O calor mata na Europa: mais de 1.300 mortes em excesso numa semana, segundo a OMS

“Cento e cinquenta milhões de pessoas ainda expostas ao calor extremo no continente que se aquece mais rapidamente no planeta”

Uma semana de tragédia silenciosa

​Mais de 1.300 mortes em excesso foram registadas na Europa desde 21 de junho, diretamente ligadas às altas temperaturas, enquanto 150 milhões de pessoas se encontram ainda sob severas ondas de calor extremo. O dado foi oficialmente avançado pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, que emitiu um alerta urgente e advertiu com gravidade: a Europa “é o continente que se está a aquecer mais rapidamente na Terra, com um aquecimento duplo em relação à média global”.

​A OMS não declarou uma emergência sanitária formal — a chamada Public Health Emergency of International Concern —, mas emitiu alertas operacionais de alto nível, contendo recomendações urgentes dirigidas aos 53 países da sua Região Europeia, advertindo que as temperaturas recorde estão a colocar milhares de vidas em risco e a exercer uma pressão extrema sobre todos os sistemas de saúde.

Recordes históricos em vários países

​O verão de 2026 não tinha ainda começado há um dia completo quando já se contavam mortos no terreno. Em torno ao solstício, uma onda de calor excecionalmente precoce e intensa atingiu a Europa Ocidental com temperaturas médias de 14 a 18 °C acima da média habitual para os finais do mês de junho.

​A França viveu o seu dia mais quente alguma vez registado na história, com uma temperatura média nacional fixada nos 30 °C, tendo os termómetros de mercúrio chegado aos 43,8 °C na cidade de Pulluau, localidade situada no oeste do país. A Suíça bateu igualmente o seu recorde absoluto para o mês de junho, registado pelo terceiro dia consecutivo nas estações.

​Uma complexa combinação de fatores climáticos extremos — a incursão de uma massa de ar quente proveniente do Norte de África, a presença de um poderoso anticiclone e os efeitos sistémicos do fenómeno El Niño — criou uma densa zona de calor concentrada na França, mas com temperaturas a atingir a barreira dos 40 °C em mais de uma dúzia de países europeus em simultâneo.

O “assassino silencioso” e as vítimas mais vulneráveis

​As faixas da população mais vulneráveis a este fenómeno são os cidadãos idosos com mais de 65 anos de idade, cuja capacidade de termorregulação é fisiologicamente reduzida, os bebés, as grávidas, os indivíduos que sofrem de doenças cardíacas, respiratórias ou renais crónicas, e todos os trabalhadores que exercem funções ao ar livre — como é o caso dos operários da construção civil e dos agricultores.

​Com base num modelo estatístico avançado desenvolvido pela prestigiada London School of Hygiene & Tropical Medicine — que relaciona diretamente temperaturas diárias e mortalidade em 854 cidades europeias —, a revista The Economist estima que entre os dias 24 e 26 de junho o calor extremo poderá ter provocado até 12.000 mortes em excesso em toda a Europa. Trata-se de uma projeção modelada, e não de uma contagem oficial de corpos. Paris surge no modelo como a cidade com maior risco estimado, apresentando um aumento da mortalidade de mais de 300%, seguida de Londres com 200%, Milão com 170% e Roma com 100%.

Uma emergência que se repete cada vez mais depressa

​Os dados consolidados pela OMS são de facto alarmantes: entre os anos de 2017 e 2021, as mortes registadas por golpe de calor entre os maiores de 65 anos de idade aumentaram cerca de 85% em relação ao período compreendido entre 2000 e 2004. Segundo uma compilação alargada de vários estudos científicos de referência, o calor terá provocado mais de 200.000 mortes na Região Europeia nos últimos quatro anos — um grande número que deve ser lido estritamente como resultado de várias metodologias de investigação associadas, e não propriamente como uma cifra oficial consolidada por uma única fonte institucional.

​O relatório de 2026 do prestigiado Lancet Countdown sobre saúde e alterações climáticas na Europa, assinado por 65 especialistas integrados em 46 instituições de topo, quantifica com total precisão a escalada: na última década compreendida entre 2015 e 2024, a exposição a fortes ondas de calor aumentou 254% em relação à década anterior. Nas 823 regiões europeias minuciosamente examinadas, a mortalidade atribuível ao calor extremo registou um aumento médio anual de 52 mortes por milhão de habitantes. O fenómeno das ondas de calor, que antes se manifestava apenas “uma vez em cada geração”, ocorre agora quase anualmente nas regiões. “Tinham-nos avisado”, comentou de forma assertiva o diretor-geral da OMS.

O que significa isto para Cabo Verde e para a África Ocidental

​Este grave drama europeu não é, de todo, alheio à realidade de Cabo Verde. As perdas económicas associadas ao impacto do calor extremo serão proporcionalmente muito mais elevadas na região da África Ocidental, local onde as projeções apontam que poderão atingir 4,8% do PIB anual — posicionando-se substancialmente acima das projeções macroeconómicas traçadas para a generalidade dos países do continente europeu.

Cabo Verde, como pequeno estado insular, habituou-se ao longo da sua história a navegar com prudência entre a fragilidade e a resiliência e vive hoje o claro paradoxo da crise climática global: assume-se como um dos países que menos contribui para o fenómeno do aquecimento global e, em simultâneo, surge como um dos primeiros a sentir os seus impactos mais severos no terreno. A nossa vasta diáspora cabo-verdiana, fortemente concentrada em países como Portugal, França, Itália e Países Baixos — que figuram entre os territórios mais fustigados por esta vaga —, está a viver em primeira pessoa uma emergência de saúde que os cientistas já não consideram excecional, mas sim estrutural.

A resposta da OMS e os planos de ação

​Em plena onda de calor no continente, a OMS Europa publicou a segunda edição do seu guia prático sobre planos de saúde para o calor, um importante documento operativo que tenta transformar quase vinte anos de robusta evidência científica em ações concretas para governos, cidades e serviços médicos de emergência. O grande objetivo publicamente declarado pelo diretor do escritório europeu resume-se numa frase ambiciosa: “zero mortes por calor”. Um objetivo de governação que, à luz dos trágicos dados registados esta semana, permanece ainda muito distante da realidade das populações.

Nota Editorial:

O valor de 1.300 mortes em excesso constitui um dado preliminar avançado pela OMS, não estando ainda consolidado nas estatísticas finais. As 12.000 mortes estimadas pela revista The Economist referem-se estritamente a uma projeção estatística baseada no modelo Masselot (London School of Hygiene & Tropical Medicine), e não a uma contagem oficial. Os 200.000 óbitos registados nos últimos quatro anos resultam de uma compilação de estudos científicos europeus, e não de um único relatório oficial unificado.

We recall that...

Desde o dia 21 de junho de 2026, uma onda de calor de proporções históricas atingiu as regiões da Europa Ocidental, Central e do Sul, registando temperaturas extremas entre 14 a 18 °C acima da média sazonal habitual. A OMS avançou com uma estimativa preliminar de mais de 1.300 mortes em excesso, emitiu alertas operacionais de cariz urgente e publicou novas recomendações sanitárias para os 53 países que integram a sua Região Europeia, marcando a atualidade internacional e climática deste mês de junho de 2026.

Caboverde24.info

Fonte: The Economist Foto: Stephane Mahe/Reuters

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