“A primeira carta da rubrica Entre Nós: a história de Ana, entre Lisboa e Cabo Verde”
A carta de Ana
Chamemos-lhe Ana. É natural da ilha de São Nicolau, mas durante anos trabalhou na ilha do Sal como empregada de limpeza. É ela quem nos escreve, na primeira pessoa, para partilhar o que sente na sua intimidade:
“Sô mudjer di São Nicolau, ma dja tenpo ki N ta trabadja na Sal. Dexei tudo pa nu podê fika djuntu, mas gosi N ka sabe se fazi kel eskolha certu.”
“O meu marido emigrou para Portugal com a nossa filha há mais de um ano. Foi um ano de muita incerteza, de saudade, de contas que não fechavam entre estar aqui e estar lá. Depois de muito pensar, decidi ir ter com eles a Lisboa, porque achava que era isso que ia dar felicidade à nossa família — estarmos todos juntos, debaixo do mesmo teto.”
“Já passaram seis meses e percebo que aquela não foi a escolha que me ia fazer feliz. A minha filha e o meu marido dão-me muito, isso é verdade, mas não é suficiente para eu sentir que aquela é a vida certa para mim.”
“Trabalho agora como empregada de limpeza numa casa de uma família em Lisboa. Não me sinto bem naquele ambiente — os patrões discutem muitas vezes, e a atmosfera onde trabalho não é das melhores. De vez em quando, a senhora da casa desabafa comigo. Diz-me que tem muitas posses, mas que é infeliz. Que gostaria de estar com outro homem, mas sabe que se deixar o que tem, perde muitas certezas — e é isso que a impede de escolher. Ouvindo-a, N ta odja mi mesmu nel.”
“Gostaria de dizer ao meu marido que quero voltar para Cabo Verde, mas tenho medo da reação dele. Ele sente-se bem em Lisboa e não tem intenção de voltar para a sua terra. Por isso, as minhas noites são muitas vezes insones, e quando vou trabalhar estou mais cansada do que quando fui dormir na noite anterior.”
“Ka N sabe kuzê ki N ta faze. Ka N sabe si N ta fugi ku nha fidja, ô si N ta fika, ku speransa ma kuza pode muda. N ta sinti tanto sôdade di nha tera, di kes algen ku kes ki N tava fika dretu, di ambienti ki N kriese nel. Ma N sabe tanbê ma si N bai sô, sen nha maridu, é fin di nos família. Kuzê ki nhos ta konseja mi?”
Quem é Ana?
Ana é uma cidadã cabo-verdiana, chefe de família, cuja trajetória de vida reflete a dupla insularidade e o percurso migratório comum a muitos cabo-verdianos. Originária de São Nicolau, fez parte da força de trabalho do setor de serviços e turismo no Sal antes de tomar a decisão de emigrar para a capital portuguesa, personificando os desafios de adaptação, identidade e saúde emocional que afetam as mulheres da nossa diáspora.
A resposta da redação
Ana, obrigado por partilhares uma história tão íntima connosco, e certamente com muitas leitoras e leitores que se vão rever nela.
Não existe uma resposta certa para o que estás a viver — e desconfia de quem te disser o contrário. O que percebemos na tua carta é um cansaço que não é só físico: é o cansaço de viver uma vida que ainda não sentes como tua, longe da terra que te formou, ao lado de pessoas que amas mas que talvez não bastem, sozinhas, para preencher esse vazio.
Uma coisa nos parece clara: o silêncio está a pesar tanto quanto a distância. O teu marido não pode responder a algo que não sabe que estás a sentir. Talvez o primeiro passo não seja decidir entre ficar ou partir, mas encontrar coragem para lhe dizer o que nos escreveste a nós — sem acusações, apenas com verdade.
As famílias que atravessam a emigração enfrentam frequentemente este mesmo impasse, e conversas assim, por mais difíceis que sejam, raramente destroem o que já é sólido; costumam, sim, revelar até que ponto ainda existe espaço para se ouvirem um ao outro.
Se sentires que sozinhos não conseguem falar sobre isto sem se magoarem, procurar apoio de um profissional — um psicólogo ou um mediador familiar — pode ajudar a criar esse espaço de escuta que, à distância e no cansaço do dia a dia, se perde com facilidade.
Quanto à decisão final, só tu a poderás tomar, no teu tempo. Mas talvez ela comece não em escolher entre Cabo Verde e Lisboa, mas em permitir-te, finalmente, seres ouvida por quem partilha a tua vida.
Nota editorial: Esta rubrica não substitui o acompanhamento de um profissional de saúde mental ou de um mediador familiar. Em situações de sofrimento emocional persistente, recomendamos sempre a procura de apoio especializado na rede de saúde.
Recordamos que… esta é a primeira carta publicada na nossa nova rubrica Entre Nós, um espaço comunitário criado especificamente para dar voz e acolhimento a histórias como a de Ana — relatos anónimos, reais, e frequentemente partilhados por muitos leitores em silêncio, sob acompanhamento e apoio da nossa redação hoje, domingo, 19 de julho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: Carta enviada por uma leitora à redação



























