“A deficiência em Cabo Verde pesa duas vezes: pela condição física e pelas barreiras impostas pelo país”
Viver com uma deficiência física já é, em qualquer parte do mundo, um desafio que exige resiliência. Mas em Cabo Verde, onde persistem falhas urbanísticas, carências no sistema de saúde e um défice de políticas inclusivas, esse desafio duplica. Para além das limitações impostas pela própria condição, as pessoas com deficiência enfrentam barreiras criadas pela sociedade, pelo Estado e até pela indiferença coletiva. É, de facto, “mais handicap para quem já tem handicap”.
1. Cidades que não se abrem a todos
Quem conhece as ruas das nossas cidades vê logo: passeios estreitos, escadas em edifícios públicos, transportes sem adaptações. Para quem se desloca em cadeira de rodas ou tem mobilidade reduzida, este cenário é praticamente um convite ao confinamento. A arquitetura urbana, em vez de facilitar, discrimina de forma silenciosa. O direito de ir e vir, que deveria ser universal, torna-se um privilégio de alguns.
2. Reabilitação: um cuidado que falta
A saúde em Cabo Verde já enfrenta grandes pressões. Para quem precisa de acompanhamento contínuo — fisioterapia, próteses, cadeiras adaptadas ou apoio especializado — as respostas são quase inexistentes. Muitas famílias ficam entregues à sua própria sorte, sobrecarregadas com custos e responsabilidades que o Estado ainda não consegue assumir. Assim, a reabilitação, que poderia devolver autonomia, acaba por ser um luxo acessível a poucos.
3. Educação que ainda deixa muitos de fora
Apesar de iniciativas pela inclusão escolar, as escolas continuam pouco preparadas. Rampas e casas de banho adaptadas são exceção, não regra. Professores com formação específica em educação inclusiva são raridade. O resultado? Crianças e jovens com deficiência têm menor probabilidade de concluir os estudos, perpetuando um ciclo de marginalização que as empurra para fora das oportunidades desde cedo.
4. O emprego que não chega
No mercado de trabalho, a exclusão repete-se. Poucos empregadores abrem espaço real para pessoas com deficiência. E quando o fazem, faltam adaptações no espaço laboral e medidas que garantam igualdade de condições. Resultado: níveis de desemprego mais altos e, em muitos casos, dependência económica. A autonomia e a cidadania plena ficam, mais uma vez, comprometidas.
5. A cultura da piedade em vez da inclusão
Um dos maiores obstáculos é invisível, mas constante: a mentalidade coletiva. Ainda predomina uma postura assistencialista, em que a pessoa com deficiência é vista mais como objeto de caridade do que como sujeito de direitos. Falta ainda uma cultura de solidariedade ativa — aquela que incorpora o respeito e a inclusão como princípios de convivência, e não como favores.
6. Leis sem prática, políticas sem impato
Cabo Verde já aprovou legislação para proteção e inclusão das pessoas com deficiência. O problema não está na lei escrita, mas no vazio da sua execução. O que falta é fiscalização, estratégias concretas e sobretudo vontade política para transformar essas normas em mudanças palpáveis no dia a dia das pessoas.
7. O peso da invisibilidade
Talvez o maior “handicap” seja não ser visto. Pessoas com deficiência continuam ausentes da esfera pública: quase não aparecem nos media, em campanhas, no parlamento, ou em cargos de liderança. Essa invisibilidade é uma forma de exclusão silenciosa, que reforça preconceitos e retira às novas gerações referências de representação positiva.
Conclusão: inclusão é dignidade
Ser pessoa com deficiência em Cabo Verde significa enfrentar dificuldades que não deveriam existir. Não por causa da deficiência em si, mas porque a sociedade e o Estado ainda falham em criar condições dignas e inclusivas. É tempo de encarar a questão não como uma missão de caridade, mas como uma necessidade de justiça e cidadania.
Um país que exclui parte dos seus cidadãos não pode aspirar a ser plenamente democrático. E, no fim das contas, a inclusão não beneficia apenas as pessoas com deficiência: beneficia a sociedade inteira, porque uma comunidade que acolhe a diferença é mais rica, humana e forte.
Cabo Verde24






































Uma resposta
Gostei muito das observações feitas no blog, infelizmente ainda existe num longo caminho a ser feito em relação a acessibilidade das deficiência. Enfrento uma doença crónica que desde de 2006 é considerada deficiência pela OMS e em Cabo Verde nada sobre o linfedema.