“Porquê já não aceito participar nas reuniões sobre as problemáticas do setor do turismo?” — o relato de um leitor

“Através do projeto ‘Colabore connosco’, recebemos o testemunho de um empresário do Sal, cansado de décadas de reuniões sem resultados, que decidiu deixar de comparecer aos encontros institucionais sobre turismo”

O testemunho através do projeto “Colabore connosco”

​No dia seguinte ao encontro entre o secretário de Estado do Turismo, José Pimenta Lima, e os operadores turísticos do Sal — que a caboverde24.info acompanhou e noticiou em primeira mão —, a nossa redação recebeu, através do projeto “Colabore connosco”, o testemunho de um empresário que optou por não comparecer.

​O seu relato é, acima de tudo, o de um cansaço acumulado ao longo de mais de duas décadas.

Desde os anos 2000, governos diferentes, a mesma sensação

​Segundo o seu testemunho, o empresário participou em “dezenas e dezenas” de reuniões com instituições desde o início dos anos 2000, um período que atravessou governos de sinais políticos diferentes, tanto de direita como de esquerda.

​Em todos esses ciclos, afirma, ouviu “belas garantias” e promessas de mudança que, segundo o seu relato, nunca se chegaram a concretizar de forma visível no terreno.

​Descreve ainda esses encontros como longas perdas de tempo, muitas vezes realizados em hotéis de prestígio, com coffee-breaks e apertos de mão que, para si, se tornaram símbolo de um ritual que se repete sem produzir mudança real.

​É esse acumular de expectativas não cumpridas, ao longo de mais de vinte anos, que o levou a deixar de participar neste tipo de auscultação — incluindo a reunião de sexta-feira, 24 de julho, em Santa Maria.

As problemáticas que continua a apontar

​Apesar de já não comparecer às reuniões, o empresário fez questão de enviar à nossa redação a lista de problemas que, no seu entender, continuam por resolver:

  • Assédio de vendedores ambulantes sem licença;
  • Ausência de fiscalização a quem opera sem autorização;
  • Tarifas de táxi aplicadas de forma abusiva conforme a nacionalidade do turista;
  • Cães vadios em grupo em Santa Maria;
  • Apenas uma farmácia a servir uma zona que recebe quase um milhão de visitantes por ano;
  • Ausência de um centro de saúde ou hospital com resposta 24 horas;
  • Perturbação de turistas por parte de indivíduos já identificados;
  • Filas superiores a uma hora nos controlos de chegada do aeroporto do Sal por falta de pessoal;
  • Burocracia frequentemente justificada com a expressão “ka tem sistema”;
  • Estradas degradadas no centro de Santa Maria;
  • Cortes recorrentes de água e luz que afetam sobretudo pequenos operadores de alojamento complementar;
  • Custos e prazos excessivos no despacho aduaneiro de mercadorias;
  • Limitação de transportes eficientes para outras ilhas.

O que já tínhamos noticiado sobre a reunião de sexta-feira

​Na nossa cobertura de 24 de julho, relatámos que os operadores presentes na reunião de Santa Maria elencaram, por sua vez, uma lista muito semelhante:

  • ​Mau estado das vias urbanas;
  • ​Falta de fiscalização generalizada;
  • ​Incómodo causado por vendedores ambulantes;
  • ​Lentidão no licenciamento — incluindo o bloqueio na emissão de licenças para pick-ups turísticos;
  • ​Falta de formação técnica em áreas de apoio ao turismo;
  • Custos alfandegários elevados na importação de peças de reposição;
  • ​Ausência de planos de gestão para áreas protegidas como a Vila da Murdeira e a Baía Parda;
  • ​Dificuldade em desocupar imóveis ocupados de forma abusiva.

​O Instituto do Turismo de Cabo Verde (ITCV) confirmou, em nota, que o secretário de Estado se comprometeu a trabalhar na resolução destes problemas.

As mesmas queixas, dos dois lados

​Comparando os dois relatos, há uma coincidência notável: fiscalização insuficiente, vendedores ambulantes, licenciamento lento e custos alfandegários aparecem tanto na voz de quem esteve presente na reunião como na de quem, cansado, decidiu não voltar a participar.

​A diferença está no tom: quem foi ao encontro apostou em apresentar propostas mais uma vez; quem faltou considera que o exercício, repetido desde os anos 2000 e ao longo de vários governos, deixou de justificar o tempo investido.

O que ficou prometido desta vez

​No final do encontro de sexta-feira, José Pimenta Lima afirmou que o executivo vai “pôr tudo sobre a mesa” para distinguir o que pode ser resolvido a curto prazo do que exige mais análise, e sublinhou que “o que estamos a prometer é trabalho”.

​Reiterou ainda que o objetivo é garantir que os benefícios do turismo cheguem de forma mais abrangente à população, com referência a educação, saúde, transportes e habitação.

​Como primeira medida concreta, anunciou que a ministra da Família estará no Sal na próxima semana para um trabalho dirigido à infância, na sequência de preocupações levantadas durante o encontro.

Entre o cansaço e a nova promessa

Duas décadas de reuniões, governos de diferentes sinais políticos e uma lista de problemas que, no essencial, continua igual: é este o retrato que o testemunho recebido pela nossa redação traça do relacionamento entre parte do setor turístico do Sal e as sucessivas tutelas do turismo.

​O desafio para o atual executivo é convencer quem, como este empresário, já deixou de acreditar que mais uma ronda de coffee-breaks e apertos de mão traga, desta vez, resultados diferentes.

Nota editorial

Este artigo reproduz o testemunho enviado à nossa redação, mantido no anonimato a pedido da fonte, através do projeto “Colabore connosco”. As afirmações sobre décadas de reuniões sem resultados refletem a perceção pessoal do empresário e não foram, nesta fase, verificadas ponto a ponto pela nossa redação. O artigo cruza este testemunho com a nossa própria cobertura do encontro de 24 de julho em Santa Maria.

Recordamos que…

o encontro de sexta-feira em Santa Maria fez parte de uma ronda de contactos do secretário de Estado do Turismo que incluiu também uma reunião com empresas e instituições no dia anterior, 23 de julho, destinada a apresentar a nova tutela do setor e reforçar a articulação institucional na ilha do Sal.

Caboverde24.info

Fonte: Testemunho enviado à redação através do projeto “Colabore connosco” e cobertura própria da caboverde24.info sobre o encontro de 24 de julho de 2026

Imagem: Produção IA

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