“A mensagem chegou numa noite normal no Mindelo: ‘N kre papia ku bo sobri un kusa importante.’ Pensei que fosse engano. Depois ela escreveu o nome do meu marido e uma frase que me deixou parada diante do telefone: ‘El ê nha pai.’”
Há mensagens que chegam tarde.
E há outras que chegam quando a única pessoa capaz de explicar o que aconteceu já não está cá.
A história desta semana chega-nos do Mindelo.
Chamaremos Lúcia à nossa leitora. O marido morreu há três anos. Foram casados durante mais de duas décadas, tiveram filhos e construíram uma vida juntos.
Lúcia pensava conhecer o homem com quem tinha partilhado tantos anos.
Até receber uma mensagem de uma desconhecida.
“N kre papia ku bo”
“Era à noite e eu estava em casa quando vi uma mensagem de um número que não conhecia:
‘N kre papia ku bo sobri un kusa importante.’ Quero falar contigo sobre uma coisa importante. Não respondi logo. Não conhecia o número nem a fotografia.
Perguntei quem era.
Ela demorou alguns minutos. Quando o telefone voltou a tocar, apareceu o nome completo do meu marido.
Perguntei:
‘Como conhecias o meu marido?’
A resposta foi curta:
‘El ê nha pai.’
Ele é o meu pai.
Li aquilo várias vezes.
Depois escrevi apenas:
‘Modê?’
Como?”
“Pensei que fosse mentira”
“A minha primeira reação foi pensar que alguém estava a tentar enganar-me.
O meu marido morreu há três anos. Não podia confirmar nem negar nada.
Perguntei-lhe diretamente o que queria de mim.
Ela respondeu que não queria dinheiro. Não queria tirar nada a ninguém.
Queria apenas saber mais sobre o homem que dizia ser seu pai.
Foi aí que comecei a ficar inquieta.”
Lúcia continuou a conversa.
Perguntou a idade da jovem.
Depois perguntou o nome da mãe.
E a história mudou.
Lúcia conhecia aquele nome
“A mãe dela não era uma desconhecida para mim.
Eu sabia quem era.
Nunca fomos amigas e não tínhamos qualquer relação próxima.
Mas conhecia o nome.
Quando ela me disse a idade, comecei a fazer contas.
E pensei:
‘Ka pode ser…’
Não pode ser.”
Lúcia prefere não revelar mais pormenores para proteger todas as pessoas envolvidas.
As datas apontavam para um período da vida do marido sobre o qual, olhando agora para trás, percebe que sabia menos do que imaginava.
Perguntou à jovem se tinha alguma coisa que pudesse sustentar aquilo que estava a dizer.
Chegaram fotografias.
E informações sobre o passado.
Algumas poderiam ter sido obtidas através de outras pessoas.
Outras eram mais difíceis de explicar.
Até aparecer uma fotografia que Lúcia nunca tinha visto.
“Reconheci a camisa”
“O meu marido estava muito mais novo.
Não havia nada comprometedor na fotografia. Estava vestido normalmente.
Mas reconheci uma camisa.
Pode parecer ridículo, mas eu lembrava-me daquela camisa.”
E com ela vieram outras memórias.
O perfume que ele usava quando eram mais novos.
A maneira como se preparava antes de sair.
As vezes em que se aproximava por trás e lhe beijava o pescoço enquanto ela fingia estar zangada.
“Há coisas de uma pessoa que o tempo não apaga.
Olhei para aquela fotografia e, durante alguns segundos, quase consegui sentir novamente o cheiro dele.”
A fotografia não provava que aquela jovem fosse filha do marido.
Mas já não era tão fácil dizer a si própria que tudo não passava de uma invenção.
“Comecei a investigar um homem que já morreu”
“Nessa noite quase não dormi.
Comecei a pensar em viagens, ausências, noites em que chegou mais tarde.
Tentei lembrar-me de datas.
Depois parei.
Senti que estava a pegar em mais de vinte anos da nossa vida e a transformá-los numa investigação.”
Havia outra dificuldade.
Lúcia não conseguia perceber com segurança quando teria existido uma relação entre o marido e a mãe da jovem.
Antes do casamento?
Durante?
Durante quanto tempo?
“Quanto mais pensava, mais perguntas apareciam.
E todas tinham o mesmo problema.
A única pessoa a quem eu queria fazê-las já não podia responder.
Naquela noite só pensava:
‘Pamodê bo ka fla-m?’
Por que não me contaste?”
Nos dias seguintes, Lúcia continuou a falar com a jovem.
Até receber a pergunta que mudou novamente a história.
“Bu ten irmon?”
Tens irmãos?
“Fiquei a olhar para o telefone.
Até aí eu estava a pensar em mim.
No meu marido.
Na mãe daquela jovem.
No que poderia ter acontecido entre eles.
Naquele momento percebi que havia outra coisa.
Os meus filhos.”
A jovem queria saber se tinha irmãos.
Lúcia não respondeu imediatamente.
Porque os filhos não sabiam de nada.
“Eles adoravam o pai”
“Os meus filhos sofreram muito quando o pai morreu.
Ainda falamos dele.
Temos fotografias em casa.
Contamos histórias.
Às vezes lembramo-nos de alguma coisa que ele fazia e rimos todos.”
É essa memória que Lúcia tem medo de alterar.
Mas existe agora uma possibilidade que também não consegue ignorar:
se a história for verdadeira, os seus filhos podem ter uma irmã.
E essa possível irmã sabe que eles existem.
“Não quero tirar o lugar de ninguém”
Dias depois, a jovem voltou a escrever.
Disse que não queria tirar o lugar de ninguém.
Não queria entrar naquela família para exigir fosse o que fosse.
“N só kre konxê nha irmons.”
Só quero conhecer os meus irmãos.
“Foi aí que chorei.
Até então estava zangada, desconfiada, confusa.
Mas naquele momento deixei de ver apenas uma mulher desconhecida no telefone.
Pensei numa filha que talvez tenha crescido sabendo quem era o pai, mas sem poder fazer parte da vida dele.”
Lúcia não sabe exatamente que relação existiu entre os dois.
Não sabe o que o marido sabia, disse ou prometeu.
Nem sequer sabe ainda se tudo o que lhe foi contado é verdade.
Mas uma pergunta começou a persegui-la:
Se for verdade, quem sou eu para decidir que os meus filhos nunca devem saber?
“Enterrei o meu marido. Agora estou a descobrir outra parte dele”
“A parte mais difícil não é imaginar que ele possa ter estado com outra mulher.
É não poder perguntar-lhe.”
Lúcia diz que não quer transformar todo o casamento numa mentira por causa de algo que acabou de descobrir.
“Eu sei como ele me olhava.
Sei como dormíamos juntos, como discutíamos e como fazíamos as pazes.
Sei como foi comigo quando os nossos filhos nasceram.
Eu vivi isso.
Foi real.
N ka podê fingi ma kel vida ka existi.
Não posso fingir que aquela vida não existiu.”
Mas talvez outra realidade também tenha existido.
“Durante três anos tentei aprender a viver com a ausência do meu marido.
Agora estou a tentar compreender uma parte da vida dele que talvez nunca tenha conhecido.”
A última mensagem
Lúcia ainda não contou nada aos filhos.
Também não fechou a porta à jovem.
Disse-lhe apenas que precisava de tempo e que queria primeiro perceber se aquilo que lhe estava a contar podia ser confirmado.
A jovem aceitou esperar.
Depois escreveu uma última frase:
“N só kre sabê undê N ta pertensê.”
Só quero saber onde pertenço.
“Foi essa mensagem que me fez escrever para vocês.
Porque comecei a pensar que talvez eu esteja a dizer que quero proteger os meus filhos quando, no fundo, também estou a tentar proteger a imagem que eu própria tenho do meu marido.”
E então escreveu a pergunta que resume todo o dilema:
“Se eu contar aos meus filhos, posso mudar para sempre a memória que têm do pai. Se não contar, e ela for realmente filha dele, estou a esconder-lhes uma irmã. O que devo fazer?”
Resposta da Direção
Cara Lúcia,
Antes de decidir o que contar aos seus filhos, existe uma questão que deve tentar esclarecer:
esta jovem é realmente filha do seu marido?
Fotografias, nomes, datas e memórias podem tornar uma história convincente. Não bastam, porém, para estabelecer uma filiação.
Procurar uma confirmação não significa rejeitar esta jovem. Significa evitar que uma revelação desta dimensão seja feita com base numa história que ainda contém dúvidas.
Também aconselhamos prudência ao reconstruir o passado.
A eventual existência de uma filha não permite concluir, por si só, quando começou a relação com a mãe dela, quanto tempo durou ou quais eram as circunstâncias.
Algumas respostas poderão ter desaparecido com ele.
Mas, se a filiação for confirmada, o dilema muda.
Já não estaremos apenas perante um segredo do seu casamento.
Existirá uma mulher com uma história própria e filhos seus que poderão ter uma irmã que nunca conheceram.
Contar-lhes poderá mudar a forma como olham para o pai. Mas conhecer uma verdade sobre alguém não apaga necessariamente tudo aquilo que viveram com essa pessoa.
Talvez não lhe caiba decidir se os seus filhos devem aceitar, rejeitar ou construir uma relação com essa possível irmã.
Essa decisão será deles.
A sua poderá ser outra:
procurar primeiro a verdade possível e, se ela se confirmar, decidir se está preparada para deixar de a carregar sozinha.
E você, o que faria?
Procuraria primeiro confirmar a filiação antes de dizer alguma coisa aos filhos?
E, se não restassem dúvidas, contaria?
Preservar a memória de um pai justifica esconder dos filhos a existência de uma irmã — ou conhecer essa verdade também lhes pertence?
Entre Nós existe para dar espaço às histórias que muitas vezes permanecem fechadas dentro das famílias.
Se vive ou viveu um dilema amoroso, familiar, financeiro, íntimo ou pessoal, escreva para a redação do Caboverde24.info e conte-nos a sua história.
A sua identidade será preservada. Se a história for selecionada para uma próxima edição de Entre Nós, nomes e outros elementos que possam identificar as pessoas envolvidas serão omitidos ou alterados.
A sua história pode ser a próxima. E aquilo que hoje guarda em silêncio pode ser uma experiência que outras pessoas também estão a tentar compreender.
Cape Verde 24.info
Fonte: Testemunho de leitora — Entre Nós / Caboverde24.info


































2 Responses
ESTA HISTORIA ME FAZ LEMBRAR DECADA DE 80 QUE ERA UMA DECADA DE OURO. NAO HAVIA POBREZA E NEM BANDITIMOS. ERA TRALHO DURANTE SEMANA E FESTAS AOS FINS DE SEMANAS. ERAMOS UMA MEIA DUZIA DE JOVENS DE ACHADA EUGENIO LIMA HABITUADOS DE UM RESTAURANTE DE ACHADA SANTO ANTONIO. OS PRATOS DAQUELA RESTAURANTE NOS FAZ AGUA CAIR DA BOCA. NAO À NADA NO MUNDO EM QUE NOS IMPEDE DE PASSAR PARA EQUELA CASA QUE TORNOU A NOSSA CASA. NA VERDADE ESTAVAMOS TODOS AMOROSOS DE BELITA. BELITA ERA UM JOVEM DE 21 ANOS DA CIDADE VELHA QUE TRABALHA NEQUELA CASA. ELA ERA A MULHER MAIS BELA DE CABO VERDE. DANIEL TAMBEM AMAVA BELITA. MAS DANIEL ACHAVA QUE ELE TINHA POUCA CHANCE. ELE ERA UM JOVEM CASADO. MAS UM HOMEM CASADO PODE AMAR. MAS PARA UM HOMEM CASADO DECLARAR O SEU AMOR EXIGE MUITA ASTUCIA. E DANIEL NAO TEM ASTUCIA. FOI BELITA QUE NUMA TARDE DE UM SABADO SEM VENTO AU SERVIR-NOS GAROUPA DA ILHA DO MAIO CUJO PREÇO JOVENS DE ACHADA SANTO ANTONIO NAO PODE PAGAR. NA VERDADE JOVENS DE ACHADA SANTO ANTAO ERAM FOBADOS. ELES NAO TINHAM RAISES FIXADOS NO INTERIOR DE SANTIAGO COMO JOVENS DE ACHADA EUGENIO LIMA. BELITA NOS CORTOU O APETITE AO ANUNCIAR QUE ELA AMOROSA DE DANIEL. QUE DANIEL NAO ERA ATRAENTE. MAS QUE NO DANIEL HABITA A SERENIDADE DO SEU FALECIDO PAI ROGERIO. ROGERIO ERA PAI DO DANIEL. PEDIMOS ELA PARA NOS CONTAR A HISTORIA DO SEU PAI. ELA NOS CONTOU. É COMO A HISTORIA QUE DANIEL NOS CONTOU QUANDO TOMAMOS CONHECIMENTO DA MORTE DE ROGERIO E QUE DANIEL ERA FILHO DO ROGERIO. DANIEL ERA FOTO DO ROGERIO. A MULHER COM QUE ROGERIO CASOU NUNCA TINHA HOUVIDO FALAR DE DANIEL. MAS NO DIA DO ENTERRO DO ROGERIO QUE DANIEL ESTAVA PRESENTE A MULHER DO ROGERIO ACEITOU DANIEL COMO IRMAO DOS SEUS FILHOS SEM PRECISAR DE ESPLICAÇOES. ELA TAMBEM ESTAVA NO ENTERRO DO PAI. E FOI O DANIEL QUE ADMITIO QUE ELES SAO IRMAOS. E FOI AINDA O DANIEL QUE APRESENTOU A BELITA AO MEHER DO ROGERIO. E A MULHER DO ROGERIO ACEITOU COMO TINHA ACEITADO DANIEL LEMBRANDO DAQUELA FILHA AO LADO DO CAIXAO DO SEU AMADO MARIDO. É ASSIM QUE A HISTORIA DOS FILHOS DO CELEBRE ROGERIO NAO É TORNADO PUBLICO. NA VERDADE A VIDA DO ROGERIO ERA DO CONHECIMENTO PUBLICO. QUEM NAO CONHECE A VIDA DO CELEBRE ROGERIO É A SUA MULHER E OS SEUS FILHOS. QUE ELE ESCONDEU POR AMOR E MEDO.
Caro Marcelino,
gostamos do seu comentário, portanto gostaríamos que nos enviasse uma proposta texto contando factos da sua vida que possamos publicar na rubrica Entre Nós.
Pode enviar para o e-mail info@caboverde24.info.
Seja bem-vindo.
Caboverde24.info