Universidade fala num número “nunca antes visto” no início de 2026/2027. O aumento confirma o impacto imediato da gratuitidade, mas coloca outra questão: docentes, instalações, alojamento e financiamento conseguirão acompanhar uma procura maior?
Em 30 segundos
🎓 A Universidade de Cabo Verde está perto de 2.000 estudantes matriculados neste arranque do ano letivo e relaciona o aumento com a gratuitidade das propinas.
🏫 O Campus do Palmarejo Grande foi projetado para 4.890 estudantes, mas esse número não deve ser comparado apenas com as quase 2.000 matrículas agora anunciadas: a Uni-CV já tinha mais de 4.000 estudantes no conjunto da instituição em 2020.
👩🏫 A capacidade depende também de docentes, laboratórios, serviços académicos, alojamento e distribuição dos alunos pelos diferentes cursos e polos.
💰 Há ainda uma mudança financeira importante: segundo a reitora, 64,2% do orçamento de funcionamento da Uni-CV dependia das propinas, cabendo agora ao Estado assumir o encargo dos estudantes abrangidos pela gratuitidade.
Quase 2.000 matrículas num arranque diferente
Quase 2.000 matrículas num arranque diferente
A Universidade de Cabo Verde iniciou o ano letivo 2026/2027 com um nível de procura que a própria instituição classifica como “nunca antes visto”.
A pró-reitora para os Estudantes, Cultura Universitária e Vida Académica, Elvira dos Reis, revelou esta quarta-feira, 7 de outubro, que a universidade está “bem próxima de dois mil estudantes matriculados, em todos os polos”.
A responsável relacionou diretamente a afluência com a gratuitidade das propinas, considerando que a medida representa uma resposta importante para famílias para as quais esse custo constituía uma barreira ao acesso ao ensino superior.
É um primeiro sinal concreto do impacto da mudança introduzida este ano.
Mas o crescimento coloca também uma questão que só poderá ser respondida à medida que surgirem mais dados: tem a universidade capacidade humana, física e financeira para acompanhar uma procura significativamente maior?
Os 2.000 não são o total de estudantes da Uni-CV
Este é um ponto essencial para interpretar corretamente os números.
Os “quase dois mil” anunciados nesta quarta-feira não correspondem à população total da Universidade de Cabo Verde.
A informação divulgada refere-se às matrículas registadas neste arranque do ano letivo nos diferentes polos, mas não apresenta uma discriminação entre novos ingressos, renovações de matrícula, cursos ou unidades académicas.
Também não foi divulgado um número comparável para o mesmo período do ano letivo 2025/2026.
Sem essa base, ainda não é possível calcular com rigor a dimensão percentual do aumento provocado pela gratuitidade.
Há, porém, uma referência importante: em 2020, quando foi anunciada a conclusão do Campus do Palmarejo Grande, a Uni-CV contava já com mais de 4.000 estudantes nos seus diferentes polos.
Isso significa que os quase 2.000 agora anunciados não podem ser simplesmente colocados ao lado da capacidade física do campus para concluir que existe uma grande margem disponível.
Na Praia, o espaço existe, mas a margem depende do total de estudantes
O Campus do Palmarejo Grande é uma das maiores infraestruturas educativas do país.
O projeto foi dimensionado para acolher 4.890 estudantes e 476 docentes.
Dispõe de 61 salas de aula, cinco auditórios com 150 lugares cada, 34 laboratórios, salas de informática e leitura, biblioteca, refeitórios, espaços desportivos e outras estruturas académicas e administrativas.
São números expressivos.
Mas a capacidade de 4.890 estudantes deve ser comparada com o conjunto de alunos que efetivamente utiliza o campus — e não apenas com as matrículas agora anunciadas.
Uma universidade pode, além disso, ter capacidade global disponível e enfrentar pressão em determinados cursos, horários, salas ou laboratórios.
Por isso, para avaliar a situação real será necessário conhecer quantos estudantes terá a Uni-CV em 2026/2027 e como estarão distribuídos pela Praia e pelos restantes polos e unidades académicas.
Até ao momento, não existem dados públicos que permitam afirmar que o campus esteja sobrelotado. Também não existem elementos suficientes para concluir que o aumento possa ser absorvido sem qualquer pressão adicional.
A capacidade não termina na porta da sala de aula
O segundo indicador é o corpo docente.
Um levantamento institucional relativo ao ano académico 2023/2024 contabilizava 519 docentes na Uni-CV, dos quais 216 a tempo inteiro e 303 a tempo parcial.
O número oferece uma referência, mas não responde sozinho à questão da capacidade.
O impacto depende da distribuição dos professores pelas áreas científicas, do número de estudantes por turma, das cargas letivas e, sobretudo, dos cursos onde a procura mais aumentou.
Se a gratuitidade provocar um crescimento sustentado do número de estudantes, será importante perceber se haverá necessidade de reforçar a contratação de docentes e outros profissionais.
415 lugares para alojamento na Praia
Há ainda uma dimensão que não aparece diretamente nas estatísticas de matrícula.
A residência universitária do Campus do Palmarejo Grande tem lotação para 415 estudantes.
Para jovens provenientes de outros concelhos ou ilhas, a gratuitidade elimina a propina, mas não elimina despesas com alojamento, alimentação e transporte.
A própria reportagem da Inforpress dá um exemplo concreto.
João Borges, recém-ingressado em Engenharia de Construção Civil e oriundo de São Miguel, indicou que os custos diários de deslocação rondam 700 escudos.
A redução de uma das maiores despesas universitárias pode, portanto, abrir a porta a mais estudantes sem eliminar todos os obstáculos económicos à frequência do ensino superior.
A universidade muda também de modelo financeiro
O crescimento ocorre simultaneamente com uma alteração profunda na forma de financiamento da Uni-CV.
Em setembro, a reitora Astrigilda Silveira revelou que 64,2% do orçamento de funcionamento da universidade dependia das propinas, enquanto o Estado assegurava 32%.
A responsável classificou a gratuitidade como um “alívio” para a instituição e esclareceu que, estando os estudantes abrangidos isentos do pagamento, caberá ao Estado assumir esse encargo.
É uma mudança relevante.
Se o número de estudantes crescer, a discussão deixará de ser apenas sobre quantos jovens conseguem entrar na universidade e passará também por saber se o financiamento público acompanhará o aumento das necessidades da instituição.
Mais estudantes significam potencialmente mais turmas, maior utilização das instalações e dos serviços, maior procura de apoios sociais e, em determinadas áreas, necessidade de mais docentes.
Depois do acesso vem o teste da permanência
O primeiro efeito da gratuitidade parece estar a surgir rapidamente: mais procura.
Mas o sucesso da medida não poderá ser avaliado apenas pelas matrículas.
Nos próximos anos haverá indicadores ainda mais importantes: quantos estudantes permanecem nos cursos, quantos concluem a formação, quanto tempo demoram a terminar e quantos conseguem posteriormente integrar-se no mercado de trabalho.
A própria Elvira dos Reis sublinhou que a expectativa da universidade não se limita ao crescimento quantitativo, mas passa pela formação de qualidade e pela integração profissional dos jovens.
É aí que estará o teste mais exigente.
A gratuitidade pode abrir a porta da universidade a mais cabo-verdianos. O desafio seguinte será garantir que o aumento do acesso seja acompanhado pela capacidade necessária para transformar matrículas em formação concluída.
Cape Verde 24.info
Fontes: Inforpress; Universidade de Cabo Verde; RTP/Lusa.































