Cabo Verde une-se a quatro países da África Ocidental para proteger os recursos marinhos

“A organização Blue Ventures reúne pela primeira vez parceiros do Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Gana num fórum regional histórico realizado em Saly, no Senegal.”

Uma crise que não respeita fronteiras

“Os oceanos da África Ocidental estão sob pressão crescente. A sobrepesca, as alterações climáticas e a perda de biodiversidade ameaçam diretamente a segurança alimentar e os meios de vida de milhões de pessoas que vivem ao longo da costa atlântica. Perante esta realidade, cinco países — Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Gana — decidiram unir forças numa iniciativa regional sem precedentes.”

O ponto de encontro em Saly

​O ponto de encontro foi Saly, no Senegal, onde se realizou o primeiro Fórum Regional de Parceiros da organização britânica Blue Ventures. O objetivo: estruturar uma plataforma de cooperação coordenada para regenerar os recursos marinhos e reforçar a gestão comunitária das pescas em toda a sub-região.

Blue Ventures: uma abordagem diferente

​A Blue Ventures distingue-se de outras organizações ambientais pela sua metodologia participativa, que coloca as comunidades locais no centro de todas as decisões. Em vez de impor soluções técnicas externas, a organização parte das necessidades reais das populações.

“Não é uma organização que pergunta o que vão fazer. Ela pergunta o que vocês querem exatamente, quais são as vossas necessidades”, explicou Abdou Karim Sall, presidente dos comités de gestão das Áreas Marinhas Protegidas do Senegal. “Acompanha-nos no plano técnico e apoia a população.”

​Esta filosofia de base comunitária tem produzido resultados concretos em vários países participantes, incluindo a proibição da produção de farinha e óleo de peixe na Guiné-Bissau — uma medida de enorme impacto para a segurança alimentar local — e o reforço da recolha de dados pelas próprias comunidades no Senegal.

“Os peixes não têm fronteiras”

​A dimensão regional do fórum tem uma lógica biológica inegável. Os stocks de peixe migram entre países, ignorando fronteiras políticas e económicas. A gestão isolada de cada Estado torna-se, por isso, ineficaz.

“Os peixes não têm fronteiras. Há pessoas que criaram fronteiras, mas para nós os recursos não as têm. Cabe-nos agora, enquanto atores da sub-região acompanhados pela Blue Ventures, gerir os nossos recursos”, afirmou Abdou Karim Sall.

​A diretora regional da Blue Ventures para a África Ocidental, Nono Prudence Wanko, reforçou esta visão com uma imagem marítima: “Quando se vai ao mar, não se pode ir sozinho. É só juntos que podemos cumprir esta missão.”

O que está em jogo para Cabo Verde

Para Cabo Verde, a participação nesta coligação regional é estratégica. O arquipélago depende diretamente do oceano — tanto para a alimentação das comunidades locais como para a economia do turismo e das pescas artesanais. A degradação dos ecossistemas marinhos representa, por isso, uma ameaça existencial para ilhas como São Nicolau, Santo Antão ou Santiago, onde a pesca artesanal ainda sustenta famílias inteiras.

​A integração de Cabo Verde nesta rede permite também aceder a apoio técnico e financeiro da Blue Ventures para a criação ou reforço de áreas marinhas protegidas, bem como à partilha de boas práticas com países vizinhos.

Um horizonte internacional: o IMPAC6 em Dakar

​O fórum de Saly serve também de preparação para um evento de escala mundial. Em março de 2027, Dakar vai acolher o IMPAC6 — o sexto Congresso Mundial sobre Áreas Marinhas Protegidas —, uma primeira histórica para o continente africano. A coligação construída pela Blue Ventures pretende apresentar resultados concretos e influenciar as políticas globais de conservação marinha a partir das experiências da África Ocidental.

Quem é a Blue Ventures?

​A Blue Ventures é uma organização não governamental britânica fundada em 2003, especializada na conservação dos oceanos tropicais através da gestão comunitária. Atua em mais de 15 países de África e da Ásia, com foco nas comunidades costeiras mais vulneráveis. O seu modelo baseia-se na parceria direta com pescadores, mulheres transformadoras de peixe e líderes locais, combinando conservação ambiental com desenvolvimento económico.

We recall that...

A sobre-exploração dos recursos pesqueiros no Atlântico oriental tem sido documentada há décadas, com stock após stock a colapsar devido à pesca industrial — muitas vezes de frotas estrangeiras — e à ausência de mecanismos regionais eficazes de gestão. A iniciativa da Blue Ventures em maio de 2026 representa uma das primeiras tentativas organizadas de criar uma resposta coletiva de base comunitária nesta sub-região.

Caboverde24.info

Fonte: Le Quotidien (Senegal), maio de 2026

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