Na casa de Adelina ninguém saía sem comer: a despedida de uma mulher do Fogo que fez da generosidade a sua maneira de amar

​⏱️ Em 30 segundos

  • ​🕊️ Adelina Nunes Veiga Costa faleceu no dia 10 de outubro, aos 65 anos, em Massachusetts, rodeada pela família.
  • ​🇨🇻 Nasceu em Achada Grande, na ilha do Fogo, e emigrou para os Estados Unidos em 1986.
  • ​❤️ Trabalhou mais de três décadas num hospital, acolheu familiares emigrantes e nunca esqueceu as pessoas que precisavam de ajuda em Cabo Verde.
  • ​🕯️ A família despede-se dela no sábado, 17 de outubro, com um pedido especial: que a sua memória seja honrada através de um gesto de bondade.

​Havia sempre comida para mais alguém

​Na casa de Adelina Costa, havia uma regra que não precisava de estar escrita: ninguém devia ir embora sem comer.

​Podia ser um familiar de visita, alguém acabado de chegar de Cabo Verde ou uma pessoa que aparecesse para passar algum tempo em sua companhia. A mesa era uma forma de acolher, de cuidar e de demonstrar afeto.

​É uma recordação aparentemente pequena, mas talvez nenhuma outra descreva tão bem a mulher que Adelina foi.

​Porque existem pessoas que demonstram amor com grandes palavras. Outras fazem-no com aquilo que têm: um prato de comida, uma porta aberta, uma ajuda oferecida sem esperar nada em troca.

​Adelina pertencia a este segundo grupo.

​No sábado, 10 de outubro de 2026, faleceu serenamente na sua casa, em Hull, Massachusetts, rodeada pela família. Tinha 65 anos.

​A notícia da sua morte ficou registada num obituário divulgado pelos familiares. Mas, por detrás das datas, dos nomes e dos acontecimentos, existe uma vida que merece ser contada.

​Não por ter sido famosa. Não por ter acumulado distinções ou ocupado lugares de destaque.

​Mas precisamente por ter sido uma mulher como tantas outras que conhecemos, nas nossas famílias e nas nossas comunidades.

​Uma mulher que trabalhou, criou os filhos, viu crescer os netos e nunca deixou de encontrar espaço na sua vida para ajudar alguém.

​Tudo começou numa pequena comunidade do Fogo

​Adelina Nunes Veiga Costa nasceu a 9 de novembro de 1960, em Achada Grande, na ilha do Fogo.

​Era filha de Adelino Veiga Lela e de Maria Nunes Veiga, conhecida por Marcia.

​Foi naquela ilha que começou a sua história, muito antes de imaginar que passaria grande parte da vida do outro lado do Atlântico.

​No verão de 1986, Adelina tomou uma decisão que tantas famílias cabo-verdianas conhecem: emigrar.

​Partiu acompanhada pelo marido, Mateus M. Costa, e pelo primeiro filho do casal, Adilson.

​O destino foi Cambridge, no estado norte-americano de Massachusetts.

​Atravessar o oceano para começar uma nova vida nunca é apenas mudar de endereço. É deixar para trás pessoas, lugares e hábitos familiares, levando consigo a esperança de construir um futuro melhor.

​Não sabemos o que Adelina sentiu naquele momento. Mas sabemos o que construiu depois.

​Uma família, uma vida de trabalho e uma casa que viria a tornar-se um lugar de acolhimento para outras pessoas que também deixaram Cabo Verde.

​Em março de 1998, mudou-se com a família para Hull, uma cidade costeira de Massachusetts. Foi ali que viveu os últimos 28 anos da sua vida.

​A distância entre o Fogo e os Estados Unidos passou a fazer parte do seu percurso, mas não significou uma rutura com a terra onde nasceu.

​Mais de 30 anos a trabalhar, sem esquecer os outros

​Adelina dedicou mais de três décadas da sua vida profissional ao Massachusetts General Hospital, em Boston, onde trabalhou nos serviços de apoio da unidade hospitalar Ellison 6.

​Era uma trabalhadora discreta, de poucas palavras, segundo a descrição deixada pela família.

​Mas gostava de estar rodeada de pessoas.

​Durante todos aqueles anos, criou amizades e relações de proximidade com colegas de trabalho.

​A sua presença era recordada como calorosa e acolhedora.

​Há algo particularmente significativo nesta parte da sua história.

​Quando pensamos num grande hospital, lembramo-nos dos médicos, dos enfermeiros e dos tratamentos. Raramente pensamos nas pessoas que, longe dos lugares de maior visibilidade, asseguram diariamente os serviços necessários ao funcionamento de uma instituição.

​Adelina foi uma dessas pessoas.

​Durante mais de 30 anos, fez o seu trabalho e construiu relações humanas que ultrapassavam as obrigações profissionais.

​Mas a sua dedicação não terminava quando saía do hospital.

​Mesmo depois de um longo dia de trabalho, encontrava tempo para cozinhar pratos tradicionais cabo-verdianos para a família.

​Talvez seja esse um dos aspetos mais comoventes da sua história: depois de passar tantas horas a trabalhar, ainda tinha vontade de cuidar dos seus.

​Uma porta aberta para quem chegava de Cabo Verde

​Ao longo dos anos, vários familiares que emigraram de Cabo Verde encontraram acolhimento na casa de Adelina.

​Para compreender a importância deste gesto, basta pensar no que significa chegar a um país desconhecido.

​Uma nova língua, outras regras, a procura de trabalho, a necessidade de encontrar casa e a distância de tudo aquilo que nos é familiar.

​Ter alguém à espera pode mudar completamente essa experiência.

​Adelina foi essa pessoa para vários membros da sua família.

​Acolheu-os em casa e ajudou-os a dar os primeiros passos numa nova realidade.

​É uma forma de solidariedade que atravessa gerações da emigração cabo-verdiana. Muitas famílias conseguiram estabelecer-se no estrangeiro porque, antes delas, alguém teve a generosidade de abrir uma porta.

​A sua preocupação também chegava a Cabo Verde.

​Adelina enviava regularmente roupas para pessoas necessitadas na terra natal.

​Não era necessário estar fisicamente perto para continuar a ajudar.

​Da sua casa nos Estados Unidos, mantinha uma ligação concreta às pessoas que precisavam de apoio nas ilhas.

​A generosidade fazia parte da sua maneira de viver.

​As mãos que preparavam comida também faziam croché

​Adelina gostava de cozinhar, preparar bolos e reunir a família.

​As grandes festas familiares, com música e muitos entes queridos, estavam entre os momentos que mais apreciava.

​Mas tinha também uma paixão mais tranquila: o croché.

​Gostava de criar peças com as próprias mãos, por vezes seguindo a imaginação, outras vezes aprendendo através de vídeos.

​Podia transformar fios em objetos feitos com paciência e dedicação.

​É uma imagem simples, mas bonita, de uma mulher que encontrava satisfação nas pequenas coisas.

​As mesmas mãos que preparavam refeições, trabalhavam e ajudavam outras pessoas também encontravam tempo para criar.

​E havia os netos.

​Adelina gostava de os mimar com presentes, demonstrando o carinho que sentia através de gestos concretos.

​Era avó de Zachary Costa, Sierra Dyszczyk, Ariana Goodrich e Jacob Goodrich.

​A família era o centro da sua vida.

​Também mantinha uma relação especial com o sobrinho Flavio Andrade, para quem foi como uma segunda mãe.

​Não se tratava apenas de laços de sangue, mas de uma forma de estar presente na vida dos outros.

​A fé ocupava igualmente um lugar importante na sua vida. Segundo a família, as suas convicções religiosas eram uma fonte de força, particularmente nos momentos difíceis, e refletiam-se na bondade e na compaixão com que tratava as pessoas.

​Os nomes de quem fica

​Adelina deixa o marido, Mateus M. Costa, com quem partilhou a vida e a decisão de emigrar há 40 anos.

​Deixa os três filhos: Adilson Costa, Steven Costa e Judy Allen.

​Deixa também o genro Jake Allen, os quatro netos e uma numerosa família alargada, entre irmãos, sobrinhos, tios, primos e outros familiares.

​São muitos nomes ligados à mesma história.

​Para cada um deles, Adelina terá ocupado um lugar diferente: esposa, mãe, avó, tia, familiar ou amiga.

​E é precisamente isso que torna uma despedida tão difícil.

​A morte de uma pessoa não representa apenas o fim de uma vida. Deixa também a ausência dos gestos que faziam parte dos dias.

​As refeições preparadas com carinho. Os encontros familiares. Os presentes oferecidos aos netos. As conversas e a companhia de alguém que fazia os outros sentirem-se bem-vindos.

​São estas pequenas coisas que, muitas vezes, se tornam as maiores saudades.

​No último adeus, a família pede um gesto de bondade

​As cerimónias fúnebres de Adelina estão marcadas para sábado, 17 de outubro, na igreja de St. Ann, da paróquia de St. Mary of the Assumption, em Hull, Massachusetts.

​O período de velório e visita de condolências decorrerá entre as 13h00 e as 14h00, seguindo-se a missa fúnebre às 14h00, hora local.

​O sepultamento terá lugar no cemitério Hull Village Cemetery.

​A família pediu que, depois das cerimónias, fosse respeitada a sua privacidade durante o período de luto, sem visitas à residência nem receção após o funeral.

​Mas deixou também um pedido especialmente tocante.

​Em vez de flores, os familiares convidam quem desejar homenagear Adelina a fazer uma oração, praticar um gesto de bondade ou partilhar uma refeição com alguém de quem goste.

​É difícil imaginar uma homenagem mais próxima da maneira como viveu.

​Uma mulher que não deixava ninguém sair de sua casa sem comer será recordada, por vontade dos seus, através da partilha de uma refeição.

​Uma mulher que ajudava quem precisava será homenageada através de gestos de solidariedade.

​Uma mulher que encontrava força na fé será lembrada também através da oração.

​No fundo, a família não pede grandes cerimónias. Pede que alguma coisa daquilo que Adelina foi continue a existir nos outros.

​Uma mulher do Fogo, uma história de tantas famílias cabo-verdianas

​Existem milhares de histórias semelhantes à de Adelina espalhadas pela diáspora.

​Mulheres que partiram de Cabo Verde ainda jovens, construíram famílias no estrangeiro, trabalharam durante décadas e continuaram a preocupar-se com os familiares que ficaram nas ilhas.

​Mulheres que raramente aparecem nas notícias, mas que são fundamentais na vida das suas comunidades.

​São mães, avós, tias, vizinhas, amigas e trabalhadoras.

​Muitas vezes, a importância daquilo que fizeram só se torna plenamente visível quando já não estão presentes.

​A história de Adelina recorda-nos que uma vida não precisa de ser extraordinária aos olhos do mundo para ter um valor imenso para as pessoas que dela fizeram parte.

​O seu nome pode não ser conhecido pela maioria dos cabo-verdianos. Mas o seu percurso é familiar a muitos de nós.

​Há certamente, em cada ilha e em cada comunidade emigrante, uma Adelina que trabalha em silêncio, que prepara comida a pensar nos outros, que acolhe um familiar recém-chegado ou que guarda alguma coisa para enviar a quem precisa.

​Pessoas que fazem muito, mesmo quando quase ninguém está a olhar.

​Adelina Nunes Veiga Costa nasceu no Fogo, viveu grande parte da vida em Massachusetts e morreu aos 65 anos, rodeada pelo amor da sua família.

​O que deixa não pode ser contado apenas em anos de trabalho, viagens, datas ou números.

​Está nas pessoas que acolheu, nos filhos que criou, nos netos que amou e na ajuda que ofereceu.

​E talvez seja essa a maneira mais bonita de recordar a sua vida.

​Adelina partiu. Mas, graças a ela, houve pessoas que encontraram uma casa, uma refeição, uma ajuda e, sobretudo, alguém que se importava.

​À família de Adelina Nunes Veiga Costa, o Caboverde24.info apresenta as suas mais sentidas condolências.

​Que descanse em paz.

​Caboverde24.info

​Fonte: Obituário familiar publicado por Downing Cottage Funeral Chapel, através de Legacy.com, em 13 de outubro de 2026.

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