“Entre a reestruturação profunda e o fantasma da liquidação, olhamos com serenidade para os cenários que podem decidir o futuro da companhia aérea nacional”
O diagnóstico financeiro público
Há poucos dias, o caboverde24.info foi dos primeiros a noticiar que o cenário da liquidação da TACV estava a ser equacionado nos bastidores. Essa hipótese ganhou agora confirmação pública: o ministro dos Transportes e Mar, João do Carmo, admitiu, na Praia, que a companhia vive numa situação financeira permanentemente negativa e que o Estado já não consegue sustentar um custo mensal estimado em três milhões de euros.
A TACV não é uma empresa em crise passageira. Desde a sua privatização parcial em 2018/2019, a companhia acumulou sucessivos exercícios deficitários. Segundo dados oficiais, o resultado líquido negativo ultrapassou os 637 milhões de escudos apenas num trimestre, com os custos de leasing das aeronaves a pesarem de forma desproporcionada nas contas. Trata-se, portanto, de um problema estrutural, não conjuntural.
O ministro João do Carmo foi claro ao enumerar as opções, por ordem de preferência: uma reestruturação profunda das operações e da estrutura de custos; a entrada de parceiros estratégicos ou investidores privados; a redefinição do próprio modelo de negócio; e, apenas como última hipótese, a liquidação pura e simples da empresa.
Um precedente que já foi tentado
A ideia de uma reestruturação “profunda” da TACV não é nova. Nos primeiros anos da década de 2000, o Estado chegou a confiar a gestão da companhia a um administrador estrangeiro, de origem canadiana, com um mandato orientado para a racionalização de custos e de rotas.
A receita proposta era particularmente dura no plano social e financeiro, envolvendo cortes significativos de pessoal e sacrifícios consideráveis para equilibrar as contas da empresa. Foi precisamente a dureza dessas medidas que acabou por ditar o seu afastamento: o gestor permaneceu no cargo apenas por um período limitado, antes de a colaboração ser interrompida.
O episódio mostra que a tentação de “importar” gestão internacional para resolver os problemas estruturais da TACV já foi experimentada no passado, sem que se tenham consolidado resultados duradouros — e que as soluções tecnicamente mais eficazes tendem a ser, também, as mais difíceis de sustentar política e socialmente.
A gestão precisa de verdadeiros gestores
Este precedente reforça um ponto que, na nossa opinião, tem sido subestimado ao longo dos anos: a TACV não pode continuar a ser gerida como um departamento do Estado, mas sim como uma empresa aérea a operar num mercado competitivo e implacável. Isso exige à frente da companhia administradores com experiência internacional comprovada no setor da aviação — gestores habituados a negociar leasings, a reestruturar dívida e a redesenhar redes de rotas com critérios de rentabilidade, mas que disponham também da estabilidade e do apoio político necessários para sustentar decisões difíceis até ao fim, sem serem substituídos ao primeiro sinal de contestação.
Mais do que isso, uma reestruturação séria exige que esse gestor receba um mandato com margem de ação real: autonomia executiva efetiva, sem interferências partidárias no dia a dia da gestão, sem necessidade de validação política para cada decisão operacional, e sem os vínculos e condicionantes que, historicamente, têm travado qualquer tentativa de saneamento profundo da empresa.
A experiência do administrador canadiano é, precisamente, o exemplo do que acontece quando um plano tecnicamente sólido não é acompanhado de um mandato protegido dessas pressões: mesmo com a receita certa, sem espaço de manobra, a reforma não sobrevive ao primeiro embate político.
Uma questão de cultura organizacional
Há ainda uma dimensão cultural que qualquer processo de reestruturação terá de enfrentar. Ao longo de décadas, a TACV foi também, em certa medida, um reflexo de uma prática mais ampla na administração pública cabo-verdiana: a de encarar empresas do Estado como espaço de acomodação de relações pessoais, familiares ou de proximidade política, mais do que como estruturas organizadas em torno de mérito e competência técnica.
Este fenómeno, comum a muitas companhias aéreas de bandeira em pequenos países, ajuda a explicar parte da ineficiência operacional que se arrasta até hoje — e é também uma das razões pelas quais qualquer plano de saneamento, por mais bem desenhado que seja tecnicamente, tende a esbarrar em resistências internas difis de vencer sem verdadeira vontade política.
Qual caminho parece mais realista?
Do ponto de vista editorial, e sem qualquer intenção polémica, parece-nos que o cenário da liquidação, embora tecnicamente possível, dificilmente será a opção final. Precedentes anteriores mostraram que extinguir uma companhia de bandeira tem custos avultados e implicações sociais e de conectividade que nenhum executivo assume levianamente, sobretudo num arquipélago cuja diáspora depende fortemente da ligação aérea internacional.
A via mais provável — e também a mais defensável do ponto de vista do interesse público — combina dois dos cenários apresentados: uma reestruturação interna rigorosa, conduzida por gestores de real experiência internacional, acompanhada da procura de um parceiro estratégico que traga capital fresco. O desafio não será tanto desenhar o plano certo, mas garantir a estabilidade política para o executar até ao fim.
Ao problema financeiro estrutural soma-se um problema comercial que os números tornam evidente: mesmo quando pratica preços competitivos, a TACV raramente consegue preencher os seus voos nas rotas mais procuradas, enquanto companhias concorrentes que operam as mesmas ligações — como a TAP, a EasyJet ou a Transavia — conseguem margens de rentabilidade consideravelmente mais elevadas nesses mesmos mercados. Isto sugere que o problema da companhia cabo-verdiana não se limita à estrutura de custos: há também uma questão de perceção e confiança do consumidor, moldada por anos de instabilidade de gestão, que nenhuma reestruturação financeira resolve sozinha.
Para Cabo Verde, a TACV não é apenas uma empresa deficitária: é um instrumento de soberania de conectividade, num país arquipelágico onde o transporte aéreo interliga ilhas, garante o turismo e mantém viva a ligação com a diáspora. Qualquer decisão terá de pesar não só o défice contabilístico, mas também o custo social e estratégico de uma eventual descontinuidade do serviço.
Nota editorial:
Este texto constitui um artigo de opinião do caboverde24.info, baseado em declarações oficiais, em dados públicos disponíveis até à data de publicação e em memória do setor. As conclusões aqui apresentadas refletem uma leitura editorial e não substituem eventuais estudos técnicos que o executivo venha a encomendar.
Recordamos que…
a hipótese de liquidação da TACV havia sido avançada por este jornal ainda antes da confirmação oficial, e que o ministro João do Carmo garante que este cenário só será considerado em último recurso, depois de esgotadas as alternativas de reestruturação, mantendo-se o debate em acompanhamento analítico permanente neste sábado, 18 de julho de 2026.
Caboverde24.info
Artigo de opinião



























