Fake news em Cabo Verde: exemplos concretos e desafios

A desinformação é um dos grandes desafios da era digital, e Cabo Verde, apesar de apresentar um risco relativamente baixo, não está imune a este fenómeno. A crescente digitalização e o uso intensivo das redes sociais abrem espaço para a circulação de notícias falsas, exigindo respostas coordenadas da sociedade cabo-verdiana.

Contexto global e nacional da desinformação

O Fórum Económico Mundial classificou a desinformação como o principal risco global para 2025. Embora Cabo Verde mantenha uma realidade menos marcada por fake news em larga escala, o aumento do acesso digital — com cerca de 49% da população nas redes sociais — amplia o potencial de exposição a conteúdos falsos.

Exemplos concretos de fake news em Cabo Verde

A presença de fake news em Cabo Verde é real e documentada, ainda que menos frequente ou impactante do que em outros contextos. Destacam-se alguns casos concretos:

– Correios de Cabo Verde: Circularam mensagens nas redes sociais informando falsamente que os Correios de Cabo Verde estavam a oferecer prémios, como smartphones Samsung A10. O objetivo era enganar utilizadores e recolher dados pessoais ou induzir pagamentos indevidos. Os Correios desmentiram publicamente a existência de qualquer passatempo ou concurso, alertando para riscos de ataques informáticos e fraude financeira.

– Falsas ofertas de cursos gratuitos na Universidade de Cabo Verde: Recentemente, anúncios nas redes sociais prometeram cursos gratuitos com certificação em nome da Uni-CV. A instituição esclareceu que tais informações eram infundadas e alertou para o risco de recolha fraudulenta de dados e disseminação de vírus informáticos, reforçando a importância de consultar apenas canais oficiais.

– Desinformação no contexto eleitoral: Durante períodos eleitorais, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) identificou a circulação de informações falsas, especialmente em redes sociais e aplicações de mensagens privadas como o WhatsApp. Para responder a este desafio, foi criada uma unidade-piloto de verificação de factos, que recebe denúncias e verifica conteúdos suspeitos, promovendo a integridade do processo democrático.

– Uso político do termo ‘fake news’: Em situações de desconforto com notícias desfavoráveis, alguns atores políticos classificaram reportagens como ‘fake news’ para tentar descredibilizar jornalistas e órgãos de comunicação social, mesmo quando as notícias se baseiam em factos verificados, como ocorreu com uma reportagem da agência Lusa sobre liberdade de imprensa.

Impactos e riscos das fake news em Cabo Verde

– Confiança nas instituições: A desinformação pode minar a credibilidade das instituições públicas e comprometer a coesão social.
– Processos democráticos: Notícias falsas podem influenciar a opinião pública e afetar eleições, como reconhecido pela CNE e pelo projeto-piloto de combate à desinformação nas autárquicas de 2024.
– Segurança digital: Casos de fraudes online, como falsos prémios ou cursos, expõem cidadãos a riscos de roubo de dados e ataques informáticos.

Iniciativas e estratégias de combate

– Unidade-piloto de verificação de factos: Instalado na CNE, o projeto envolve a ARC, a Uni-CV e parceiros tecnológicos, recebendo denúncias via WhatsApp e Facebook, atuando de forma proativa e reativa para identificar e desmentir conteúdos falsos.
– Educação e literacia mediática: Especialistas e entidades como a AJOC defendem a aposta em literacia mediática, especialmente nas escolas, para capacitar os cidadãos a distinguir informação verídica de conteúdos fabricados.
– Regulação e autorregulação: A ARC tem estabelecido diretrizes para promover o jornalismo responsável e combater a disseminação de notícias falsas, equilibrando a liberdade de expressão com a necessidade de proteger o espaço público.

Recomendações práticas

Para o governo:
– Investir em literacia digital e tecnologias de deteção de fake news.
– Promover transparência e protocolos claros em situações de crise informacional.

Para os media:
– Adotar práticas rigorosas de verificação de factos e formação contínua dos profissionais.
– Promover códigos de ética adaptados à era digital.

Para os cidadãos:
– Desenvolver pensamento crítico, verificar fontes e denunciar conteúdos suspeitos.

Conclusão

Apesar do risco de fake news ser considerado baixo em Cabo Verde, os exemplos concretos demonstram que o fenómeno existe e pode ter impactos reais. O fortalecimento das iniciativas de verificação, a aposta na literacia mediática e a colaboração entre instituições são fundamentais para preservar a integridade da informação e fortalecer a democracia cabo-verdiana.

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