Em Santo Antão, os operadores turísticos iniciam a época alta com dificuldades de abastecimento. Estão previstos 365 milhões de escudos para infraestruturas costeiras, mas o reforço da disponibilidade de água continua sem uma solução concreta anunciada para a localidade.
Em 30 segundos
💧 A época alta começou, mas os alojamentos turísticos continuam a receber menos água do que necessitam.
🏘️ A Câmara Municipal do Porto Novo reconhece que a água de uma nascente tem de ser repartida entre população, agricultura e turismo.
💰 Estão previstos 365 milhões de escudos (cerca de 3,3 milhões de euros) para melhorar infraestruturas costeiras e acessos.
🔎 Continua por esclarecer como será reforçado o abastecimento para acompanhar o crescimento turístico.
A época alta começou, mas o problema continua
A temporada alta do turismo em Santo Antão começou no Tarrafal de Monte Trigo com uma preocupação que não é nova: a insuficiência de água para responder às necessidades dos estabelecimentos turísticos.
João Crisóstomo, porta-voz dos operadores locais, alertou, a 7 de outubro, que a quantidade de água fornecida pelos serviços municipais continua abaixo das necessidades dos alojamentos, condicionando a atividade numa das zonas turísticas mais procuradas da ilha.
A mesma preocupação já tinha sido apresentada em agosto, antes da chegada da época alta.
A diferença é que os turistas começaram agora a chegar e, segundo os operadores, o abastecimento continua sem acompanhar a procura.
Uma nascente para três necessidades
O problema não diz respeito apenas aos hotéis.
O vereador da Câmara Municipal do Porto Novo responsável pelo abastecimento de água, Celso Medina, explicou à Inforpress, em 22 de agosto, que o crescimento do número de unidades turísticas aumentou a pressão sobre os recursos disponíveis. A situação voltou a ser reconhecida pela autarquia na notícia de 7 de outubro.
A água utilizada na localidade provém de uma nascente e precisa de ser distribuída por três necessidades fundamentais: consumo doméstico, agricultura e turismo.
Segundo o autarca, a quantidade disponível é limitada, obrigando os serviços municipais a gerir o recurso entre atividades essenciais à vida e à economia local.
A autarquia admite, por isso, a necessidade de mobilizar mais água para acompanhar o desenvolvimento económico.
O desafio é garantir que o crescimento de uma atividade económica não comprometa as restantes.
Há 365 milhões de escudos previstos para a região
O desafio do abastecimento surge numa altura em que está previsto um importante investimento público no Tarrafal e na vizinha localidade de Monte Trigo.
A Unidade de Gestão de Projetos Especiais (UGPE) apresentou um investimento de 365 milhões de escudos (cerca de 3,3 milhões de euros), integrado no projeto Turismo Resiliente e Desenvolvimento da Economia Azul, financiado pelo Banco Mundial.
O montante anunciado está dividido entre 25 milhões de escudos para estudos e 340 milhões para obras.
As intervenções publicamente descritas incluem a requalificação da orla marítima, a proteção costeira, a construção de aproximadamente um quilómetro de estrada entre Ponta de Atum e a zona da Praia e dois desembarcadouros, um no Tarrafal e outro em Monte Trigo.
São infraestruturas importantes para melhorar a acessibilidade, apoiar a pesca, facilitar o transporte marítimo e valorizar a região.
Contudo, nas componentes divulgadas pela UGPE para este investimento não aparece identificada uma intervenção específica destinada a aumentar o abastecimento de água ao Tarrafal.
Isto não significa que não existam outras iniciativas em estudo ou previstas. Significa apenas que não foi encontrada uma resposta concreta para esta necessidade na descrição pública daquele investimento.
Obras anunciadas em 2024 continuam a gerar expectativa
O projeto de requalificação da zona costeira foi apresentado à comunidade em julho de 2024.
As previsões divulgadas apontavam para o início das obras em 2025 e para a conclusão entre o final de 2026 e o princípio de 2027.
No entanto, em agosto de 2026, os operadores turísticos continuavam a reclamar o arranque da intervenção.
Não há, nos elementos agora analisados, uma confirmação atualizada sobre a data efetiva de início das obras.
Entretanto, o investimento privado continua a avançar. Em agosto, foi noticiada a construção de uma nova unidade hoteleira por investidores belgas, estimada em quatro milhões de euros, com conclusão prevista para meados de 2027.
A expansão da oferta turística reforça a importância de planear também os serviços essenciais que terão de acompanhar a chegada de mais visitantes.
Em Monte Trigo, a dessalinização já está em preparação
Existe uma experiência próxima que merece atenção, embora diga respeito a outra localidade.
Em Monte Trigo, a empresa Águas de Ponta Preta (APP) está a instalar um dessalinizador de água do mar, com capacidade anunciada de 25 metros cúbicos por dia.
A 20 de setembro, o representante da empresa, Damià Pujol, informou à Inforpress que os equipamentos estavam instalados, faltando concluir o poço de captação de água do mar.
A intervenção destina-se à comunidade de Monte Trigo e integra um projeto de sustentabilidade que também contempla o reforço da produção de energia solar.
Não há indicação de que esta unidade tenha sido dimensionada para abastecer os estabelecimentos turísticos do Tarrafal.
Ainda assim, o projeto demonstra que a dessalinização já está a ser preparada como resposta às necessidades de abastecimento naquela região de Santo Antão.
A tecnologia é também uma das soluções sugeridas pelos operadores turísticos.
O que falta esclarecer?
A situação coloca uma questão de planeamento económico: como assegurar água suficiente para uma localidade onde o turismo cresce, sem prejudicar o abastecimento das famílias e a atividade agrícola?
Para responder, há informações essenciais que continuam por esclarecer publicamente: quanta água produz atualmente a nascente, qual é o consumo médio da população e dos estabelecimentos turísticos, que procura adicional se prevê com os novos empreendimentos e quais são as alternativas tecnicamente viáveis para reforçar o abastecimento.
Também importa conhecer os custos, as possíveis fontes de financiamento e um eventual calendário de execução.
O investimento na valorização da orla costeira poderá contribuir para atrair visitantes e dinamizar a economia local. Mas o crescimento sustentável do Tarrafal dependerá igualmente da capacidade de garantir os serviços básicos necessários a quem vive, trabalha e visita a região.
Caboverde24.info
Fontes: Inforpress, notícias de 20, 22 e 23 de agosto, 20 de setembro e 7 de outubro de 2026; Unidade de Gestão de Projetos Especiais (UGPE), projeto Turismo Resiliente e Desenvolvimento da Economia Azul.



















