“Os dados do INE revelam um crescimento expressivo no setor aéreo, mas sinais de contração nos portos e nos transportes urbanos levantam questões sobre o equilíbrio da mobilidade no arquipélago.”
Um trimestre de duas velocidades
As estatísticas de transportes divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) relativas ao primeiro trimestre de 2026 revelam uma fotografia contrastante da mobilidade em Cabo Verde: o setor aéreo registou crescimentos expressivos em todos os indicadores, enquanto os portos e os transportes urbanos acusaram quebras que merecem atenção.
Os números refletem, em parte, a sazonalidade do turismo e o dinamismo crescente das rotas internacionais para o arquipélago — mas não contam apenas essa história.
Aviação: crescimento em todas as frentes
No conjunto dos aeroportos e aeródromos nacionais, o desempenho do primeiro trimestre de 2026 foi amplamente positivo. O número de movimentos de aviões cresceu 17,1% face ao mesmo período de 2025, acompanhado por um crescimento idêntico no tráfego de passageiros, também de 17,1%.
Ainda mais significativo foi o desempenho da carga: a tonelagem movimentada aumentou 28,7%, enquanto os correios cresceram 18,2%. Estes valores sugerem não apenas um reforço do tráfego turístico, mas também uma intensificação das operações logísticas e comerciais via aérea — um sinal potencialmente importante para a economia das ilhas.
O crescimento aéreo insere-se num contexto de expansão das rotas para Cabo Verde, com várias companhias a reforçarem a oferta de lugares, sobretudo para as ilhas do Sal e Santiago.
Portos: crescimento dos contentores não compensa a queda nas mercadorias
O setor marítimo apresenta um quadro mais misto. O número de movimentos de navios recuou 3,5%, e a tonelagem de mercadorias movimentadas desceu 1,8% — duas quedas que podem indicar uma retração nas importações ou alterações nos padrões de abastecimento inter-ilhas.
Em sentido contrário, o tráfego de passageiros nos portos cresceu 4,6%, e o número de contentores de 20 pés (TEU) movimentados aumentou 8,5%. Este último dado é relevante: o crescimento de contentores num contexto de queda geral de tonelagem pode sugerir uma maior fragmentação das cargas ou uma mudança na composição das importações.
Transportes urbanos: uma quebra que preocupa
O dado mais preocupante do trimestre diz respeito aos transportes coletivos urbanos regulares por autocarro: uma quebra de 10,5% no número de passageiros transportados face ao mesmo período do ano anterior.
Esta queda levanta questões sobre a competitividade e a atratividade do transporte público nas cidades cabo-verdianas, nomeadamente na Praia e no Mindelo. Fatores como o custo do bilhete, a frequência dos serviços, a concorrência das motos-táxi e das aplicações de mobilidade, ou simplesmente uma mudança de hábitos pós-pandemia, podem estar na origem do recuo.
eitura global: turismo puxa, logística resiste, mobilidade interna interroga
O conjunto dos dados sugere que Cabo Verde continua a beneficiar do seu posicionamento como destino turístico e de uma intensificação das trocas comerciais via aérea. Porém, os sinais de contração no setor portuário e no transporte urbano remetem para desafios estruturais que vão além do ciclo turístico.
Num arquipélago onde a conectividade entre ilhas e a mobilidade urbana têm impacto direto na qualidade de vida das populações e na competitividade das empresas, estes números merecem um acompanhamento atento por parte das autoridades setoriais.
Recordamos que…
O INE publica trimestralmente as Estatísticas dos Transportes, compilando dados provenientes dos aeroportos, portos e operadores de transporte urbano do país. A edição agora divulgada cobre o período de janeiro a março de 2026 e serve de referência para o acompanhamento da evolução do setor no arquipélago.
Caboverde24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE) — Estatísticas dos Transportes, 1.º Trimestre de 2026





























