De Fogo a Hollywood: o cabo-verdiano Carlitos Do Souto conquista os festivais de cinema nos EUA

“O cineasta nascido na ilha do Fogo percorreu um longo caminho — de New Bedford até Los Angeles — e hoje é reconhecido com dois prémios no Boston International Film Festival pelo seu filme ‘Radio Sky’.”

Uma história que começa na ilha do Fogo

​Carlitos Do Souto nasceu em Cabo Verde, na ilha do Fogo, e emigrou para os Estados Unidos aos 12 anos de idade, com a mãe e o irmão, para se reunir com o pai em Boston. A família passou nove meses na capital do Massachusetts antes de se instalar definitivamente em New Bedford, cidade do estado com uma das maiores comunidades cabo-verdianas do mundo. O pai de Carlitos abriu ali a Tropical Barbershop, um negócio que se tornaria parte da identidade da comunidade local.

​O jovem Carlitos não falava inglês quando chegou. Fascinava-se com filmes de ação — de Jean-Claude Van Damme, Bruce Lee e Arnold Schwarzenegger — precisamente porque as sequências de ação dispensavam o domínio da língua. Seria esse amor pelo cinema a traçar o seu futuro.

De New Bedford a Los Angeles

​Carlitos concluiu o ensino secundário na New Bedford High School no ano 2000 e frequentou o Bristol Community College em Fall River durante dois anos, antes de se mudar para Los Angeles para estudar teatro na Loyola Marymount University.

​O caminho não foi fácil. Ainda na fase de formação, recordou uma viagem frustrada a Nova Iorque para uma audição — sem conseguir encontrar o local — e o embaraço de regressar de mãos vazias. Mas a determinação prevaleceu. Ao longo dos anos, acumulou formação em escrita criativa em várias universidades comunitárias de Los Angeles e na New York Film Academy, onde estudou realização e direção cinematográfica.

“Radio Sky”: o filme que está a chamar a atenção de Hollywood

​Carlitos Do Souto é o escritor, realizador, produtor e ator principal de Radio Sky, um filme sobre um hacker em prisão domiciliária que, a partir de casa, tem de resgatar um astronauta da NASA feito refém na Estação Espacial Internacional.

​O filme estreou no Pan African Film & Arts Festival em fevereiro, onde ganhou o Programmers’ Award para Longa-Metragem de Ficção, e em março venceu o prémio de melhor montagem no Hollywood Diversity International Film Festival.

​O momento mais marcante chegou no Boston International Film Festival, onde Radio Sky se destacou de forma inédita: foi o único filme a vencer dois prémios, superando mais de 6.000 concorrentes de 60 países — o Prémio do Público e o Melhor Argumento Original.

O filme conta ainda com a participação do veterano ator Dennis Haysbert — conhecido por ter interpretado o presidente dos Estados Unidos na série 24 — no papel de diretor de comunicações da NASA, sendo também produtor executivo do projeto.

A herança cabo-verdiana como força criativa

​Numa entrevista ao jornal The New Bedford Light, Carlitos refletiu sobre a influência das suas origens no seu percurso artístico:

​“Quando és imigrante e cresces em Cabo Verde, tens uma boa noção do que este país [EUA] te pode oferecer. O trabalho árduo, o efeito cultural, o facto de seres uma pessoa com os pés bem assentes na terra — acho que isso é o que me trouxe até aqui, independentemente das dificuldades.”

​Sobre a comunidade cabo-verdiana em Hollywood, foi direto: “Em termos de ser cabo-verdiano, a comunidade em Hollywood é basicamente inexistente.” Mas reconhece que algo está a mudança, e tem planos ambiciosos: tem em desenvolvimento um argumento situado em Boston e outros com histórias passadas em Cabo Verde, acreditando que o arquipélago pode oferecer uma perspetiva fresca e original à indústria cinematográfica de Hollywood.

Diversidade e representação no cinema

​Para Carlitos, uma das motivações centrais em Radio Sky foi precisamente colocar pessoas de cor em papéis de destaque — ligados à NASA, à cibersegurança, ao governo e ao espaço — em vez de aceitar os papéis secundários que Hollywood habitualmente reserva a atores de minorias.

​“Escrevi um filme inteligente, para colocar pessoas de cor em posições onde se possam elevar”, afirmou.

​Hollywood e o sonho possível — mas exigente

​O cineasta cabo-verdiano deixou uma mensagem clara a quem sonha seguir o mesmo caminho: a percentagem de pessoas que chegam a Los Angeles e conseguem singrar no cinema era de 4% a 6%, subindo agora para cerca de 10% a 12% — o que significa que cerca de 90% não consegue. Para ele, a paixão tem de ser absoluta e sem alternativa.

​Recordamos que…

Carlitos Do Souto nasceu na ilha do Fogo, emigrou para os EUA aos 12 anos sem falar inglês, cresceu em New Bedford numa família da diáspora cabo-verdiana, e construiu carreira em Los Angeles durante mais de duas décadas. O seu filme Radio Sky venceu dois prémios no Boston International Film Festival em 2026, atraindo a atenção da indústria cinematográfica norte-americana.

​Caboverde24.info

​Fonte: The New Bedford Light

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