“Na reportagem da televisão pública, as memórias de quem o conhecia de perto revelam uma história de generosidade, escola e ligação às comunidades que vai muito além do acidente de Campanas de Cima.”
Em 30 segundos
🚌 O filho de Henrique Cardoso, conhecido por Djidjino, recorda o pai e a relação que mantinha com as crianças e jovens que transportava.
🎒 Liliana Correia, antiga passageira, conta que, quando uma família não conseguia pagar o transporte escolar, Djidjino levava o aluno na mesma.
🌋 O passeio a Chã das Caldeiras fazia parte de uma tradição anual que marcou gerações de estudantes.
A tragédia de Campanas de Cima ficou inevitavelmente associada à imagem do autocarro no fundo da encosta e às 25 vidas perdidas. Uma reportagem da Rádio Televisão Cabo-verdiana mostra agora outra imagem: a do homem que estava ao volante.
Henrique Cardoso, conhecido por Djidjino, é recordado através de dois testemunhos particularmente próximos: o do filho e o de Liliana Correia, que começou a viajar com ele quando frequentava o sétimo ano.
As duas histórias ajudam a perceber por que a perda do motorista foi sentida muito para além da sua família.
A grande reportagem da televisão pública cabo-verdiana reúne relatos íntimos e comoventes sobre a figura de Henrique Cardoso e os instantes que marcaram a comunidade.
Um registo que documenta a memória e o impacto humano deixados pelo condutor junto de várias gerações nas zonas altas da ilha do Fogo.
O filho recorda um pai sempre disponível
Na entrevista, o filho de Henrique Cardoso fala com emoção e contenção sobre o pai, descrevendo um homem disponível para ajudar quem o procurava e profundamente ligado às crianças que transportava.
Durante anos, Djidjino acompanhou diariamente estudantes das zonas altas do Fogo, criando uma relação próxima com jovens e famílias que ia muito além do percurso entre casa e escola.
Depois da tragédia, as manifestações de carinho e reconhecimento dirigidas à família mostraram também a dimensão dessa relação construída ao longo do tempo.
“Se não tinha, não pagava”
É no depoimento de Liliana Correia que surge talvez a memória que melhor ajuda a compreender o lugar ocupado por Djidjino na comunidade.
Quando algumas famílias não tinham dinheiro para pagar o transporte escolar, conta a antiga passageira, os filhos não ficavam para trás.
Djidjino levava-os na mesma.
Um gesto aparentemente simples, mas com consequências muito concretas. Para jovens de comunidades onde a distância tornava mais difícil chegar diariamente à escola, ter transporte podia fazer a diferença na continuidade dos estudos.
Liliana viu essa realidade de perto. Recorda uma geração que estudou, cresceu, entrou no mercado de trabalho e, em vários casos, seguiu depois outros caminhos, incluindo a emigração para Portugal e Estados Unidos.
O passeio que os alunos esperavam
A ligação de Djidjino aos estudantes não terminava no percurso entre casa e escola.
Liliana recorda também o passeio anual a Chã das Caldeiras, uma iniciativa aguardada pelos jovens e associada à passagem de classe.
Era um momento de festa e reconhecimento.
No sábado, 5 de setembro, foi precisamente no regresso de uma dessas viagens que tudo mudou.
O autocarro despistou-se na zona de Campanas de Cima, no município de Santa Catarina do Fogo. Vinte e cinco pessoas perderam a vida, entre elas Henrique Cardoso e vários jovens. As circunstâncias que estiveram na origem do acidente continuam a ser investigadas.
A imagem que ficou
Durante a reportagem, Liliana Correia não consegue conter as lágrimas ao recordar o autocarro no fundo da encosta.
Há ainda outro sofrimento nas suas palavras: não ter conseguido despedir-se de Djidjino como gostaria.
É uma memória pessoal, mas que ajuda a compreender um sentimento partilhado por muitas pessoas das comunidades que ele serviu.
A reportagem da televisão pública acrescenta assim algo que os números da tragédia não conseguem mostrar. Antes de se tornar o motorista associado a um dos acidentes mais dolorosos da história recente de Cabo Verde, Henrique Cardoso foi, durante anos, o homem que chegava para levar crianças à escola.
E, segundo quem viajou com ele, quando faltava dinheiro, a viagem continuava.
Caboverde24.info
Fonte: RTC — Rádio Televisão Cabo-verdiana



























