Cabo Verde está entre os países com a água mais cara de África: o paradoxo de um arquipélago rodeado de oceano

“As tarifas de água em Cabo Verde são muito superiores à média africana — e a explicação começa no diesel importado e termina na fatura mensal das famílias”

Um arquipélago cercado de água que não pode beber

Cabo Verde é um conjunto de ilhas no meio do Atlântico. Em todas as direções, há oceano. No entanto, a água potável é um bem escasso, caro e, em muitas comunidades, de acesso difícil. Não existem rios permanentes. As chuvas são raras e irregulares. Os aquíferos subterrâneos, onde existem, correm riscos crescentes de esgotamento.

​A solução tecnológica disponível há décadas é a dessalinização — transformar a água do mar em água potável. Mas esta solução tem um preço que coloca Cabo Verde numa posição singular em todo o continente africano.

O que dizem os números

​Em estudos comparativos sobre tarifas de água em África, o Banco Mundial identificou a ELECTRA de Cabo Verde como um caso claramente atípico, sendo tratado como outlier estatístico com tarifas muito superiores às do restante continente. O paper do Banco Mundial identifica tarifas acima de três dólares por metro cúbico para um consumo doméstico de dez metros cúbicos mensais — quando a média africana para o mesmo consumo é de apenas $0,49 por metro cúbico, descendo para $0,43 se Cabo Verde for excluído do cálculo. A dessalinização é apontada como a razão direta para este valor excecional.

​Estes valores resultam de um estudo do Banco Mundial publicado em 2010, com base em dados recolhidos entre 2006 e 2007. Não existem garantias de que os rácios se tenham invertido desde então — a estrutura energética do país, assente em combustíveis fósseis importados, mantém-se como elemento determinante do custo da água.

​Para tornar estes números concretos: a média africana de referência equivale a cerca de 47 ECV por metro cúbico (≈ €0,43). Em Cabo Verde, as tarifas domésticas praticadas pela ELECTRA têm-se situado, em anos recentes, em intervalos da ordem dos 270 a mais de 500 ECV por metro cúbico, consoante o escalão de consumo e a ilha. No segmento turístico e hoteleiro, a tarifa de referência sobe para cerca de 545 ECV/m³ (≈ €4,95).

​Os valores em escudos são baseados no tarifário da ELECTRA segundo tabelas ARME de referência, podendo ser atualizados em deliberações posteriores da reguladora.

A cadeia que explica tudo: diesel → energia → água

​O FMI identificou o nó energia-água-clima como o desafio central de desenvolvimento para Cabo Verde: um país da zona árida do Sahel que combate a escassez hídrica através de uma dessalinização intensiva em energia, produzida em grande parte por centrais que dependem inteiramente de combustíveis fósseis importados. Os elevados preços da energia impactam diretamente o custo de produção da água.

​A lógica é direta: sem chuva nem rios, a água tem de ser extraída do mar. Extrair água do mar consome muita eletricidade. A eletricidade em Cabo Verde é produzida sobretudo a partir de diesel importado. O diesel importado é caro. Logo, a água é cara. A esta equação somam-se os custos de manutenção das infraestruturas, as perdas na rede de distribuição, o transporte para as zonas mais remotas e a amortização dos equipamentos — fatores que tornam o custo real do sistema público muito superior ao custo de produção isolado.

​A dessalinização já responde pela esmagadora maioria — estimada em cerca de 80 a 90% — da água potável produzida no país. E porque é muito intensiva em energia, a água acaba por não ser acessível para todos, especialmente nas zonas rurais e nas ilhas menos servidas.

O que acontece nas comunidades mais vulneráveis

​Se as tarifas oficiais já são elevadas, nas zonas rurais a situação agrava-se. Numa aldeia típica de São Vicente, com pouco mais de mil habitantes, a população depende frequentemente de dois tipos de abastecimento: água transportada por caminhão desde a cidade — cara, com risco de contaminação e disponibilidade limitada — ou água salobra extraída de poços locais, imprópria para consumo direto e com risco de esgotamento progressivo do aquífero.

​Este cenário não é uma exceção. Repete-se em várias ilhas e comunidades do arquipélago, onde o acesso à água potável de qualidade continua a ser um desafio quotidiano para muitas famílias.

A solução existe — mas não é simples de escalar

​O paradoxo aprofunda-se quando se olha para os recursos que Cabo Verde tem em abundância: sol e oceano. A dessalinização movida a energia solar é uma tecnologia madura, já em funcionamento em algumas unidades no arquipélago, sobretudo em projetos privados de menor escala.

​Os resorts em Cabo Verde que adotaram sistemas de dessalinização solar encontraram nesta tecnologia uma forma de reduzir os custos operacionais de água e ganhar independência face às importações. A abundância de radiação solar ao longo do ano torna esta solução particularmente atrativa.

​Tecnologias modernas de dessalinização solar, segundo estimativas de fornecedores especializados, podem atingir custos próximos de 55 ECV/m³ (≈ €0,50) em condições ideais e à escala de projetos privados. Trata-se, porém, de estimativas de mercado — não de tarifas reguladas. Os custos reais do sistema público são muito superiores, porque incluem energia produzida ainda maioritariamente a partir de combustíveis fósseis, perdas técnicas na rede, logística de distribuição entre as ilhas e amortização de infraestruturas. Escalar estas soluções ao nível nacional implica investimentos estruturais que vão muito além da tecnologia de dessalinização em si.

O que o Estado está a fazer

​O governo cabo-verdiano tem projetos em curso para integrar as energias renováveis nos sistemas de dessalinização. Reduzir o consumo de energia na produção de água é identificado como um dos principais desafios da dessalinização no país, tendo sido tema central de um Seminário Nacional de Dessalinização realizado na Praia, onde o administrador executivo da Electra reconheceu publicamente a dimensão do problema.

​Em 2025, a ARME anunciou uma redução significativa das tarifas de eletricidade, com impacto também nos custos internos de produção de água, que registaram diminuições relevantes. É um passo positivo, mas insuficiente para alterar a equação de fundo.

​Resolver o problem estrutural pode exigir uma reestruturação profunda da Electra, uma transição acelerada para as energias renováveis e a mobilização de investidores privados para o setor.

A pergunta que fica em aberto

​Cabo Verde tem sol em abundância ao longo de praticamente todo o ano. Tem oceano em todas as direções. Tem tecnologia disponível no mercado e exemplos de dessalinização solar já a funcionar no arquipélago. Tem um setor turístico em crescimento que precisa de água a preços competitivos. E tem uma economia que cresceu 7,2% em 2024 e 5,2% em 2025, com reservas internacionais em torno de mil milhões de euros.

​A questão que este conjunto de factos coloca é legítima: com recursos naturais, crescimento económico e tecnologia disponível, o que falta para que Cabo Verde deixe de estar entre os países com a água mais cara de África?

​A resposta exige vontade política, investimento estruturado na transição energética e uma visão que trate a água não como uma tarifa a gerir, mas como um direito a garantir a todos os cabo-verdianos — nas cidades, nas aldeias e nas ilhas mais remotas.

Recordamos que…

O debate sobre a sustentabilidade e os custos da água potável acompanha o desenvolvimento de Cabo Verde desde a instalação das primeiras unidades de dessalinização por expansão térmica e osmose inversa. Com as tarifas reguladas pela ARME a fixarem patamares elevados para acomodar o preço do combustível importado pela ELECTRA, o desafio hídrico nacional permanece no centro das atenções governamentais e das instituições financeiras internacionais nesta temporada de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: Banco Mundial – Cost Recovery, Equity and Efficiency in Water Tariffs in Africa

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