“A revista Internazionale dedica uma grande reportagem ao percurso do arquipélago, destacando democracia, crescimento e estabilidade, mas contrapondo esses avanços às desigualdades e às condições de parte dos trabalhadores do turismo.”
Em 30 segundos
🇮🇹 A revista italiana Internazionale dedica uma extensa reportagem a Cabo Verde na edição n.º 1685, de 2 de outubro.
📈 O país é apresentado como um caso de transformação económica e um “modelo de crescimento para África”.
🏝️ A reportagem contrapõe o desenvolvimento do turismo às desigualdades ainda existentes.
🌍 O artigo, de Frederico Pinheiro, foi publicado originalmente na revista portuguesa Visão e chega agora aos leitores italianos através da Internazionale.
Cabo Verde visto de fora
Da imagem de um país que, no momento da independência, enfrentava enormes dúvidas sobre a sua capacidade de sobrevivência económica até à atual reputação internacional de estabilidade e crescimento.
É este o percurso que a prestigiada revista italiana Internazionale apresenta aos seus leitores numa extensa reportagem sobre Cabo Verde publicada na edição de 2 de outubro.
Com o título “L’avventura di Capo Verde”, o trabalho é assinado pelo jornalista português Frederico Pinheiro e surge acompanhado de uma síntese particularmente expressiva: Cabo Verde passou de país sem perspetivas a “modelo de crescimento para África”.
Mas a reportagem não apresenta apenas uma história de sucesso.
O crescimento económico, o turismo, o investimento estrangeiro e a estabilidade democrática são confrontados com outra realidade: os benefícios desse desenvolvimento, observa a publicação, ainda não chegam da mesma forma a todos os cabo-verdianos.
Uma transformação que surpreendeu
A reportagem começa por recuar a 1975 e às enormes dificuldades enfrentadas por um pequeno arquipélago recém-independente, praticamente sem recursos naturais e fortemente dependente do exterior.
Cinco décadas depois, a fotografia apresentada é muito diferente.
A Internazionale destaca o aumento da riqueza por habitante, a estabilidade das instituições e a consolidação democrática, recorrendo também a indicadores internacionais que colocam Cabo Verde entre os países africanos mais bem posicionados em matéria de liberdade política e direitos civis.
O texto chama ainda a atenção para o forte crescimento do produto interno bruto por habitante registado pelo país nas últimas décadas.
A ausência de petróleo, diamantes ou outras grandes riquezas naturais torna, na leitura apresentada pela reportagem, a evolução cabo-verdiana particularmente relevante.
Carlos Veiga explica a aposta no investimento externo
Entre as personalidades ouvidas está Carlos Veiga, primeiro chefe de Governo após a abertura democrática de 1991.
A reportagem recupera a estratégia seguida naquele período: criar condições jurídicas e políticas capazes de atrair investimento estrangeiro para um país que não dispunha internamente dos recursos necessários para financiar o seu desenvolvimento.
O turismo tornou-se uma das principais apostas.
Décadas depois, o setor é um dos pilares da economia cabo-verdiana e ilhas como Sal e Boa Vista transformaram-se em destinos turísticos internacionais.
É precisamente aqui que a reportagem começa a mostrar a outra face desse crescimento.
Sal: hotéis internacionais e salários baixos
No Sal, o jornalista descreve a concentração de grandes hotéis e resorts ao longo da costa, mas leva também o leitor aos bastidores da indústria turística.
Um trabalhador entrevistado, cuja identidade é preservada, relata trabalhar 12 horas por dia, seis dias por semana, recebendo cerca de 300 euros mensais.
É um testemunho individual e não pode ser generalizado a todo o setor, mas é utilizado pela reportagem para ilustrar o contraste entre o valor económico gerado pelo turismo e as condições relatadas por esse trabalhador.
Boa Vista mostra outro contraste
A viagem prossegue pela Boa Vista.
Em Sal Rei, a reportagem desloca-se ao bairro de Boa Esperança, próximo das zonas de forte desenvolvimento turístico.
Ali, o cenário descrito é muito diferente daquele encontrado nos hotéis: habitação precária, problemas de saneamento e dificuldades no acesso regular a serviços essenciais.
O contraste serve para levantar uma das principais questões do trabalho: até que ponto o forte crescimento económico das últimas décadas está a traduzir-se numa melhoria igualmente rápida das condições de vida de toda a população?
A reportagem reconhece os avanços estruturais alcançados pelo país, mas mostra simultaneamente que permanecem desigualdades que os indicadores macroeconómicos, por si só, não conseguem explicar.
Democracia como um dos maiores ativos
Outro dos elementos valorizados é a estabilidade política.
A publicação destaca a alternância democrática, a realização regular de eleições e as liberdades existentes no país, recorrendo nomeadamente aos indicadores internacionais da Freedom House.
A estabilidade aparece também associada à capacidade de atrair investimento e estabelecer relações duradouras com parceiros internacionais.
O texto nasceu na Visão
Há uma precisão importante sobre a origem da reportagem.
O texto agora traduzido pela Internazionale foi publicado originalmente na revista portuguesa Visão, que é também a publicação à qual a revista italiana atribui o trabalho de Frederico Pinheiro.
Existe ainda um trabalho anterior e relacionado do mesmo jornalista, mas distinto deste artigo.
Em 21 de maio, Frederico Pinheiro apresentou na Antena 1 a grande reportagem “Aventura Crioula — Como Cabo-Verde Surpreendeu o Mundo”, realizada em parceria com a Associação para a Cooperação Entre os Povos e com financiamento da União Europeia.
O título recuperava a expressão “Aventura Crioula”, associada ao escritor Manuel Ferreira, para contar como Cabo Verde contrariou as previsões extremamente pessimistas que acompanharam os primeiros anos da independência.
A novidade desta semana é, portanto, a chegada deste retrato aos leitores italianos através da Internazionale.
Entre reconhecimento e desafios
O retrato que chega agora a Itália está longe de ser exclusivamente promocional ou exclusivamente crítico.
Cabo Verde surge como um país que conseguiu contrariar previsões negativas feitas no início da independência e construir democracia, estabilidade e crescimento sem beneficiar das grandes riquezas naturais existentes noutros Estados africanos.
Ao mesmo tempo, a reportagem coloca uma questão que acompanha o atual modelo de desenvolvimento: como fazer com que o crescimento, o turismo e o investimento estrangeiro produzam benefícios mais amplamente distribuídos pela população?
Cinco décadas depois da independência, Cabo Verde já não é apresentado ao exterior como um país cuja sobrevivência económica estava em dúvida.
É apresentado como um caso de sucesso africano — mas também como um país que ainda enfrenta o desafio de fazer com que esse sucesso seja sentido de forma mais ampla por quem nele vive.
Caboverde24.info
Fonte: Visão; Internazionale; RTP Antena 1.

































