“Mulheres asseguram mais de dois terços do trabalho não pago em Cabo Verde”
O valor invisível que sustenta as famílias
O trabalho não remunerado realizado em Cabo Verde — tarefas domésticas, cuidados a crianças e idosos, e outras atividades sem contrapartida financeira — tem um valor anual estimado em 247 milhões de euros, o equivalente a cerca de 9,6% do Produto Interno Bruto (PIB) cabo-verdiano.
Os dados constam do relatório “Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado — Cabo Verde, 2024”, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em parceria com o Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG).
O estudo, baseado no Inquérito Multiobjectivo Contínuo de 2024, atribui um valor monetário a atividades que raramente entram nas contas oficiais da economia, mas que sustentam o funcionamento diário das famílias em todo o arquipélago.
Um peso desigual entre homens e mulheres
Dos 247 milhões de euros estimados, cerca de 166,6 milhões correspondem ao trabalho assegurado por mulheres e 80,5 milhões ao realizado por homens — uma diferença de mais do dobro. O cálculo tomou como referência o salário mínimo então em vigor no setor privado, cerca de 136 euros mensais.
Segundo o relatório, 78,1% da população com 10 ou mais anos participa nalguma forma de trabalho não remunerado. Entre as mulheres, a percentagem sobe para 88,4%, contra 67,9% entre os homens. Em termos de tempo, as mulheres dedicam em média 22h42 semanais a estas tarefas, contra 14 horas dos homens — uma diferença de 8h42 por semana.
Onde o desequilíbrio é mais visível
A disparidade acentua-se em áreas específicas. Nos trabalhos domésticos participam 85,7% das mulheres e 62,3% dos homens. Na preparação de refeições, a participação feminina (72,6%) é mais do dobro da masculina (35%).
Já nos cuidados a crianças, idosos e pessoas dependentes, participam 36,7% das mulheres, contra 15,2% dos homens. O relatório nota ainda que o desequilíbrio começa cedo: entre os 10 e os 14 anos, as raparigas já dedicam mais tempo a estas tarefas do que os rapazes.
Quem é o ICIEG?
O Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG) é a entidade pública encarregada de promover a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres em Cabo Verde.
A instituição atua na conceção, execução e avaliação das políticas públicas relativas à perspetiva de género, combatendo a violência doméstica e promovendo a autonomia económica e social das mulheres no arquipélago.
A sobrecarga das mulheres que também trabalham fora de casa
O estudo mostra que a sobrecarga se mantém mesmo entre as mulheres com emprego remunerado, que acumulam trabalho profissional, tarefas domésticas e cuidados. Entre quem exerce simultaneamente trabalho remunerado e não remunerado, as mulheres chegam a uma carga média de 71h09 por semana.
Ainda que o tempo global dedicado a estas atividades tenha diminuído desde 2012 e a participação masculina tenha aumentado ligeiramente, o relatório conclui que essa redução não foi acompanhada por uma redistribuição equilibrada das responsabilidades entre homens e mulheres.
Recomendações do estudo
O INE e o ICIEG defendem o reforço de creches, centros de dia e serviços de apoio às famílias, um maior equilíbrio nas licenças parentais entre pais e mães, e a valorização económica do trabalho de cuidado, que consideram essencial para o funcionamento da sociedade cabo-verdiana.
Nota editorial
Os valores em euros apresentados resultam da conversão dos montantes calculados em escudos cabo-verdianos com base no salário mínimo em vigor no setor privado à data do estudo.
Recordamos que…
o relatório “Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado — Cabo Verde, 2024” foi divulgado pelo INE e pelo ICIEG e mede, pela primeira vez desde 2012, o peso económico do trabalho doméstico e de cuidados não pago no país.
Caboverde24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (INE) e Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG)





























