“As duas empresas estudam uma ligação entre Lisboa e São Paulo apoiada na infraestrutura internacional cabo-verdiana. Ainda não existe acordo definitivo, mas o projeto testa uma ambição maior: transformar a posição de Cabo Verde no Atlântico num negócio de interconexão entre três continentes.”
Em 30 segundos
🌍 Cabo Verde Telecom e DE-CIX assinaram uma carta de intenções para estudar um corredor digital entre Lisboa e São Paulo.
🇨🇻 A infraestrutura cabo-verdiana poderá ganhar relevância na ligação entre Europa, África Ocidental e América Latina.
🌐 Cabo Verde já está ligado aos sistemas submarinos WACS, EllaLink e SHARE.
⚠️ O projeto ainda não tem acordo definitivo, condições comerciais fechadas ou data para entrar em funcionamento.
Uma nova ambição no meio do Atlântico
Cabo Verde pode dar um novo passo na tentativa de transformar a sua posição geográfica numa vantagem económica no setor digital.
A Cabo Verde Telecom (CVTelecom) e a DE-CIX, operador internacional de pontos de troca de tráfego de Internet, anunciaram esta terça-feira, 29 de setembro, a assinatura de uma carta de intenções para explorar um novo corredor de interconexão no Atlântico Sul.
A ligação em estudo terá Lisboa e São Paulo como extremos, mas a dimensão do projeto é maior: aproximar redes da Europa do Sul, África Ocidental e América Latina através de rotas mais diversificadas.
O anúncio surge precisamente no início do Atlantic Convergence 2026, encontro internacional dedicado às infraestruturas digitais que decorre em Lisboa entre 29 de setembro e 1 de outubro e no qual a CVTelecom está presente.
O que está realmente em cima da mesa
No modelo em estudo, a CVTelecom pretende disponibilizar capacidade de transporte entre Lisboa e São Paulo.
Em contrapartida, a DE-CIX prevê proporcionar à empresa cabo-verdiana acesso aos seus serviços e ecossistemas de interconexão em Frankfurt, Madrid, Marselha, Nova Iorque e São Paulo.
Para operadores de telecomunicações, fornecedores de Internet, empresas de cloud e grandes plataformas digitais, rotas alternativas podem aumentar a redundância e a resiliência das comunicações e reduzir a dependência de centros tradicionais no Norte da Europa e na América do Norte.
Para Cabo Verde, porém, existe uma questão económica ainda mais interessante: conseguir que parte desse tráfego internacional encontre vantagem em passar, interligar-se ou instalar serviços no arquipélago.
Três cabos mudaram o ponto de partida
Cabo Verde sempre teve uma localização privilegiada no Atlântico. Isso, por si só, nunca foi suficiente para criar um hub digital.
O que mudou foi a infraestrutura.
O país está atualmente ligado aos sistemas internacionais de cabos submarinos WACS, EllaLink e SHARE, criando diferentes caminhos de conectividade com o exterior.
O EllaLink tem particular relevância porque liga diretamente Europa e América Latina através do Atlântico.
A CVTelecom dispõe igualmente de infraestrutura internacional e de um centro de dados carrier-neutral.
A combinação destes ativos permite colocar uma questão que há poucos anos teria outra dimensão: em vez de perguntar apenas como garantir melhores ligações internacionais a Cabo Verde, começa a fazer sentido perguntar que papel Cabo Verde pode desempenhar na Internet utilizada por outros países e empresas.
Ter cabos não significa ter um hub
Esta distinção é essencial.
Os cabos submarinos oferecem capacidade e conectividade. Não criam automaticamente um mercado internacional de dados.
Para Cabo Verde se tornar efetivamente um ponto de interconexão, operadores, plataformas digitais, fornecedores de cloud e redes internacionais terão de encontrar vantagens concretas em utilizar o arquipélago.
Preço da conectividade, estabilidade energética, segurança, enquadramento regulatório, capacidade dos centros de dados, qualidade técnica e facilidade de instalação de equipamentos tornam-se tão importantes quanto a própria geografia.
Existe ainda um efeito de escala: quanto mais redes estiverem presentes num determinado ponto, maior tende a ser o interesse de outras redes em chegar ao mesmo local.
É neste contexto que uma aproximação a um operador internacional de interconexão como a DE-CIX ganha importância.
Lisboa de um lado, São Paulo do outro
Lisboa vem reforçando o seu papel como ponto europeu de chegada e interconexão para redes provenientes de África e da América Latina.
São Paulo, no outro extremo, é um dos principais centros digitais latino-americanos.
Colocar a infraestrutura cabo-verdiana dentro de um corredor entre estes ecossistemas dá conteúdo mais concreto a uma expressão utilizada há vários anos no país: “Cabo Verde, hub digital no Atlântico”.
Mas entre a ambição e um negócio efetivamente operacional ainda existe uma distância considerável.
O corredor ainda não existe
É a principal ressalva desta notícia.
CVTelecom e DE-CIX não anunciaram um corredor já contratado ou em funcionamento.
O documento assinado é uma carta de intenções e não tem caráter vinculativo.
O desenho técnico final, as condições comerciais e os compromissos de cada empresa ainda terão de ser negociados e incluídos num eventual acordo definitivo.
Também não foi anunciada qualquer data para o início da operação.
Seria, portanto, prematuro apresentar Cabo Verde como um novo grande centro internacional de dados.
O que aconteceu agora é diferente, mas relevante: duas empresas começaram formalmente a estudar como transformar essa possibilidade num serviço comercial.
Da infraestrutura ao negócio
É precisamente aqui que começa a parte mais importante para Cabo Verde.
Nos últimos anos, o país acumulou infraestrutura e procurou posicionar-se internacionalmente como plataforma digital atlântica. A nova iniciativa sugere uma tentativa de passar à etapa seguinte: atrair redes, clientes e tráfego capazes de transformar essa infraestrutura em atividade económica.
Se o projeto avançar, haverá perguntas que merecem acompanhamento.
Quanto será investido? Que infraestrutura adicional ficará instalada em Cabo Verde? Quais operadores utilizarão o corredor? Haverá empresas internacionais a instalar equipamentos ou serviços no país? Que receitas serão geradas? Poderão surgir empregos tecnológicos qualificados? E, sobretudo, quanto do valor criado ficará efetivamente na economia cabo-verdiana?
São estas respostas — e não apenas o número de cabos que chegam às ilhas — que permitirão avaliar se a expressão “hub digital” começa a transformar-se numa realidade económica.
O verdadeiro teste começa agora
Cabo Verde possui uma vantagem que nenhum investimento consegue fabricar: a localização.
Nos últimos anos acrescentou outra: ligações submarinas a diferentes mercados internacionais.
Agora chega a etapa mais difícil: transformar geografia e infraestrutura em procura comercial.
A carta de intenções entre CVTelecom e DE-CIX ainda não garante que isso acontecerá.
Mas introduz uma mudança importante na discussão.
O desafio já não é apenas conseguir que a Internet chegue a Cabo Verde.
É conseguir que a economia digital internacional encontre razões para passar por Cabo Verde — e deixar valor no país.
Caboverde24.info
Fonte: DE-CIX; Cabo Verde Telecom; Atlantic Convergence 2026.



























