Forbes questiona se Cabo Verde está preparado para o turismo pós-Mundial

Forbes questiona se Cabo Verde está preparado para o turismo pós-Mundial

“Revista norte-americana analisa se as ilhas conseguem transformar a fama mundialista em turismo sustentável”

O impacto do Mundial e a visibilidade global

​Cabo Verde saiu do Mundial de futebol na fase a eliminar (16 avos de final), mas levou consigo algo que pode valer mais do que uma vitória em campo: visibilidade global.

​Segundo a revista Forbes, milhões de pessoas passaram a procurar onde fica o arquipélago e como visitá-lo depois da estreia histórica da seleção na maior competição do desporto mundial.

​A questão que a publicação coloca não é se mais turistas vão chegar, mas o que acontece quando chegarem. Cabo Verde consegue transformar a fama repentina em turismo que beneficie as ilhas, sem sobrecarregar os destinos que já vivem sob pressão?

Voos diretos e apelo aos turistas americanos

​O interesse em atrair mais visitantes dos Estados Unidos não é novo. Em 2024, durante uma visita a Boston, o primeiro-ministro José Ulisses Correia e Silva defendeu a criação de ligações aéreas diretas entre os Estados Unidos e Cabo Verde, sublinhando a importância de atrair investimento, turistas e, em particular, a comunidade afro-americana.

​O pedido tornou-se realidade a 4 de maio de 2026, quando a Cabo Verde Airlines retomou o voo direto entre Providence, no Rhode Island, e a Praia, depois de mais de oito anos sem ligação. A escolha de Rhode Island não é acaso: a região tem uma das maiores comunidades da diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos.

Turismo já sustenta a economia

​O turismo já é hoje o motor da economia nacional. Os hotéis do arquipélago receberam quase 1,25 milhões de hóspedes em 2025 (fonte: INE). A economia cresceu 6,3% no mesmo ano, impulsionada pela procura turística recorde, maior capacidade aérea e forte afluência europeia, segundo relatório do Banco Mundial publicado a 13 de julho de 2026.

​O desemprego caiu para 6,2% e o país registou o primeiro excedente orçamental global desde 2007. As reservas internacionais atingiram um valor recorde de 975 milhões de euros, ainda que a dívida pública se mantanha elevada, nos 100,7% do PIB.

Sal e Boa Vista concentram quase todos os turistas

​Apesar do crescimento, o turismo continua concentrado em apenas duas das dez ilhas principais. Em 2025, o Sal recebeu quase 60% dos turistas, seguido pela Boa Vista, com cerca de 25%. Santiago ficou-se pelos 8,1% e São Vicente pelos 4,4%.

​Segundo o Banco Mundial, melhores ligações inter-ilhas poderiam distribuir o turismo para além de Sal e Boa Vista e reforçar as cadeias de abastecimento locais nas pescas, na agricultura e nos serviços. Contudo, os voos domésticos continuam limitados, caros e imprevisíveis, enquanto os serviços de ferry sofrem com frotas envelhecidas e falta de incentivos ao investimento.

Forbes questiona se Cabo Verde está preparado para o turismo pós-Mundial

O modelo “tudo incluído” tem um custo

​A dependência de pacotes “tudo incluído” vendidos por operadores europeus continua a marcar o setor. Em 2025, 93% dos turistas vieram da Europa, contra apenas 1,1% dos Estados Unidos.

​De acordo com um relatório da Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Banco Mundial para o setor privado, publicado em março de 2024:

  • ​Cerca de 80% dos turistas viajam através de pacotes “tudo incluído”;
  • ​Apenas três ou quatro grandes cadeias hoteleiras fornecem 90% do alojamento no país.

​Como os hotéis importam cerca de 80% dos alimentos e bebidas que servem, parte significativa do dinheiro gasto pelos turistas acaba por sair do país. A IFC nota ainda que, embora os resorts criem emprego local e gerem receita fiscal, o custo de vida tem subido mais depressa do que os salários ligados ao turismo.

Quem é a IFC?

​A Corporação Financeira Internacional (IFC) é o braço do Grupo Banco Mundial dedicado ao setor privado, financiando e assessorando empresas e governos em países em desenvolvimento. Em Cabo Verde, tem acompanhado de perto o crescimento do setor turístico e os riscos ambientais associados.

Recursos naturais sob pressão

​Para a Forbes, a maior limitação de Cabo Verde ao turismo pode não ser a capacidade hoteleira ou aeroportuária, mas os seus recursos naturais. A IFC alerta que o crescimento turístico tem aumentado a pressão sobre a energia, a água, a gestão de resíduos e os ecossistemas costeiros e marinhos.

Sal, Boa Vista e São Vicente dependem fortemente da dessalinização da água do mar, uma vez que os recursos hídricos subterrâneos não chegam para a procura, o que aumenta o consumo energético. O Sal já é a ilha que mais resíduos produz por habitante, e a projeção é de que esse volume mais do que duplique até 2035.

​Cabo Verde já criou uma certificação de turismo sustentável reconhecida pelo Conselho Global de Turismo Sustentável, mas a IFC estima que apenas cerca de 20% das empresas do setor adotaram medidas de sustentabilidade ou economia circular.

Alternativas ao “tudo incluído”

​A IFC identifica três caminhos alternativos:

  • Turismo náutico: Por se situar nas rotas transatlânticas de vela entre a Europa e as Caraíbas, tem potencial para gerar entre 300 e 400 dólares por turista, por dia.
  • Turismo cultural e criativo: Aposta na música, festivais, arte e gastronomia crioula, além da Cidade Velha (Património da UNESCO) e eventos como o Kriol Jazz Festival. Apenas 1% da despesa dos turistas é dirigida a eventos culturais atualmente.
  • Nómadas digitais: Gastam, em média, cerca de 63 dólares por dia (contra 43 dólares de um turista comum) e usam mais alojamento local, coworking e comércio de proximidade.

​A IFC conclui que Cabo Verde ainda carece de uma estratégia nacional coordenada, de dados fiáveis sobre visitantes, de financiamento especializado e de formação técnica suficiente para transformar esse potencial num mercado turístico consolidado.

Nota editorial

O relatório da IFC aponta a necessidade urgente de diversificar o produto turístico nacional e de fortalecer a integração das empresas locais na cadeia de valor do setor.

Recordamos que…

Cabo Verde teve uma participação histórica no Mundial de futebol de 2026, alcançando a fase a eliminar (16 avos de final), o que gerou um pico sem precedentes de interesse internacional e pesquisas globais sobre o país.

Caboverde24.info

Fonte: Forbes; Banco Mundial; IFC (Corporação Financeira Internacional)

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2 Responses

  1. Este artigo é bastante informativo, esclarecedor e formativo sobre o potencial de alavancagem turistica em Cabo Verde, em resultado do seu crescimento nas ultimas 2 décadas e da projecção do país que a Selecção Nacional proporcionou com a inédito e bem sucedida participação na Copa do Mundo 2026. O lema 1 país 10 desrinos está implicito. A necessária diversificação da oferta, tambem. O mais importante é a visão sobre a pressão sobre os recursos escassos que deve ser acautelada. Obrigado!

  2. Bom dia.
    Obrigado pelas informações, relativamente a turismo em Cabo Verde, uma situação que me preocupa, visto que como disse ainda não estamos 100% preparados para possíveis demanda.

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