“Analisámos alguns dos casos mais curiosos — e descobrimos quem pagou as viagens.”
Em 30 segundos
- ✈️ Algumas reportagens estrangeiras sobre Cabo Verde nasceram de viagens realizadas a convite de companhias aéreas, hotéis ou entidades de promoção turística.
- 🏝️ O próprio Instituto do Turismo organizou este ano uma viagem para jornalistas e influenciadores destinada a gerar conteúdos sobre São Vicente e Santo Antão.
- 📰 Público, Sábado, SAPO, Volta ao Mundo e Travel Magazine estavam entre os meios associados à iniciativa.
- ⚖️ Uma publicação portuguesa voltou agora a questionar a fronteira entre jornalismo independente e promoção.
- 🔎 Uma viagem oferecida não significa uma reportagem comprada. Mas saber quem financiou a deslocação ajuda o leitor a avaliar aquilo que está lendo.
Uma pequena frase que muda a leitura
Quem encontra num grande jornal estrangeiro uma reportagem entusiasmante sobre Cabo Verde provavelmente presta atenção às praias, às montanhas, à gastronomia ou às experiências descritas pelo jornalista.
Mas, às vezes, existe uma pequena informação no final do texto que conta outra parte da história:
“O jornalista viajou a convite de…”
Pode ser uma companhia aérea, um hotel, um operador turístico ou uma entidade pública responsável pela promoção do destino.
É uma prática comum no jornalismo de viagens: as chamadas press trips, organizadas para que jornalistas conheçam um destino, uma nova rota aérea, um hotel ou determinada oferta turística.
Não significa automaticamente que a reportagem seja paga ou que tenha perdido a independência.
Mas levanta uma pergunta legítima: até que ponto uma experiência financiada e organizada por quem pretende promover um destino pode influenciar aquilo que depois chega ao leitor?
O caso de Cabo Verde que reacendeu a discussão
A questão voltou a ser levantada em Portugal pelo ContraProva, numa publicação de 29 de agosto dedicada à relação entre conteúdos jornalísticos e interesses comerciais.
Um dos exemplos analisados envolve diretamente Cabo Verde.
Trata-se de uma reportagem do suplemento Fugas, do jornal Público, sobre Praia, Cidade Velha e Tarrafal, intitulada “A ilha de Santiago em três paragens fundamentais”.
No final, o próprio jornal informa que a viagem aconteceu a convite da TAP e do Instituto do Turismo de Cabo Verde.
Isso não prova que TAP ou Instituto do Turismo tenham interferido no trabalho do Público. Também não encontramos qualquer evidência de que o jornal ou os jornalistas tenham recebido dinheiro para escrever favoravelmente sobre Cabo Verde.
Mas existe um facto objetivo: entidades interessadas na promoção e na chegada de visitantes a Cabo Verde proporcionaram a viagem que deu origem à reportagem.
E não é o único exemplo
O mesmo ContraProva já tinha chamado a atenção, em junho, para outra reportagem do Público sobre a ilha de Santiago.
Nesse caso, o jornal esclarecia que o jornalista tinha viajado a convite do grupo hoteleiro Oásis Atlântico.
Encontramos outros exemplos fora do Público.
Uma reportagem sobre a abertura das ligações da easyJet para Cabo Verde informou que o jornalista tinha viajado a convite da própria companhia aérea.
Também existem reportagens internacionais sobre hotéis e resorts cabo-verdianos nas quais os meios de comunicação declaram que a deslocação foi proporcionada pelos grupos turísticos envolvidos.
Nada disso permite concluir automaticamente que os textos deixaram de ser independentes.
Mostra, porém, como promoção turística e produção jornalística podem encontrar-se na mesma viagem.
O próprio Instituto do Turismo explica o objetivo
Um dos elementos mais interessantes está numa iniciativa divulgada este ano pelo próprio Instituto do Turismo de Cabo Verde.
Em maio, foi organizada, em parceria com a easyJet e operadores locais, uma press trip para São Vicente e Santo Antão com a participação de nove jornalistas e influenciadores portugueses.
Entre os meios mencionados estavam Público, Sábado, Travel Magazine, Volta ao Mundo e SAPO.
O itinerário foi concebido para mostrar aos participantes diferentes experiências, paisagens e componentes da oferta turística das duas ilhas.
E o objetivo não foi escondido.
Segundo a informação divulgada sobre a iniciativa, as experiências deveriam servir de base à produção de conteúdos editoriais e promocionais destinados a aumentar a visibilidade de Cabo Verde no mercado português.
Estamos, portanto, perante uma estratégia assumida de promoção turística.
Jornalistas e influenciadores na mesma viagem
Há um detalhe particularmente curioso: jornalistas e influenciadores participaram da mesma iniciativa.
Para quem promove um destino, a lógica é simples. Ambos podem mostrar Cabo Verde a milhares de potenciais visitantes.
Mas jornalismo e influência comercial não funcionam necessariamente segundo as mesmas regras.
Um influenciador pode estabelecer uma parceria para promover um destino ou produto, devendo identificar adequadamente a natureza comercial quando ela existe.
De um jornalista espera-se independência editorial em relação às entidades sobre as quais escreve.
É aqui que surge a zona cinzenta.
Quem organiza uma viagem nem sequer precisa dizer ao jornalista o que deve escrever para influenciar parte da experiência. A escolha do itinerário, dos hotéis, dos restaurantes, das atividades e das pessoas que serão apresentadas já determina boa parte daquilo que o visitante terá oportunidade de conhecer.
Isso não significa manipulação. É simplesmente uma característica das viagens organizadas.
Então essas reportagens são independentes ou não?
Não encontramos elementos que permitam afirmar que as reportagens analisadas tenham sido compradas ou editorialmente controladas pelas entidades que financiaram ou proporcionaram as viagens.
E esta distinção é fundamental.
Viagem paga não é sinónimo de reportagem paga.
Um jornalista pode aceitar uma deslocação e continuar inteiramente livre para escrever aquilo que observou, incluindo aspectos negativos.
Para afirmar que determinada reportagem não foi independente seria necessário demonstrar interferência editorial, condicionamento, pagamento pelo conteúdo ou outro elemento que vá além do financiamento da viagem.
Nos casos que analisámos, não encontramos essa prova.
O que encontramos são relações que o leitor tem interesse legítimo em conhecer.
A transparência faz a diferença
É precisamente por isso que a frase “o jornalista viajou a convite de…” é importante.
Quando o órgão de comunicação revela quem proporcionou a deslocação, permite ao leitor avaliar o contexto em que aquela reportagem foi produzida.
A situação é diferente quando existe publicidade ou conteúdo patrocinado propriamente dito. Nesses casos, a natureza comercial deve ser claramente identificada.
As press trips encontram-se numa área mais delicada: a entidade pode financiar ou organizar a experiência, enquanto o resultado continua sendo apresentado como conteúdo jornalístico independente.
É essa fronteira que a discussão atualmente levantada em Portugal coloca novamente sob os holofotes.
Cabo Verde também ganha
Existe, naturalmente, outro lado.
Para Cabo Verde, conseguir reportagens em grandes meios estrangeiros pode valer muito.
Um artigo sobre Santo Antão, São Vicente ou Santiago coloca destinos cabo-verdianos diante de milhares de potenciais visitantes sem necessariamente recorrer à publicidade tradicional.
Companhias aéreas ganham potenciais passageiros. Hotéis e restaurantes ganham exposição. Cabo Verde ganha promoção internacional.
E os meios de comunicação conseguem realizar reportagens cujo custo poderia dificultar ou mesmo impedir a viagem se tivesse de ser suportado integralmente pelas redações.
Há benefícios para todas as partes.
A questão não é, portanto, demonizar as viagens de imprensa.
É perceber se o leitor sabe suficientemente bem como aquela reportagem chegou até ele.
Da próxima vez, leia a última linha
Da próxima vez que encontrar num jornal estrangeiro uma reportagem deslumbrante sobre as montanhas de Santo Antão, as praias do Sal ou as ruas do Mindelo, talvez valha a pena chegar até ao fim.
Pode encontrar uma pequena frase:
“O jornalista viajou a convite de…”
Ela não invalida a reportagem.
Não significa que aquilo que acabou de ler seja falso.
E não prova que alguém tenha comprado a opinião do jornalista.
Mas revela uma informação importante sobre as circunstâncias em que aquela história foi produzida.
Promover Cabo Verde no estrangeiro é legítimo e importante. Fazer jornalismo independente sobre Cabo Verde também.
A questão começa quando promoção e jornalismo viajam no mesmo avião.
Caboverde24.info
Fontes: ContraProva — Aliança das Carteiras

























