“O atraso da televisão pública na cobertura da tragédia reacendeu críticas que vão muito além da RTC: precariedade, baixos salários, formação, independência, pouca investigação e uma informação nacional que nem sempre chega primeiro através dos meios do país.”
Em 30 segundos
📺 A própria administração da RTC considerou insuficiente a resposta da televisão pública à tragédia do Fogo e apontou várias falhas na cobertura.
👥 Denúncias de precariedade, salários baixos e escassez de meios técnicos colocam em evidência os constrangimentos enfrentados pelos profissionais.
🔎 O debate ultrapassa a esfera pública: terá o arquipélago um ecossistema mediático estruturado para assegurar rapidez, autonomia e investigação aprofundada?
O Fogo não explica tudo
Durante uma tragédia, informação rápida e confirmada é também serviço público.
Foi precisamente nesse momento que a televisão pública cabo-verdiana ficou sob forte crítica. O Conselho de Administração da RTC considerou insuficiente a rapidez da cobertura do acidente no Fogo e apontou o episódio como o culminar de várias falhas atribuídas à direção da televisão.
Quando a informação chegou à televisão pública, outros meios, incluindo órgãos internacionais, já tinham avançado com a notícia.
Mas o problema começou naquela noite?
Provavelmente, a pergunta mais útil é outra: o Fogo tornou apenas mais visíveis fragilidades que já existiam?
Quando a notícia chega primeiro de fora
Nas redes sociais repete-se uma crítica: acontecimentos diretamente relacionados com Cabo Verde são, por vezes, encontrados primeiro em órgãos internacionais ou fontes estrangeiras e só depois nos meios nacionais.
É uma perceção que precisa de ser medida antes de ser transformada numa conclusão. Mas levanta uma questão legítima.
Cabo Verde é um arquipélago ligado ao mundo pela diáspora, pelo turismo, pela aviação, pela economia e pela cooperação internacional. Acompanhar o país significa também acompanhar permanentemente aquilo que acontece fora dele.
Para isso são necessários jornalistas, correspondentes, tecnologia, especialização e redações organizadas para trabalhar em tempo real.
Condições de trabalho e formação contínua
A discussão sobre qualidade não pode ignorar quem produz a informação.
A Associação Sindical dos Jornalistas de Cabo Verde denunciou este ano situações de precariedade na RTC, incluindo profissionais com décadas de atividade, contratos por regularizar e remunerações próximas do salário mínimo. A associação tem igualmente defendido maior formação e capacitação profissional.
São questões determinantes no contexto contemporâneo.
Hoje exige-se acompanhamento permanente de fontes nacionais e internacionais, pesquisa digital, verificação de imagens e vídeos, análise de documentos e dados, domínio de diferentes plataformas e capacidade técnica para desmantelar rapidamente desinformação. Não basta exigir rapidez e qualidade; é imperativo apurar se as estruturas oferecem os recursos necessários para o efeito.
Onde está a investigação?
Outra reflexão recorrente diz respeito à escassez de jornalismo de investigação.
Cabo Verde produz diariamente vasto material informativo sobre declarações, cerimónias protocolares, decisões e comunicados governamentais. No entanto, investigar implica processos substancialmente distintos: procurar o que não foi divulgado, analisar contratos, cruzar dados estatísticos, proteger fontes e dedicar tempo a apurações complexas.
Isso exige investimento financeiro continuado.
Redações de pequena escala, condicionadas por orçamentos curtos e pelo ritmo diário de publicação, encontram barreiras severas na manutenção de equipas dedicadas exclusivamente à grande reportagem. A fragilidade estrutural do ecossistema acaba por delimitar o alcance do escrutínio público.
Comunicação institucional versus jornalismo
Existe ainda uma linha ténue entre a assessoria e a prática jornalística.
Governo, autarquias, partidos políticos e entidades corporativas contam hoje com gabinetes estruturados, preparados para entregar conteúdos multimédia prontos a consumir. Embora tal comunicação seja legítima, a reprodução sem filtro crítico desvirtua o papel da imprensa.
Quando faltam recursos humanos e técnicos, cresce a tentação de reproduzir comunicados integrais, permitindo que a agenda pública seja delineada pelas instituições com maior poder de difusão, e não pelo escrutínio independente das redações.
Caboverde24.info
Fonte: Autoridade Reguladora para a Comunicação Social; Associação Sindical dos Jornalistas de Cabo Verde; Rádio Televisão Cabo-verdiana; Agência Cabo-verdiana de Notícias (Inforpress).
Nota Editorial
Este artigo analisa os aspetos estruturais do jornalismo nacional à luz das reações públicas e institucionais geradas pelos recentes acontecimentos, preservando a neutralidade factual e evitando juízos de valor sobre decisões operacionais específicas das entidades





























