​A jovem cabo-verdiana que, sem saber, desmascarou uma rede de fraude em 91 países


O dia em que um exercício de aula mudou tudo

​Havia uma tarefa simples a cumprir. Uma jovem cabo-verdiana, finalista de jornalismo em Portugal, estava em estágio na Lusa Verifica — o serviço de verificação de factos da agência de notícias Lusa. A proposta era pedagógica: analisar a origem de uma página suspeita que circulava nas redes sociais, usando o nome da Comissão Nacional de Eleições de Cabo Verde para simular um falso portal de recrutamento.

​Ninguém esperava o que viria a seguir.

O código que abreu uma porta para o mundo

​A jovem estagiária e a jornalista da Lusa Verifica que a acompanhava começaram por analisar o código-fonte da página. O que encontraram foram ligações para vários perfis no Blogger, uma plataforma de criação de blogues da Google. Essa descoberta desencadeou uma investigação mais aprofundada: a equipa abriu novas ligações, consultou códigos-fonte, identificou mais perfis e localizou novas páginas, num processo que se repetiu durante semanas.

​O que tinha começado como um exercício didático transformou-se numa investigação de fundo. A cada página descoberta, surgiam mais ligações. A cada ligação, mais países. A teia era vasta — e crescia.

2.197 endereços falsos. 91 países. Tudo a partir de Cabo Verde

​No total, a análise chegou a um universo de 2.197 endereços aparentemente ligados à mesma rede, dirigidos a pelo menos 91 países, incluindo Portugal.

​A rede não se limitava a imitar organismos eleitorais. Os esquemas fraudulentos incluíam falsas ofertas de dados móveis, alegados apoios financeiros, bolsas de estudo, pedidos de visto e até conteúdo adulto, sempre usando a imagem de entidades oficiais, organizações internacionais como a OMS e a UNICEF, empresas e figuras públicas para reforçar a credibilidade. A difusão era feita sobretudo pelo Facebook e pelo WhatsApp.

A CNE de Cabo Verde: ponto de partida involuntário

​A página que desencadeou tudo usava indevidamente o nome e a imagem da CNE de Cabo Verde. Após o alerta público da instituição, que denunciou o uso indevido do seu nome antes das eleições legislativas de 17 de maio, a página foi eliminada. A CNE alertou os cidadãos para não partilharem a publicação, não enviarem dados pessoais e não responderem a anúncios de fontes não oficiais.

​Porém, a investigação da Lusa Verifica localizou uma segunda página falsa idêntica, com o mesmo tipo de esquema em nome da CNE de Cabo Verde, que continuou ativa até perto da data das eleições legislativas.

O Centro Nacional de Cibersegurança concluiu que as páginas apresentam “padrões técnicos transversais” compatíveis com uma campanha “coordenada ou semiestruturada”, orientada sobretudo para “propagação viral”, “geração de tráfego” e “potencial monetização publicitária”.

Uma cabo-verdiana na origem de tudo

​O nome da jovem estagiária não foi divulgado publicamente. Mas o seu contributo ficou registado: foi o seu olhar, a sua curiosidade e a sua formação jornalística que puxaram o primeiro fio de uma meada que se revelou global.

​Numa época em que Cabo Verde debate o combate à desinformação e à fraude digital, esta história é também um sinal de que o país tem jovens capazes de fazer a diferença — mesmo quando estão longe de casa, num estágio curricular em Lisboa, a fazer aquilo que pensavam ser apenas um exercício de aula.

Recordamos que…

A CNE de Cabo Verde emitiu um comunicado oficial alertando os cidadãos para a existência de páginas falsas que usavam indevidamente o seu nome e imagem institucional, pedindo que não partilhassem a publicação nem enviassem dados pessoais. A investigação subsequente das autoridades desmantelou uma teia criminosa de escala global direcionada a 91 nações neste início de junho de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Lusa Verifica; Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS)

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