“Entre cebola, tomate e rega gota a gota, os produtores do concelho de São Domingos resistem à seca — mas precisam de mais apoio hídrico para garantir o futuro da agricultura em Santiago.”
Um oásis no meio da aridez
Num país de poucas chuvas, os vales de Nossa Senhora da Luz, na ilha de Santiago, contrastam com a paisagem seca da ilha árida que os rodeia. São espaços verdes mantidos pelo esforço diário de agricultores que resistem à escassez, mas que pedem investimento urgente para continuar a trabalhar a terra.
O município de São Domingos, a cerca de 20 quilómetros da capital, alberga algumas das zonas agrícolas mais activas da ilha de Santiago. Mas a sobrevivência destas hortas depende, cada vez mais, de soluções artificiais de abastecimento de água.
A realidade no campo: trabalho e improvisação
Entre fileiras de cebola, tomate e abóbora, sob um sol intenso, os agricultores trabalham a terra enquanto gerem simultaneamente as tarefas domésticas e o cuidado dos filhos. É uma realidade de múltiplas funções que retrata bem as condições em que a agricultura familiar de subsistência é praticada no arquipélago.
Filha de agricultores e ela própria agricultora, Ana Tavares, da zona de Portal, resume a situação com clareza: “Eu escolhi trabalhar na agricultura porque é aquilo de que gosto. Cultivamos para vender na cidade da Praia, mas a maior dificuldade é a falta de água.”
Batata-doce, cebola, tomate, cenoura e repolho dominam os terrenos, culturas escolhidas pela resistência e pela necessidade.
O gota a gota como salvação
Face à escassez hídrica, a tecnologia de rega gota a gota tornou-se indispensável. Tubos serpenteiam pelos terrenos e, de cada pequeno orifício, saem gotinhas numa cadência suficiente para manter as culturas vivas.
”Cultivamos um pouco de tudo e utilizamos o sistema gota a gota para conseguir resultados, porque há terrenos que gastam muita água”, explicou Jeremias Miranda. “Sem rega gota a gota, não conseguimos trabalhar”, reforçou o agricultor José Rodrigues.
O abastecimento depende sobretudo de furos e poços, frequentemente insuficientes à medida que os meses secos avançam. Em Cabo Verde, a chuva concentra-se entre agosto e novembro, deixando longos períodos de seca no resto do ano.
Quando a água falta, compra-se
Quando os furos e poços não chegam, os agricultores recorrem à compra de água transportada em camiões-cisterna vindos da Praia: “Quando já não há água, temos de a comprar e vem da Praia, para continuarmos a produzir”, disse José Rodrigues.
Esta solução representa um custo adicional significativo para famílias que vivem da venda dos produtos nos mercados locais, tornando a actividade ainda mais frágil do ponto de vista económico.
Jovens fogem, futuro ameaçado
A escassez de água tem também impacto na fixação dos jovens na agricultura: “Há problemas em ter pessoas para trabalhar, porque muitos jovens procuram sair e ainda não temos água suficiente para todos se envolverem na agricultura”, explicou Jeremias Miranda.
Este é um desafio estrutural que vai além da produção agrícola: sem jovens agricultores, a transmissão de conhecimentos e a continuidade das explorações familiares ficam em risco.
Ficha técnica: Cenário agrícola de São Domingos
Um projecto que avança, mas ainda não chega a todos
Em março de 2026, o governo inaugurou a segunda fase do projecto de mobilização de água para rega em Achada Baleia, no concelho de São Domingos, integrado no programa de dessalinização e reforço da disponibilidade hídrica para a agricultura.
No entanto, os benefícios deste investimento ainda não chegaram a todas as zonas agrícolas do município. “A água ainda está na zona de Achada Baleia, mais abaixo, mas esperamos que chegue até aqui”, disse Jeremias. “Se a água chegar, a agricultura aqui pode ter muito futuro”, concluiu José Rodrigues.
A expectativa é que a expansão da rede hídrica seja acelerada com o novo ciclo político que se abre após as eleições legislativas de maio de 2026.
O papel estratégico da agricultura em Santiago
A agricultura em Santiago não é apenas uma actividade económica: é um elemento identitário e de soberania alimentar num país que importa a grande maioria dos bens alimentares que consome. Os vales de São Domingos representam, neste contexto, muito mais do que hortas: são uma das poucas reservas verdes do arquipélago e um laboratório de resiliência agrícola em contexto de alterações climáticas.
Manter estes espaços produtivos activos é também uma forma de reduzir a dependência externa e fixar populações no interior das ilhas.
Recordamos que…
Cabo Verde enfrenta há vários anos desafios crescentes na gestão dos recursos hídricos, especialmente nas ilhas áridas como Santiago e Sal. O governo tem investido em dessalinização e em sistemas de mobilização de água para rega, mas a cobertura das zonas agrícolas mais remotas continua incompleta, afectando directamente a produção e o rendimento das famílias rurais que tentam fixar-se no campo neste final de maio de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: Agência Lusa







































