Entre Nós Caboverde24.info

“Fui operada longe da minha terra, e agora tenho medo de recuperar sozinha”

“Uma nova carta da rubrica Entre Nós: a história de Isaura, entre Lisboa e Santa Catarina, Santiago”

A carta de Isaura

(Nota: “Isaura” é um nome fictício, atribuído pela redação para preservar a identidade da autora da carta.)

​Chamemos-lhe Isaura. É natural de Santa Catarina, no interior da ilha de Santiago, mãe de três filhos. Foi evacuada para Lisboa há dois meses para ser submetida a uma intervenção cirúrgica ao útero que não podia ser feita em Cabo Verde. É ela quem nos escreve, na primeira pessoa, para partilhar o que está a viver:

“Kel dia ki médiku fla-m ma N tinha ki bai fóra pa opera, tudu kuza para na nha kabésa. N ka tava sabe kuzê ki N tava ta senti — medu, alívio, tristeza, tudu djuntu.”

 

“Há uns meses comecei a sentir dores fortes e hemorragias que não paravam. Fui ao hospital em Assomada, depois fui encaminhada para Praia, e foi lá que os médicos me disseram que precisava de uma cirurgia que exigia meios que Cabo Verde ainda não tem. Poucas semanas depois, recebi a notícia: ia ser evacuada para Lisboa, através do programa de evacuação médica.”

“Parti completamente sozinha, sem nenhum familiar comigo. O meu marido ficou em Santiago a tomar conta dos nossos três filhos, e não havia dinheiro nem forma de o fazer viajar também. Cheguei a Lisboa sem conhecer ninguém, hospedada perto do hospital, à espera de uma operação que me assustava só de pensar.”

“A cirurgia correu bem, mas ninguém me tinha avisado do que viria depois. Passei os primeiros dias sozinha no quarto do hospital, sem a minha família por perto, sem o cheiro da minha casa, sem as vozes dos meus filhos. Uma enfermeira portuguesa, muito gentil, tornou-se a única pessoa com quem eu conversava todos os dias.”

“Agora, dois meses depois, ainda estou em Lisboa em recuperação. Os médicos dizem que não posso viajar já, que o meu corpo ainda precisa de tempo. Mas cada semana longe custa mais — custa dinheiro, custa saudade, custa ver os meus filhos crescerem através de uma chamada de vídeo. Sinto-me grata por estar viva e tratada, mas também sinto-me sozinha de uma forma que nunca tinha sentido antes.”

“N ta gradesi Deus pa nha saúde, má nha korason ta fika la na Santiago. N krê volta pa nha kaza, pa nha fidjus, pa nha kama. Kuzê ki N debe faze pa es tenpu de spera ka pesa tantu riba di mi?”

 

Quem é Isaura?

Isaura é uma mãe cabo-verdiana natural de Santa Catarina, em Santiago, atualmente em recuperação em Lisboa após uma evacuação médica.

​A sua história reflete a realidade de muitos cabo-verdianos que, por limitações do sistema de saúde nacional, precisam de ser tratados fora do país — e que enfrentam a solidão da recuperação longe da família nos momentos mais frágeis da sua vida.

A resposta da redação

​Isaura, obrigado por partilhares uma experiência tão pessoal, num momento em que o teu corpo e o teu coração ainda estão em processo de recuperação. A tua carta fala por muitos cabo-verdianos que passam pelo mesmo caminho silencioso: a doença, a evacuação, a cirurgia, e depois — talvez a parte mais difícil — o tempo de espera longe de casa.

​O que descreves é um tipo de solidão particular, que poucas vezes é reconhecido: a de estar fisicamente segura, entregue a cuidados médicos competentes, e ainda assim sentir-se profundamente longe de tudo o que dá sentido à recuperação — a casa, os filhos, os cheiros e os sons do quotidiano.

Quanto à culpa ou ao peso da distância em relação aos teus filhos: eles vão lembrar-se, quando crescerem, não do tempo em que estiveste fora, mas da coragem extraordinária que tiveste para cuidar de ti para poderes continuar a cuidar deles.

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Nota editorial

Por razões de privacidade, os nomes utilizados nesta rubrica são fictícios, atribuídos pela redação para proteger a identidade de quem partilha a sua história connosco. Esta rubrica não substitui o acompanhamento médico ou psicológico especializado. Recomendamos que qualquer pessoa em processo de evacuação médica ou recuperação pós-cirúrgica mantenha acompanhamento próximo com a equipa de saúde responsável.

Recordamos que…

as evacuações médicas para Portugal continuam a ser um recurso frequente para cabo-verdianos que necessitam de cuidados especializados não disponíveis no país. Esta carta foi publicada na rubrica Entre Nós, espaço criado pelo Caboverde24.info para dar voz a histórias como a de Isaura.

Caboverde24.info

Fonte: Carta enviada por uma leitora à redação

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