Sal vista de fora: a ilha turística que começa a trazer cabo-verdianos de volta

Em 30 segundos

  • ​📰 Uma reportagem do South China Morning Post, retomada pelo Courrier International, destaca o regresso de emigrantes cabo-verdianos ao Sal.
  • ​🦈 O percurso de João, que viveu 12 anos em Lisboa antes de regressar para trabalhar como guia turístico, serve de fio condutor.
  • ​🏨 A ilha do Sal concentrou 57,7% das entradas nos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde em 2025.
  • ​📊 O fenómeno existe, mas não representa uma inversão estatística: o país mantém um saldo migratório líquido negativo.
  • ​🇪🇸 Uma reportagem do El País expõe a outra face da realidade: jovens locais que ainda ponderam emigrar por falta de oportunidades.

Durante décadas, falar da diáspora cabo-verdiana significou sobretudo falar de partidas: de famílias separadas pelo Atlântico, de jovens à procura de oportunidades na Europa ou nos Estados Unidos e de sucessivas gerações que construíram a sua vida longe das ilhas.

​No entanto, uma reportagem internacional publicada este verão encontrou na ilha do Sal um movimento na direção contrária. O South China Morning Post, um dos principais jornais de língua inglesa da Ásia, dedicou uma extensa grande reportagem à ilha e escolheu como eixo narrativo o regresso de cidadãos cabo-verdianos que tinham emigrado. O trabalho foi posteriormente destacado pelo jornal francês Courrier International, projetando esta leitura da realidade cabo-verdiana para uma audiência global.

João saiu por cinco anos e ficou doze

​A história descrita pela publicação asiática começa fora do perímetro dos grandes resorts turísticos. João, natural do Sal, deixou o país com o plano inicial de permanecer cinco anos em Lisboa, mas acabou por ficar doze anos na capital portuguesa, onde trabalhou na área de manutenção hoteleira no Bairro Alto.

​Com estabilidade profissional garantida em Portugal, João decidiu, contudo, regressar à sua terra natal há cerca de três anos. Hoje atua como guia turístico, acompanhando visitantes às águas de Shark Bay, conhecidas pela presença de crias de tubarão-limão. O guia estabelece uma analogia marcante com o comportamento desses animais, explicando que os tubarões jovens regressam àquelas águas para aprender — uma metáfora que compara ao regresso dos próprios cabo-verdianos à sua terra.

O turismo transformou a dimensão económica do Sal

​O regresso de antigos emigrantes insere-se na profunda transformação estrutural vivida pela ilha ao longo das últimas décadas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a hotelaria cabo-verdiana registou um total de 1.248.052 hóspedes em 2025, o que representou um crescimento homólogo de 6%.

Esta concentração da atividade gerou um ecossistema alargado de emprego em hotelaria, restauração, excursões marítimas, transportes e animação cultural, criando condições materiais que viabilizam o retorno e o investimento de quadros da diáspora.

Uma economia impulsionada pelo turismo, mas com desafios estruturais

​O dinamismo do Sal reflete o desempenho macroeconómico do país. O Banco Mundial assinala que o Produto Interno Bruto de Cabo Verde cresceu 6,3% em 2025, impulsionado essencialmente pelos números recorde do turismo internacional. A instituição financeira sublinha, contudo, a excessiva dependência económica em torno de apenas duas ilhas como um fator de vulnerabilidade perante choques externos.

​Apesar dos casos de regresso bem-sucedidos, os dados demográficos globais não indicam uma inversão generalizada da emigração. Em 2025, Cabo Verde registou um saldo migratório líquido de cerca de -1.284 pessoas, confirmando que as saídas continuam a superar as entradas no cômputo global.

A outra face do Sal: a juventude que ainda pensa em partir

​A complexidade social da ilha foi igualmente retratada numa reportagem recente do jornal espanhol El País. A publicação deu voz a jovens como Jessica Sousa, de 21 anos, estudante da área de restauração que manifesta o desejo de construir carreira no arquipélago, mas admite emigrar caso não encontre perspetivas de evolução salarial e profissional.

​Este cenário revela a dualidade do modelo económico insular: o mesmo mercado turístico que atrai profissionais com experiência no exterior ainda enfrenta dificuldades para fixar toda a mão de obra jovem local com empregos atrativos.

Um novo olhar sobre a realidade insular

​A abordagem da imprensa internacional traduz uma mudança na perceção externa sobre o Sal, tradicionalmente retratado apenas pelas praias de areia branca, sol constante e salinas de Pedra de Lume.

​Sem ignorar os desafios do saldo migratório e as aspirações dos jovens residentes, a ilha começa a consolidar-se como um espaço onde a experiência adquirida na emigração pode ser rentabilizada no desenvolvimento de projetos e negócios locais.

Caboverde24.info

Fontes: South China Morning Post; Courrier International; Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde; Banco Mundial; El País.

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