“A utilização de jatos de médio curso em voos domésticos mascara falhas de gestão e impõe custos operacionais astronómicos que fragilizam o setor”
A Cabo Verde Airlines comunicou a “normalização” das suas operações domésticas através da disponibilização de mais de dois mil lugares num único dia. No entanto, por trás da propaganda de eficiência, esconde-se uma realidade preocupante: a utilização de aeronaves Boeing 737 para realizar saltos inter-ilhas. Esta medida, embora escoe o fluxo de passageiros retidos, representa uma gestão de crise que ignora os princípios básicos da economia da aviação e sobrecarrega os custos operacionais da transportadora de bandeira.
A disparidade de custos: Boeing vs. ATR
Operar um Boeing 737 em rotas desenhadas para turbo-hélices como o ATR 72 é, do ponto de vista financeiro, um contrassenso. O Boeing é uma aeronave otimizada para cruzeiros de longa duração em altitudes elevadas. Em voos domésticos em Cabo Verde, a aeronave mal atinge a altitude de cruzeiro antes de iniciar a descida, resultando num consumo de combustível desproporcional.
Além do combustível, as taxas aeroportuárias — calculadas com base no peso máximo de descolagem (MTOW) — são substancialmente mais altas para um Boeing. O custo de manutenção por ciclo (cada aterragem e descolagem) de um jato é também vastamente superior, o que significa que cada voo gerado nestes moldes produz um prejuízo operacional que, direta ou indiretamente, acaba por ser suportado pelos cidadãos.
O eco na imprensa internacional
O caos instalado não passou despercebido além-fronteiras. A imprensa internacional, com destaque para órgãos de comunicação em Portugal e portais de viagens europeus, assinalou com severidade as ineficiências da companhia. As notícias destacam como a falta de uma frota robusta e de um plano de contingência eficaz coloca em xeque a fiabilidade do destino turístico. O tom das reportagens estrangeiras coloca “sob luz forte” a fragilidade da CVA, alertando potenciais visitantes para os riscos de cancelamentos sem aviso prévio ou assistência adequada, o que prejudica gravemente a imagem do país.
Caos nas redes sociais e abandono de passageiros
Nas últimas 48 horas, o descontentamento digital atingiu níveis recorde. Turistas e residentes inundaram o Facebook e o Instagram com relatos de total desamparo. Na ilha da Boa Vista, passageiros descreveram situações desumanas, incluindo noites passadas em autocarros sem acesso a água ou higiene. A discrepância entre o tom “vitorioso” do comunicado da empresa e a realidade vivida por quem ficou “a pé” sem qualquer assistência básica gerou uma onda de indignação que ainda persiste.
A necessidade de intervenção da AAC
Perante o cenário de incumprimento sistemático, a Agência de Aviação Civil (AAC) encontra-se sob escrutínio. É legítimo que a sociedade cabo-verdiana espere uma postura mais assertiva do regulador. O papel da AAC não deve limitar-se à certificação técnica, mas estender-se à fiscalização rigorosa dos direitos do passageiro. A reincidência de passageiros deixados sem alojamento ou alimentação exige que a AAC aplique sanções exemplares e intensifique as verificações sobre o respeito pelas regras de assistência.
Nota editorial
As opiniões e análises aqui expressas baseiam-se em factos operacionais e relatos públicos, não representando necessariamente a posição oficial das autoridades de tutela.
Caboverde24.info
Fonte: Comunicado oficial da Cabo Verde Airlines e reportagens da imprensa internacional (Lusa/Público).







































