“Da aviação à justiça, passando pela gestão de crises: o ano termina com “dossiês” abertos e inquéritos cujas conclusões tardam a chegar à opinião pública”
Redação Caboverde24 | 16 de Dezembro de 2025
O ano de 2025 aproxima-se do fim, deixando um rasto de acontecimentos que testaram a resiliência das instituições cabo-verdianas e, sobretudo, a paciência dos cidadãos que esperam respostas. Entre falhas técnicas, tragédias humanas e episódios de potencial criminalidade, vários casos permanecem numa “zona cinzenta” inaceitável num Estado de direito.
Mais do que apontar culpados, o jornalismo independente deve cobrar clareza e responsabilização. Comissões de inquérito foram criadas, averiguações foram anunciadas com pompa, mas os relatórios finais ou não foram concluídos ou — pior ainda — não foram divulgados à opinião pública que, afinal, financia estas instituições.
O Caboverde24 sistematiza os 5 casos mais críticos do ano que exigem esclarecimento urgente.
1. O “Domingo negro” da TACV e a supervisão invisível da AAC
Ocorrência: 31 de Agosto de 2025
Tempo decorrido: 107 dias sem conclusões públicas
A ativação simultânea de planos de contingência em dois voos domésticos da TACV (VR4501 Praia-Sal e VR4204 Sal-São Vicente, ambos operados em regime ACMI por parceiros externos) gerou alarme generalizado e expôs de forma dramática a fragilidade da operação interilhas — coluna vertebral da conectividade nacional.
Centenas de passageiros viram os seus planos desfeitos num domingo que ficará marcado como o dia em que a aviação doméstica cabo-verdiana mostrou o seu lado mais vulnerável. A falha simultânea levantou questões sobre protocolos de manutenção, formação das tripulações dos parceiros ACMI e supervisão efetiva da AAC.
A Questão em aberto: A Autoridade de Aviação Civil (AAC) e a TACV anunciaram, com a solenidade própria destes momentos, investigações internas “rigorosas”. Passados quatro meses, o relatório técnico sobre as causas reais das falhas — humanas, mecânicas, de manutenção deficiente dos parceiros alugados ou de supervisão inadequada — permanece totalmente desconhecido do público.
O que exigimos saber:
- Que falhas concretas foram identificadas?
- Os parceiros ACMI cumpriram todos os requisitos de segurança contratualizados?
- Que medidas corretivas foram efetivamente aplicadas para evitar nova ocorrência?
- A AAC aplicou sanções ou reforçou protocolos de supervisão?
O silêncio sobre as conclusões mantém a incerteza e mina a confiança na segurança das operações aéreas domésticas. Quando os cabo-verdianos poderão voar entre ilhas com a garantia de que as lições foram aprendidas?
2. A tragédia de 11 de Agosto em São Vicente: mortes anunciadas?
Ocorrência: Tempestade tropical e cheias devastadoras
Tempo decorrido: 127 dias sem auditoria ao sistema de alerta
São Vicente sofreu o impacto de uma precipitação histórica e brutal — 192,3 mm em poucas horas, um recorde absoluto para a ilha —, resultando em perdas humanas irreparáveis e danos materiais calculados em centenas de milhões de escudos. A força da água arrastou tudo: casas, viaturas, vidas.
A polémica instalou-se de imediato devido à ausência total de um alerta meteorológico de nível laranja ou vermelho por parte do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (INMG). A população de Mindelo acordou para um cenário de apocalipse sem ter sido avisada do perigo iminente.
A Questão em aberto: A justificação oficial do INMG centrou-se na insuficiência de radares meteorológicos em território nacional — uma explicação tecnicamente plausível mas que não encerra o debate. Falta apurar de forma independente se houve falha na interpretação dos dados satélite disponíveis (que existem e são acessíveis gratuitamente) e, de forma crucial, que protocolos concretos foram alterados desde então.
O que exigimos saber:
- Que dados meteorológicos estavam disponíveis nas 24-48 horas anteriores?
- Houve subestimação do risco por parte dos técnicos do INMG?
- Que investimentos foram aprovados para melhorar o sistema de alerta?
- Existe agora um protocolo claro de comunicação entre INMG, Proteção Civil e municípios?
- Quanto custa um radar meteorológico e quando será instalado?
Numa próxima intempérie — e haverá outras, com as mudanças climáticas —, a Proteção Civil e a população estarão avisadas a tempo? Ou voltaremos a contar mortos evitáveis?
3. O avião da Guarda Costeira: Milhões a voar só um vez
Ocorrência: Abril de 2025 (missão inaugural)
Tempo decorrido: 8 meses de opacidade financeira
O King Air 360ER, adquirido especificamente para colmatar o défice crónico nas evacuações médicas de emergência (EVAM) entre ilhas, sofreu danos significativos logo na sua primeira missão operacional, ficando inoperacional durante semanas num período em que poderia ter salvado vidas.
O equipamento, que custou milhões aos contribuintes cabo-verdianos, foi apresentado como a solução definitiva para um problema que já custou vidas. A avaria na estreia transformou a esperança em frustração nacional.
A Questão em Aberto: Para além das questões técnicas legítimas — erro de pilotagem? falha mecânica não detetada? condições inadequadas da pista de aterragem? —, persiste uma dúvida financeira que nenhum governante esclareceu até hoje: quem assumiu os custos da reparação?
O que exigimos saber:
- Qual foi o valor exato gasto na reparação?
- O Estado acionou garantias contratuais ou apólices de seguro?
- Se não, o erário público cobriu integralmente o prejuízo?
- Houve responsabilização administrativa ou disciplinar de alguém?
- O avião está hoje 100% operacional e cumpre os requisitos para EVAM?
A transparência sobre a fatura deste incidente continua por fazer. Os cabo-verdianos têm o direito de saber quanto custou o erro e quem pagou.
4. A “sabotagem” na Electra: Crime real ou cortina de fumo?
Ocorrência: Setembro e Outubro de 2025 (blackouts em Praia e São Vicente)
Tempo decorrido: 90 dias sem conclusões da PJ
Perante apagões prolongados que paralisaram a capital e o principal polo turístico do país, a administração da Electra e o próprio Governo levantaram rapidamente a tese de sabotagem industrial, citando “parafusos misteriosamente desapertados” em equipamentos críticos e apresentando queixa formal na Polícia Judiciária.
A gravidade da acusação é extrema: sabotagem em infraestruturas críticas é crime de segurança nacional. Mas a tese também é conveniente para desviar atenções de eventuais falhas de manutenção preventiva ou desinvestimento crónico no setor elétrico.
A questão em aberto: Passados três meses, a investigação criminal confirmou a existência efetiva de sabotadores? Se sim, quem são, que motivações tinham e foram detidos? Se não, a tese serviu apenas para encobrir incompetência na gestão da Electra?
O que exigimos saber:
- A PJ concluiu a investigação?
- Existem suspeitos identificados ou detidos?
- Os “parafusos desapertados” foram resultado de sabotagem ou de manutenção deficiente?
- Se foi sabotagem, que medidas de segurança foram reforçadas nas centrais?
- Se não foi, alguém na Electra será responsabilizado pela gestão inadequada?
A ausência total de um desfecho na investigação deixa a dúvida corrosiva instalada sobre a segurança e a gestão das infraestruturas críticas do país. Sabotadores ou gestores incompetentes? O país merece saber.
5. O homicídio de Leandro “Cubico”: Brutalidade sem justiça
Ocorrência: Junho de 2025 (corpo encontrado após um mês desaparecido)
Tempo decorrido: 6 meses sem avanços públicos
O aparecimento do corpo decapitado do jovem Leandro dos Reis nas águas da Cidade Velha, Património Mundial da Humanidade, após um mês de buscas angustiantes da família, chocou Cabo Verde pela brutalidade absolutamente invulgar e pela violência simbólica do ato.
A decapitação não é um método comum na criminalidade cabo-verdiana. A barbárie do gesto sugere ajuste de contas, ritual ou envio de mensagem — cenários que exigem investigação aprofundada e urgente.
A questão em aberto: Meio ano depois, o caso parece ter arrefecido misteriosamente nas instâncias judiciais. Não foram apresentados publicamente suspeitos, não houve reconstituições, não foi esclarecida a dinâmica do crime nem os motivos.
O que exigimos saber:
- A investigação está ativa ou foi arquivada tacitamente?
- Existem suspeitos sob investigação?
- Que linhas de investigação estão a ser seguidas?
- A família tem sido mantida informada dos progressos?
O silêncio das autoridades alimenta a perceção perigosa de impunidade em crimes de sangue de elevada complexidade. Se um homicídio com esta brutalidade não mobiliza os recursos necessários para resolução, que mensagem se passa aos criminosos? Que confiança podem ter os cabo-verdianos no sistema de justiça?
Outros “Nós” por desatar em 2025
Além dos cinco casos principais que exigem conclusões urgentes, outros dossiês atravessam o ano sem um “ponto final” claro:
Transportes marítimos: Onde param os detalhes concretos da renegociação da concessão com a CV Interilhas? Qual é o calendário efetivo, com datas, para a chegada dos novos navios prometidos solenemente pelo Governo? Os cabo-verdianos continuam a viajar em condições precárias sem horizonte claro.
Fundos do Turismo/Ambiente: As auditorias prometidas com grande alarido sobre a execução de verbas do Turismo e do Ambiente em diversas Câmaras Municipais resultaram em alguma responsabilização concreta este ano?
O veredito final
2025 foi um ano de demasiadas perguntas sem resposta. Um ano em que comissões foram criadas, investigações foram anunciadas, relatórios foram prometidos — mas a transparência brilhou pela ausência.
Num Estado de direito democrático, os cidadãos não devem conformar-se com o silêncio institucional. Cada caso não esclarecido é uma ferida na confiança coletiva, um precedente perigoso de impunidade ou, na melhor das hipóteses, de incompetência tolerada.
2026 terá de ser, obrigatoriamente, o ano das respostas. Não como favor, mas como obrigação democrática. O Caboverde24 continuará a cobrar, caso a caso, as conclusões que os cabo-verdianos merecem.
Caboverde24.info





































