As crianças de Cabo Verde crescem com ecrã na mão — e o preço será alto

“A conectividade digital avança depressa em Cabo Verde. O hábito da leitura, não. E as consequências para o desenvolvimento das gerações mais novas começam a tornar-se visíveis.”

Um país cada vez mais conectado — desde muito cedo

​Em 2025, 78,2% dos indivíduos cabo-verdianos com idade igual ou superior a 10 anos possuíam pelo menos um telemóvel. E o ritmo é acelerado: em 2024, cerca de 68,7% dos agregados familiares tinham já acesso à internet em casa — uma subida de 10 pontos percentuais em apenas um ano.

​Esta expansão tem consequências positivas. Mas levanta uma questão que raramente entra no debate público: o que acontece quando o telemóvel chega às mãos de uma criança antes do livro?

Os efeitos já são mensuráveis — e preocupantes

​A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda zero tempo de ecrã antes dos dois anos de idade e menos de uma hora por dia a partir dessa idade. Apesar destas recomendações, muitas crianças em todo o mundo excedem largamente estes limites.

​Vários estudos associam o tempo prolongado em frente a ecrãs — especialmente com conteúdos de ritmo acelerado como redes sociais ou videojogos — a uma redução da capacidade de atenção das crianças, que passam a ter maior dificuldade em concentrar-se em tarefas menos estimulantes, como a leitura ou os trabalhos escolares.

​Os primeiros anos são os mais críticos. Uma revisão de 158 estudos publicados entre 2007 e 2024 concluiu que o uso excessivo de ecrãs na primeira infância aumenta o risco de atrasos no desenvolvimento da linguagem, da atenção e da aprendizagem — e que os efeitos negativos tendem a superar os positivos.

​Há ainda o chamado “défice de vídeo”: crianças pequenas aprendem menos bem através de meios digitais do que através de interações na vida real, e este efeito pode persistir até à idade escolar.

Uma base educativa já fragilizada

​Na área de linguagem, 6 em cada 10 crianças cabo-verdianas demonstraram grande dificuldade ou incapacidade de interpretar as regras básicas de funcionamento da língua. Na área de matemática, apenas 2,85% obteve sucesso nos principais assuntos avaliados.

​Com uma base de aprendizagem já fragilizada, a exposição precoce e desregulada aos ecrãs funciona como um acelerador do problema.

O telemóvel não é o inimigo. A ausência de mediação adulta, sim

​Especialistas sublinham que falta consciência, nos próprios adultos, sobre os limites recomendados de uso de ecrãs — e que a hiperconectividade dos pais contribui para uma transmissão involuntária de hábitos digitais às crianças desde muito cedo.

​Em Cabo Verde, onde os agregados familiares são frequentemente numerosos e os adultos trabalham longas horas, o telemóvel tornou-se uma ferramenta de gestão doméstica: entretém, acalma, ocupa. Faltam alternativas. Falta orientação. E falta, sobretudo, debate.

Políticas públicas: o que falta fazer

​O governo de Cabo Verde assumiu compromissos até 2030 para garantir a todas as crianças acesso a uma educação de qualidade, com ênfase em saúde, proteção social e novas tecnologias. São objetivos importantes. Mas o tema do tempo de ecrã está ausente da agenda pública.

​Outros países já avançaram com medidas concretas: Portugal e França aprovaram orientações específicas para uso de dispositivos nas escolas; o Reino Unido publicou recomendações nacionais para famílias com crianças até cinco anos. Medidas simples como campanhas de sensibilização nos centros de saúde, orientações integradas nas consultas de pediatria, ou módulos de literacia digital para pais nos programas escolares existentes — seriam um ponto de partida realista para Cabo Verde.

A expansão digital está a acontecer mais depressa do que a capacidade de resposta das instituições. E o tempo de agir é agora.

Uma questão de futuro

​Uma geração que cresce sem hábitos de leitura, com défice de atenção e dependência de estímulos visuais rápidos, enfrentará dificuldades reais no mercado de trabalho, na participação cívica e no pensamento crítico.

​O telemóvel chegou. O livro, em muitos lares cabo-verdianos, ainda não chegou de verdade.

We recall that...

Cabo Verde não dispõe ainda de um sistema nacional abrangente de medição dos resultados de aprendizagem — o que torna ainda mais difícil quantificar o impacto real da exposição precoce aos ecrãs no desempenho escolar das crianças. O crescimento acelerado do acesso à internet doméstica para 68,7% neste ano de 2026 realça a urgência de uma mediação institucional que proteja as competências cognitivas e de linguagem das gerações mais jovens no arquipélago.

Caboverde24.info

Fonte: INE Cabo Verde — Inquérito Multiobjetivo Contínuo 2024/2025

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