“As estatísticas do primeiro trimestre de 2026 confirmam: 96,4% dos hóspedes nos hotéis de Cabo Verde são estrangeiros. Os cabo-verdianos continuam praticamente ausentes do seu próprio sector turístico”
O retrato de um turismo sem cabo-verdianos
O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou os dados da movimentação de hóspedes referentes ao primeiro trimestre de 2026, confirmando uma tendência que se repete há vários anos: o turismo em Cabo Verde é, na prática, um negócio quase exclusivamente dirigido a estrangeiros. Dos 379 657 hóspedes registados entre janeiro e março, apenas 3,6% eram residentes no país. Os restantes 96,4% chegaram de fora, num total que ronda os 365 989 hóspedes não residentes.
O Reino Unido confirmou-se, uma vez mais, como o principal mercado emissor, com 92 433 hóspedes, o equivalente a quase um quarto de todos os hóspedes registados no trimestre. Este número, isolado, já supera largamente o total de hóspedes residentes em todo o arquipélago.
Números que se repetem trimestre após trimestre
Esta não é uma fotografia isolada. Os dados trimestrais do INE mostram, de forma consistente, que a procura interna pelos hotéis nacionais permanece residual, independentemente da estação do ano ou do crescimento global do sector. Mesmo com o aumento de 16,8% no número total de hóspedes face ao primeiro trimestre de 2025, a proporção entre residentes e não residentes manteve-se praticamente inalterada, o que sugere que o crescimento do turismo não está a chegar à população local.
Quem é o turista residente em Cabo Verde?
Quando existe, o hóspede residente costuma corresponder a um perfil específico: viagens de trabalho entre ilhas, eventos familiares como casamentos ou batizados, ou ocasiões pontuais como aniversários e lua de mel. Praticamente não existe, em contrapartida, um hábito de “escapadinha” de fim de semana ou de férias em hotel dentro do próprio arquipélago, comum noutros países com sectores turísticos mais maduros.
Preço, geografia e cultura: três barreiras à procura interna
Três fatores ajudam a explicar este afastamento entre os cabo-verdianos e a hotelaria do seu país:
- Preço: as tarifas hoteleiras são, na sua maioria, definidas em função do poder de compra do turista europeu, tornando-se elevadas para o rendimento médio de uma família residente.
- Geografia: a oferta hoteleira concentra-se sobretudo no Sal e na Boa Vista, obrigando quem vive noutras ilhas a somar o custo de um voo inter-ilhas ao custo da estadia.
- Cultura de consumo: o hábito de reservar uma noite de hotel como forma de lazer ainda não está enraizado na sociedade cabo-verdiana, onde a visita a familiares costuma substituir a estadia hoteleira.
As consequências de um sector sem base local
Esta dependência quase absoluta do turista estrangeiro tem custos que vão além das estatísticas. Sem uma procura interna que sirva de almofada, qualquer crise externa — uma recessão no Reino Unido, uma alteração nas rotas aéreas, uma crise sanitária — atinge o sector hoteleiro cabo-verdiano de forma quase total, como já aconteceu no passado. Além disso, a ausência dos residentes nos hotéis nacionais reforça a perceção de que estes espaços “não são para nós”, distanciando a população do património turístico que, em teoria, lhe pertence.
Nota editorial:
Os valores absolutos de hóspedes residentes e não residentes apresentados nesta análise resultam da aplicação das percentagens divulgadas pelo INE (3,6% e 96,4%) ao total de 379 657 hóspedes, uma vez que o instituto não publicou os valores absolutos discriminados por residência.
Recordamos que…
O INE divulgou esta semana as Estatísticas do Turismo do primeiro trimestre de 2026, confirmando um crescimento de 16,8% no número de hóspedes, mas evidenciando, uma vez mais, o peso quase total dos não residentes na procura turística do arquipélago, moldando as dinâmicas económicas do país neste mês de junho de 2026.
Caboverde24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE)





























