Santa Maria depois de Gonzalo: quanto dos danos poderia ser reduzido com mais prevenção?

Em 30 segundos

🌊 Gonzalo provocou fortes danos na frente marítima de Santa Maria. 📄 Já em 2010, um documento oficial apontava problemas de alagamento e drenagem na cidade.

🏗️ Em 2025, estavam previstas novas melhorias na rede de águas pluviais e na capacidade de bombagem.

❓ A tempestade não podia ser evitada. Mas parte dos seus efeitos poderia ter sido reduzida?

Depois de Gonzalo, Santa Maria ficou com imagens difíceis de ignorar: água em vias e acessos, estabelecimentos junto à praia atingidos e danos em diferentes pontos da frente marítima.

Uma parte importante do que aconteceu tem uma explicação clara. A forte agitação marítima fez o mar avançar sobre a costa e atingiu hotéis, clubes de praia e outras estruturas próximas do areal.

Por isso, seria errado atribuir todos os danos a problemas de drenagem. Uma rede de águas pluviais não consegue travar ondas fortes nem impedir o avanço do mar.

Mas, depois de a água baixar, fica uma pergunta: Santa Maria poderia estar mais preparada para reduzir parte destes impactos?

Um problema identificado há 16 anos

A pergunta ganha outra dimensão quando se consultam documentos anteriores a Gonzalo.

Em 2010, o Plano Nacional de Saneamento Básico já alertava que a urbanização aumentava significativamente o volume de águas pluviais e comprometia os sistemas de drenagem.

O documento referia “sérios transtornos” e “grandes perdas materiais” provocados por alagamentos em diferentes centros urbanos do país. Entre eles aparecia expressamente Santa Maria, na ilha do Sal.

O mesmo plano reconhecia que o processo de urbanização não tinha sido acompanhado por medidas suficientes para a gestão das águas pluviais e defendia a elaboração de planos diretores de drenagem urbana.

Não se tratava, portanto, de um risco desconhecido.

Uma rua onde entra regularmente água do mar

Em 2025, a drenagem continuava entre as prioridades

Quinze anos depois, o tema continuava presente nos documentos municipais.

O Plano Anual de Aquisições da Câmara Municipal do Sal para 2025 previa para Santa Maria melhorias na rede de águas pluviais, incluindo uma nova avaliação do seu estado de conservação, reforço da capacidade de drenagem e bombagem da água.

O documento previa também a continuação dos trabalhos de melhoria do sistema de bombagem das águas pluviais junto ao Pavilhão de Santa Maria.

Isto permite estabelecer um facto importante: antes da chegada de Gonzalo já estava formalmente identificada a necessidade de melhorar partes do sistema.

Não permite, porém, concluir que essas intervenções teriam evitado os danos agora registados. Para isso seria necessário saber quais obras foram efetivamente executadas, qual era a capacidade do sistema e como se comportou durante a tempestade.

Nem tudo começou depois de Gonzalo

Também seria incorreto transmitir a ideia de que nada estava a ser feito.

Além das intervenções previstas na drenagem, estava já em curso a reconstrução do Pontão de Santa Maria, uma infraestrutura orçada em 8,9 milhões de euros e concebida para responder com maior segurança às condições marítimas da baía.

O projeto foi iniciado antes de Gonzalo e prevê uma estrutura mais robusta, preparada para suportar melhor a ondulação e as variações do estado do mar.

A existência destes investimentos mostra que há medidas de adaptação em curso.

A questão é saber se são suficientes e se avançam com a rapidez necessária perante vulnerabilidades conhecidas.

Artigo relacionado

São Vicente já tinha mostrado o custo da vulnerabilidade

A discussão não começou no Sal.

Em agosto de 2025, São Vicente sofreu um acontecimento muito mais grave. Cerca de 193 milímetros de chuva caíram em apenas cinco horas, provocando cheias e inundações que deixaram nove mortos, dois desaparecidos e cerca de 1.500 desalojados.

A Organização Mundial da Saúde registou posteriormente que a precipitação ultrapassou a capacidade dos sistemas de drenagem e destruiu infraestruturas.

Depois da tragédia, a recuperação passou a incluir precisamente medidas destinadas a aumentar a resistência da ilha a futuros episódios: obras estruturantes de drenagem, valetas ampliadas e melhores passagens hidráulicas.

São Vicente demonstrou que nem sempre é possível impedir os danos de um fenómeno extremo. Mostrou também quanto pode custar corrigir vulnerabilidades depois da catástrofe.

Em Santa Maria, a questão é se parte desse trabalho pode ser feita antes.

Prevenir não significa eliminar o risco

Nenhuma cidade consegue garantir proteção total perante fenómenos meteorológicos extremos.

Uma forte ondulação pode provocar danos mesmo onde existem boas infraestruturas. Uma precipitação excecional pode ultrapassar sistemas de drenagem corretamente dimensionados.

Prevenção significa outra coisa: reduzir a vulnerabilidade.

Manter e reforçar redes de drenagem, aumentar a capacidade de bombagem, garantir vias adequadas para o escoamento da água, proteger pontos particularmente expostos da costa e incorporar o risco no planeamento das infraestruturas.

Depois de Gonzalo, uma oportunidade para avaliar

Santa Maria vai limpar, reparar os danos e regressar gradualmente à normalidade.

Mas talvez o momento de fazer perguntas seja precisamente agora.

Os documentos mostram que algumas necessidades eram conhecidas antes de Gonzalo. O passo seguinte deveria ser perceber o que já foi executado, o que funcionou durante a tempestade e onde permanecem os pontos vulneráveis.

Não apenas para calcular quanto custa reparar os danos desta vez.

Mas para perceber quanto pode custar preparar Santa Maria antes da próxima.

Porque Cabo Verde não pode impedir uma tempestade de chegar.

Pode, porém, preparar-se melhor para quando ela chegar.

Caboverde24.info

Fonte: Plano Nacional de Saneamento Básico — Resolução n.º 52/2010; Plano Anual de Aquisições 2025 da Câmara Municipal do Sal; Governo de Cabo Verde

Quer fazer parte deste blog?

Partilhe conosco as suas ideias e experiências!

  • Sugira temas que gostaria de ver aqui publicados.
  • Conte-nos uma história ou experiência de vida que o tenha marcado.
  • Envie fotografias da sua cidade ou da sua comunidade.
  • Divulgue eventos próximos de si e todas as informações que considere importantes para enriquecer a nossa comunidade cabo-verdiana.

A sua participação é essencial para que este espaço seja cada vez mais vivo, útil e próximo de todos nós.
info@caboverde24.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos relacionados

outras publicações

Artigos relacionados

outras publicações