O peixe fresco em Cabo Verde chega mal à mesa — e as consequências não faltam

“Entre o momento em que o peixe sai da água e o momento em que chega ao prato, passa por mãos, superfícies e condições que nenhuma norma sanitária aprovaria.”

Uma investigação pedida pelos leitores

​Este artigo nasce de uma preocupação partilhada. Nas últimas semanas, vários leitores e consumidores contactaram a redação do caboverde24.info para alertar para algo que vivem no dia a dia: o peixe fresco que compram não chega até eles em condições adequadas. As queixas são diversas — qualidade duvidosa, manipulação precária, ausência de frio — mas convergem todas no mesmo ponto: entre o mar e a mesa, algo falha. E falha de forma sistemática.

​A redação decidiu investigar. O que encontrou não surpreende quem conhece a realidade cabo-verdiana. Mas merece ser dito com clareza.

O problema começa em terra

​Em Cabo Verde, o peixe existe. As águas do arquipélago são ricas, e a pesca artesanal abastece diariamente os mercados das ilhas. O problema não está no mar. Está no que acontece depois — no trajeto que o pescado percorre desde o desembarque até chegar à mesa do consumidor.

​É um trajeto curto em distância. Mas longo em riscos.

Cenas que todos reconhecemos

​Quantos de nós já não viram atum recém-pescado, ainda a sangrar, transportado numa carroça enferrujada pelas ruas da cidade? Quantas vezes já assistimos à cena em que animais se aproximam descontraidamente do peixe acabado de lavar e de seccionar, enquanto ninguém parece notar? E quantos são os fornecedores que param no meio da rua para negociar a venda de peixe ao quilo, passando de mão em mão pedaços do pescado sem qualquer cuidado higiénico?

​São cenas do quotidiano cabo-verdiano. Tão comuns que já ninguém as questiona. E é precisamente essa normalização que representa o maior obstáculo à mudança.

Da embarcação ao mercado: sem frio, sem higiene

​Logo após o desembarque, o peixe entra num circuito informal onde as condições sanitárias são, na maior parte dos casos, inadequadas. É transportado em caixas sem refrigeração, exposto ao sol e ao calor, manipulado sem luvas, pousado em superfícies não higienizadas.

​O porto de pesca da Praia e o mercado de peixe do Mindelo carecem de armazenamento refrigerado operacional, provocando condições sanitárias inadequadas que ficam aquém dos padrões de segurança alimentar.

​Uma vez desembarcadas, as capturas mudam frequentemente de mãos várias vezes antes de chegar aos mercados locais. Como a procura parece exceder a oferta, há pouco incentivo para os pescadores ou comerciantes investirem em refrigeração, porque conseguem vender as suas capturas facilmente. O mercado absorve tudo. E essa facilidade de venda elimina qualquer pressão para melhorar as condições.

O que acontece ao peixe quando a temperatura sobe

​O peixe é um dos alimentos mais perecíveis que existem. A deterioração começa imediatamente após a captura e acelera com o calor. Em Cabo Verde, onde as temperaturas raramente descem dos 25ºC, cada hora sem refrigeração é uma hora de multiplicação bacteriana.

Matriz de risos na cadeia de distribuição do pescado

A histamina merece atenção especial. Forma-se naturalmente em peixes como o atum, a cavala e o chicharro quando não são refrigerados a tempo. Não tem cheiro, não tem sabor, e não desaparece com a cozedura. Provoca uma intoxicação que imita uma reação alérgica grave — rubor, urticária, dor de cabeça intensa, dificuldade respiratória. E é silenciosa: o peixe parece fresco, cheira bem, mas já está comprometido.

As doenças que ninguém contabiliza

​Diarreia aguda, vómitos, febre, hepatite A, intoxicações alimentares. São doenças comuns em Cabo Verde, tratadas frequentemente em casa ou nos centros de saúde sem que exista um registo sistemático que as associe à origem alimentar.

​A hepatite A transmite-se por via fecal-oral — ou seja, por contato com alimentos manipulados por pessoas que não lavaram as mãos adequadamente. O peixe manipulado na rua, em cima de uma caixa, passando de mão em mão, é um veículo clássico desta e de outras infeções.

​O mesmo se aplica às gastrenterites provocadas por Staphylococcus aureus — bactéria presente na pele e nas mucosas humanas, que contamina o alimento por contato direto. Ou por E. coli, cuja presença em alimentos manipulados sem água corrente e sem higienização é uma realidade documentada em contextos sanitários semelhantes ao cabo-verdiano.

​O problema não é apenas individual. É sistémico: sem dados, sem rastreabilidade, sem fiscalização efetiva, é impossível saber quantos casos de doença em Cabo Verde têm origem no peixe mal conservado ou mal manipulado. Simplesmente, ninguém conta.

As ilhas do interior: o elo mais fraco

​O problema agrava-se nas ilhas sem porto de pesca ativo ou sem ligação marítima regular. No Fogo, na Brava ou em São Nicolau, o peixe fresco que chega já fez um percurso adicional — de barco, sem garantia de cadeia de frio — antes de entrar no circuito local de distribuição. O que chega, chega já comprometido. E ainda assim é vendido, comprado e consumido.

​Uma cadeia de frio e armazenamento robustos minimizariam a perda de produtos, manteriam a qualidade e garantiriam o cumprimento dos padrões de segurança alimentar exigidos pelo turismo e pelos mercados internacionais. Não é uma questão de luxo. É uma questão de saúde pública básica.

O que seria necessário

​A solução não passa por uma única medida. Passa por uma cadeia de intervenções coordenadas: infraestrutura de frio nos portos e nos mercados municipais, formação obrigatória dos manipuladores de pescado em higiene alimentar, fiscalização efetiva das condições de transporte e venda, equipamento adequado — caixas isotérmicas, veículos refrigerados — e sistemas de rastreabilidade que permitam identificar a origem de um problema sanitário quando ele ocorre.

​Nenhum destes elementos é novo. Todos estão previstos em documentos de estratégia do setor das pescas. O que falta, como tantas vezes em Cabo Verde, é a passagem da intenção à execução.

We recall that...

Em abril de 2024, o Governo de Cabo Verde aprovou uma estratégia orientadora para o setor das pescas. A ENAPOR reativou, em 2025, a plataforma de frio do Mindelo. Mas entre o porto e o prato do consumidor, a cadeia continua a falhar — e os riscos para a saúde pública continuam a não ser medidos nem discutidos nesta metade do ano de 2026, mantendo-se a precaridade no manuseamento informal nas ruas e mercados municipais do país.

Caboverde24.info

Fonte: Inquérito da redação / Literatura científica sobre segurança alimentar e conservação de pescado

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