Farinha económica, pizza cara: o relato do dono de uma pizzaria em Cabo Verde

Farinha económica, pizza cara: o relato do dono de uma pizzaria em Cabo Verde

“Um empresário do setor explica a contradição entre o que compra e o que vende”

Um pedido que chegou à redação

​Esta reportagem nasce de um contacto direto com a nossa redação. Um empresário do setor da restauração, gestor de uma pequena pizzaria em Cabo Verde, pediu-nos para analisar um caso que considera revelador de uma contradição do sistema fiscal: a matéria-prima que compra entra sem qualquer custo fiscal, mas o produto final que vende é tributado a 15%.

​A farinha não tem IVA

​Em Cabo Verde, a farinha de trigo está isenta de IVA, por ser considerada um bem alimentar essencial — tal como o arroz, a farinha de milho, o açúcar, o leite, a carne, o peixe, as frutas e os produtos hortícolas.

​Segundo o empresário, que pediu para não ser identificado, este é um dos ingredientes mais baratos do seu negócio, precisamente por não ter qualquer carga fiscal associada à compra.

​A farinha transformada em pizza paga o IVA

​O problema, segundo ele, começa depois. Assim que a farinha isenta é transformada em massa, cozida no forno e servida como pizza, a taxa geral do sistema fiscal cabo-verdiano passa a aplicar-se sobre o valor total da venda.

​O empresário explica que, no momento da venda, paga 15% sobre o preço total da pizza, independentemente de o ingrediente principal não lhe ter custado nada em termos fiscais — como se toda a matéria-prima tivesse sido adquirida ao preço mais elevado possível.

Um problema que vai muito além da pizza

​O caso da pizzaria, apesar de ilustrativo, é apenas a ponta visível de um problema muito mais amplo, que atravessa praticamente todo o setor da restauração em Cabo Verde. A denúncia do empresário da pizzaria é, na verdade, um exemplo limitado de um mecanismo que afeta de forma ainda mais significativa restaurantes, marisqueiras, snack-bares e qualquer negócio que compre matéria-prima isenta de IVA para depois a transformar e vender ao consumidor final.

​O princípio é sempre o mesmo. Um restaurante que compra peixe fresco, carne, arroz, feijão, legumes ou fruta — todos bens alimentares essenciais isentos de IVA em Cabo Verde — não paga qualquer imposto nessa aquisição. Mas, ao confecionar esses produtos e servi-los como refeição, é obrigado a cobrar 15% de IVA sobre o valor total da venda. Nesse momento, o empresário aplica, na prática, um acréscimo de 15% sobre um produto cuja matéria-prima nunca gerou qualquer crédito fiscal a seu favor. Não há isenção parcial, não há taxa reduzida, nem qualquer mecanismo que permita transportar o benefício da compra para o preço final: o restaurante paga o IVA sobre a totalidade da venda, incluindo o valor do ingrediente que entrou isento.

​Este é um ponto central e frequentemente ignorado no debate público sobre a carga fiscal do setor: como a compra é isenta, o empresário não tem qualquer IVA a deduzir relativo a essa matéria-prima. Em setores onde a cadeia de fornecimento é mais formalizada e o fornecedor cobra IVA na venda, a empresa que compra pode deduzir esse valor ao imposto que depois cobra aos seus clientes — é o mecanismo normal de funcionamento do IVA, que evita a acumulação de imposto sobre imposto. Na restauração cabo-verdiana, este mecanismo simplesmente não existe para uma parte muito significativa dos custos, precisamente porque os bens alimentares essenciais foram isentados na origem. O resultado é que o empresário não tem como recuperar, compensar ou sequer visibilizar esse desequilíbrio: paga sempre a taxa cheia sobre o valor de venda, independentemente de quanto da matéria-prima usada nunca gerou qualquer direito de dedução.

​Na prática, isto significa que um prato de peixe grelhado, uma feijoada, um prato de arroz de marisco ou uma simples salada de fruta seguem exatamente a mesma lógica da pizza: entram na cozinha sem custo fiscal e saem da cozinha já a pagar 15%. A diferença é que, ao contrário da pizzaria — onde a farinha representa quase a totalidade do produto —, muitos restaurantes combinam vários ingredientes isentos com outros tributados, o que torna o problema menos visível, mas não menos real. Multiplicado por centenas de pratos servidos diariamente em centenas de estabelecimentos em todo o arquipélago, este mecanismo representa um peso fiscal estrutural sobre o setor da restauração que raramente é discutido com a profundidade que merece — e que o caso da pizzaria ajuda, de forma simples e direta, a tornar visível.

​Para o empresário, esta lógica não tem em conta a realidade de negócios pequenos e especializados, que dependem quase inteiramente de um único ingrediente de base isento. Num restaurante com um menu variado, argumenta, a conta talvez se equilibrasse de outra forma — mas numa pizzaria, a farinha é praticamente tudo, e é exatamente aí que a isenção desaparece assim que o produto sai do forno.

Como Cabo Verde se compara a outros países

​O caso levanta uma questão mais ampla: como é que outros países tratam a restauração do ponto de vista fiscal? A comparação mostra que Cabo Verde aplica, à venda ao consumidor, uma das taxas mais altas entre os exemplos analisados.

  • ​Portugal: Aplica uma taxa intermédia de 13% nos serviços de alimentação e bebidas.
  • ​Espanha, Itália e França: Aplicam uma taxa reduzida de 10% à restauração (muito abaixo da taxa geral espanhola de 21%).
  • ​Marrocos: Beneficia o setor com uma taxa reduzida de 10% (face aos 20% da taxa normal).
  • ​Brasil: Através do regime simplificado, a alíquota efetiva para pequenos restaurantes começa nos 4%, situando-se bem abaixo dos 15% cabo-verdianos.

​Em Cabo Verde, pelo contrário, não existe uma taxa reduzida específica para a restauração: aplica-se a taxa geral de 15%, tributando o setor ao mesmo nível de qualquer outro produto ou serviço comum.

Não perca

Um caso, muitas perguntas

​O relato do empresário levanta uma questão mais ampla sobre como o sistema fiscal cabo-verdiano trata a transformação de bens essenciais isentos em produtos finais.

​Não existe, para já, qualquer mecanismo que reconheça, no preço final, a isenção aplicada à matéria-prima, nem uma taxa reduzida específica para o setor. O empresário garante que não pretende contestar a existência do imposto, mas sim abrir o debate sobre uma lógica que considera desequilibrada para negócios como o seu.

​Nota editorial

O empresário citado nesta reportagem falou sob anonimato, a seu pedido. A redação garante que o relato foi recolhido diretamente junto do protagonista, que também sugeriu o tema desta análise.

​Recordamos que…

em Cabo Verde, vários bens alimentares essenciais, como a farinha de trigo e o arroz, estão isentos de IVA na compra, mas os pratos confecionados a partir deles são vendidos ao consumidor final com a taxa geral de 15% — mais elevada do que a taxa aplicada à restauração em Portugal, Espanha, Itália, França e Marrocos, e geralmente superior à carga efetiva da maioria dos pequenos restaurantes no Brasil.

​Caboverde24.info

Fonte: Relato recolhido pela redação do Caboverde24.info

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