda um precedente essencial.

Em 24 de setembro de 2011, José Maria Neves, então primeiro-ministro, também se dirigiu à Assembleia Geral utilizando a língua cabo-verdiana.

O registo oficial das Nações Unidas documenta essa intervenção e conserva a explicação dada por Neves sobre a ligação entre língua, cultura, história e memória.

Francisco Carvalho não levou, portanto, o crioulo pela primeira vez à Assembleia Geral.

Fê-lo regressar àquela tribuna quinze anos depois.

Mas que crioulo chegou às Nações Unidas?

É aqui que a discussão se torna mais complexa.

A língua cabo-verdiana une o arquipélago, mas não é falada exatamente da mesma forma em todas as ilhas.

Existem variantes com características próprias e estudos linguísticos identificam diferenças particularmente marcadas entre Santiago e São Vicente, resultantes também de percursos históricos, culturais e linguísticos distintos.

A fala utilizada por Francisco Carvalho apresenta elementos compatíveis com a variedade de Santiago.

No próprio discurso aparecem formas como “nu”, “kel”, “kes”, além de construções com “ka” e “ta”. Algumas dessas formas estão documentadas na descrição linguística do crioulo de Santiago.

Mas é importante não exagerar a conclusão.

Nenhuma dessas palavras, isoladamente, permite classificar uma variante. É o conjunto da pronúncia, dos pronomes, dos marcadores verbais e da construção das frases que permite essa aproximação.

Por isso, parece mais prudente descrever o discurso como um registo formal de base santiaguense, e não como um suposto “crioulo neutro” ou como uma forma exclusivamente fechada de crioulo de Santiago.

Há ainda outra característica evidente: tratando-se de um discurso diplomático, uma parte importante do vocabulário — desenvolvimento, diálogo, cooperação, clima, oportunidade, dignidade, direito — é facilmente reconhecível entre falantes de diferentes ilhas.

Uma variante não se transforma automaticamente em norma

Esta distinção é fundamental.

Francisco Carvalho utilizar uma forma próxima da variante de Santiago não significa que o Governo tenha escolhido Santiago como padrão nacional.

Não significa igualmente que as variantes das restantes ilhas tenham sido afastadas.

Mas existe uma dimensão simbólica que merece atenção.

Quando um representante do Estado utiliza uma determinada variante num dos palcos internacionais de maior visibilidade, essa forma da língua recebe uma exposição institucional particularmente forte.

Daí nasce uma pergunta legítima: como aumentar a presença oficial da língua cabo-verdiana sem criar a perceção de que uma variante representa melhor o país do que as restantes?

💬 Uma questão presente no debate

A preocupação pode ser formulada desta maneira:

O crioulo pertence a todos os cabo-verdianos, mas não é falado da mesma maneira em todas as ilhas. Se o Estado utilizar repetidamente uma determinada variante nos grandes espaços institucionais, poderá essa variante começar a ser percebida como a referência nacional? E como valorizar uma língua comum preservando, ao mesmo tempo, a diversidade linguística do arquipélago?

A pergunta não significa que utilizar uma variante exclua juridicamente as outras.

Não exclui.

Mas permite distinguir duas situações muito diferentes:

  1. Uma coisa é um primeiro-ministro falar naturalmente na variedade linguística que utiliza.

  2. Outra seria o Estado transformar essa variedade, formalmente ou na prática, numa norma nacional.

O primeiro aconteceu. O segundo não.

Uma língua, várias formas de a falar

A diversidade linguística não é um detalhe periférico.

Marlyse Baptista, linguista cabo-verdiana e professora da Universidade de Michigan, estudou precisamente a relação entre Santiago e São Vicente, classificando-as entre as variedades mais distintas do crioulo cabo-verdiano e mostrando que as diferenças têm também dimensões históricas, culturais e sociopolíticas.

Isso ajuda a perceber por que motivo a discussão não pode ser reduzida simplesmente a “crioulo ou português”.

Existe uma segunda pergunta: que modelo de língua cabo-verdiana deve ganhar espaço nas instituições?

E essa é uma questão diferente.

Crioulo contra português? A realidade é mais complexa

Também não é necessário interpretar a utilização do crioulo como uma escolha contra o português.

Cabo Verde pode procurar aumentar a utilização institucional da sua língua materna e, simultaneamente, manter o português como instrumento de comunicação internacional, ensino, conhecimento e ligação ao espaço lusófono.

A própria Constituição reflete essa convivência ainda em construção.

O artigo 9.º estabelece que o português é a língua oficial, mas determina também que o Estado deve promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana em paridade com a portuguesa.

Ou seja, a discussão institucional sobre a língua cabo-verdiana continua constitucionalmente aberta.

“Nenhum país é pequeno demais”

Perto do final, Carvalho regressou à ideia do pequeno país que procura fazer ouvir a sua voz:

“Kabu Verdi é un país pikinoti, mas nu ta ensina ta dialoga, ta konstrói pontis, ta djobe konsensu… e ta ensina tanbê ma nenhun país é pikinoti di más a pontu di ka ten un votu, e ki nenhun dizafiu é grandi di más pa ser enfrentadu si nu trabadja tudu djuntu.”

Em português: “Cabo Verde é um país pequeno, mas procura dialogar, construir pontes e encontrar consensos… nenhum país é pequeno demais para não ter um voto, e nenhum desafio é grande demais para ser enfrentado se trabalharmos todos juntos.”

Quatro dias depois do discurso, não existem elementos que permitam falar numa controvérsia diplomática internacional causada pelo uso do crioulo.

O mundo prestou sobretudo atenção às mensagens de Cabo Verde.

Dentro do país, porém, ficou uma discussão mais profunda.

Não apenas quanto espaço institucional deve ter a língua cabo-verdiana, mas também como construir esse espaço sem transformar a diversidade das ilhas numa competição entre variantes.

É uma discussão que Cabo Verde ainda terá de resolver.

Caboverde24.info

Fonte: Organização das Nações Unidas

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