Superar a dependência de drogas é um processo complexo que exige uma abordagem integrada, multidisciplinar e adaptada à realidade cabo-verdiana. O percurso mais eficaz para jovens envolve várias etapas e recursos, desde o acesso aos serviços de saúde até a reinserção social e apoio contínuo.
Procura e acesso ao tratamento especializado
– O primeiro passo é reconhecer o problema e procurar ajuda. Em Cabo Verde, existem diversas estruturas especializadas para o tratamento das dependências, como:
– centros de saúde e delegacias presentes em todos os concelhos do país, como o centro de saúde de Santa Maria, ilha do Sal
– espaços de respostas integradas às dependências (ERID), serviços comunitários descentralizados em vários municípios
– comunidade terapêutica Granja São Filipe, em Achada São Filipe, próximo da cidade da Praia, ilha de Santiago
– ONG Tendas do El Shaddai, em Pedra Badejo, concelho de Santa Cruz, ilha de Santiago
– Remar Cabo Verde, na rua de S. Nicolau 18, Palmarejo, cidade da Praia, ilha de Santiago
– Fazenda da Esperança, em Trindade, ilha de Santiago, diocese de Santiago
Avaliação individualizada e triagem
– O jovem passa por uma triagem inicial, com avaliação clínica, psicológica e social, para definir o plano terapêutico mais adequado.
– O envolvimento da família é incentivado desde o início, pois o suporte familiar é um fator decisivo para o sucesso do tratamento.
Intervenção terapêutica multidisciplinar
– O tratamento pode envolver:
– terapias individuais e em grupo, como psicoterapia, terapia cognitivo-comportamental e terapia motivacional
– acompanhamento médico e psiquiátrico, quando necessário
– participação em grupos de autoajuda como Narcóticos Anónimos (NA) e Alcoólicos Anónimos (AA), presentes em várias ilhas e municípios do país
– atividades ocupacionais, educativas e de reinserção social para promover a autonomia e reconstrução do projeto de vida do jovem
Reinserção social e acompanhamento pós-tratamento
– A reinserção social é parte fundamental do processo, com ações que visam:
– retomar vínculos familiares e comunitários
– apoiar o acesso à educação, formação profissional e emprego, aproveitando programas como o Emprego Jovem e Coesão Social
– oferecer acompanhamento continuado para prevenir recaídas, com monitorização regular e apoio psicossocial
Prevenção e redução de riscos
– As políticas públicas em Cabo Verde reconhecem a importância da prevenção, da redução de riscos e da minimização de danos, com campanhas educativas, envolvimento das escolas e da sociedade civil, e combate ao estigma.
– Há também um movimento crescente para políticas mais humanizadas, que separam o consumidor do traficante e priorizam o tratamento e a inclusão, inspirando-se em exemplos internacionais como o de Portugal.
Considerações finais
O melhor percurso para os jovens deixarem a dependência da droga em Cabo Verde é aquele que integra tratamento especializado, apoio familiar, reinserção social e acompanhamento contínuo, além de políticas públicas que promovam a prevenção, a educação e a redução de danos. O sucesso depende da articulação entre serviços de saúde, sociedade civil, família e políticas inclusivas, sempre respeitando a dignidade do jovem e promovendo a esperança de um novo projeto de vida.




























2 Responses
Não foi referido a recém aberta Comunidade Terapêutica de Ribeira de Vinha em São Vicente e que serve a região Norte do país.
Dependência: não se cura com força, mas com consciência e identidade
A dependência química é uma doença primária, crônica e progressiva que afeta profundamente os jovens em Cabo Verde. Não se trata de fraqueza moral ou falta de força de vontade, mas sim de um desequilíbrio físico, emocional e psicológico que exige empatia, apoio contínuo e tratamento adequado. Combater a adição com repressão ou estigmatização apenas agrava o problema e afasta quem mais precisa de ajuda.
O cenário torna-se ainda mais alarmante quando se observa o fácil acesso a drogas nas comunidades, alimentado por uma crescente oferta e circulação de substâncias ilícitas nas ilhas. Ao mesmo tempo, a ausência de políticas públicas eficazes de prevenção e educação sobre saúde mental e drogas deixa os jovens vulneráveis. Muitos são empurrados para o consumo como forma de escapar da realidade ou preencher vazios existenciais.
Há, também, uma crise silenciosa de identidade entre os jovens cabo-verdianos. Influenciados por padrões externos e pela cultura do consumismo, muitos vivem na busca constante por aceitação, sucesso fácil e prazer imediato — seguindo modas, mas sem direção. Falta-lhes propósito, autoestima e, muitas vezes, figuras de referência que os ajudem a construir um projeto de vida. Essa desconexão consigo mesmos e com a cultura local abre espaço para escolhas perigosas e comportamentos autodestrutivos.
É urgente reconhecer que esta é uma questão de saúde pública, social e cultural. Precisamos de mais do que medidas de repressão: precisamos de educação que forme cidadãos críticos, de espaços de escuta e acolhimento, de iniciativas que promovam o autoconhecimento, a valorização das raízes e a construção de um futuro com sentido.
A solução não está na força, mas na consciência — uma consciência coletiva que compreenda que cada jovem merece apoio, dignidade e a chance de recomeçar. Um só por hoje, A vigilância é o escudo da queda. O lema é estamos juntos. É uma mentira o usuário está sempre sozinho, vivi para consumir e consumi para viver.