Sal e Boavista isoladas por 3 semanas: Sem voos diretos no coração da alta temporada

“O bloqueio aéreo entre as duas locomotivas do turismo cabo-verdiano gera indignação entre residentes e visitantes em pleno período festivo”.

 

As ilhas do Sal e da Boavista são, historicamente, os pilares da economia de Cabo Verde, sendo responsáveis pela maior fatia do PIB nacional através do setor turístico. Apesar da proximidade geográfica — apenas cerca de 50 km as separam, o que representa um voo de aproximadamente 15 minutos — a conectividade entre ambas tem sido frequentemente instável. No entanto, um cancelamento total de ligações diretas durante o período de maior afluência do ano é um facto sem precedentes que agrava a crise dos transportes internos.

​Fomos contactados hoje por vários residentes da Boavista que nos pediram para denunciar uma situação de isolamento insustentável, com graves repercussões sociais, económicas e ao nível da segurança. As pessoas que nos contactaram expressaram uma profunda indignação e descontentamento, maravilhadas — no sentido negativo — com o que está a acontecer: a partir de hoje, 22 de dezembro, e até ao dia 8 de janeiro de 2026, não existe um único voo direto disponível entre as ilhas da Boavista e do Sal.

​Esta realidade pode ser confirmada nos sistemas de reserva da Cabo Verde Airlines, onde o calendário para este período não apresenta qualquer disponibilidade para esta rota vital.

Incredulidade entre turistas e prejuízos no setor privado

​A gravidade da situação atravessa fronteiras. Dois turistas ingleses, atualmente alojados num resort na Boavista, contactaram a nossa redação incrédulos. Ao tentarem reservar um voo para visitar a ilha do Sal, depararam-se com a falta de opções e questionaram se poderia tratar-se de um “erro técnico” no site da companhia. Infelizmente, a realidade é que não há voos.

Um empresário da ilha, que necessita de se deslocar frequentemente entre o Sal e a Boavista por motivos profissionais, manifestou também o seu revolto. Para ele, este bloqueio representa um “grave prejuízo ao plano de trabalho”, impedindo a gestão normal dos seus negócios num momento em que a produtividade deveria ser máxima.

​Somando-se a estas vozes, um operador turístico local, que preferiu manter o anonimato, solicitou-nos que mantivéssemos a máxima visibilidade sobre este tema. Segundo o mesmo, a sua atividade depende quase exclusivamente da mobilidade aérea e este cenário coloca em risco a sustentabilidade do seu negócio.

O paradoxo do “Coração do turismo”

​É incompreensível como, na época alta do turismo, estas duas ilhas não possam contar com ligações que deveriam ser, por lógica, frequentes e diárias. Este fluxo permitiria que os turistas alojados nos resorts de ambas as ilhas pudessem visitar os respetivos territórios no mesmo dia, dinamizando o comércio local, o setor dos táxis e a restauração em ambas as paragens.

​Além do impacto financeiro, o isolamento levanta questões sérias de segurança e coesão social. Como é possível que o motor económico do país fique “desligado” durante três semanas? Os residentes sentem-se abandonados por um sistema de transportes que parece ignorar a importância estratégica desta ligação para o PIB nacional.

​A nossa redação continuará a acompanhar esta situação, esperando que as autoridades competentes e a operadora aérea possam oferecer uma solução imediata para este apagão logístico que está a asfixiar as duas ilhas mais visitadas de Cabo Verde.

Caboverde24.info 

Fontes:

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