Tragédia no Fogo: Caboverde24 revê imagens, números e factos à procura de respostas

Em 30 segundos

​🚌 38 pessoas seguiam no autocarro; uma informação publicada aponta para uma lotação de 32, ainda sem confirmação documental pelo Caboverde24.info.

​🛑 O filho do condutor, que seguia num dos Hiaces, relata sinais que associa a uma possível falha nos travões.

​🛣️ Um técnico de segurança rodoviária descreve aquele percurso como íngreme e estreito e afirma que falta guarda metálica.

​🛞 Caboverde24.info analisou atentamente um vídeo dos destroços: os pneus visíveis não aparentam estar praticamente sem piso.

​🔎 Só a investigação e as perícias poderão determinar o que provocou o acidente.

​Depois de acompanhar a tragédia, voltámos aos factos

​Desde as primeiras horas, Caboverde24.info acompanhou a tragédia do Fogo com actualizações sucessivas, pesquisa de novas informações e um serviço especial dedicado aos desenvolvimentos do acidente.

​Cinco dias depois, fizemos um exercício diferente: voltámos aos números, às fotografias, aos vídeos e aos testemunhos para distinguir aquilo que já pode ser verificado daquilo que continua por demonstrar.

​Não para antecipar conclusões ou procurar culpados, mas para perceber quais perguntas a investigação terá de responder.

38 pessoas. Mas qual era a lotação?

​As autoridades corrigiram entretanto um dos números centrais da tragédia: 38 pessoas seguiam no autocarro. Vinte e cinco morreram e 13 sobreviveram.

​A correcção surgiu depois de se confirmar que uma mulher grávida inicialmente contabilizada entre os ocupantes viajava, afinal, noutra viatura.

​Há, porém, outro número que permanece por esclarecer.

​O Notícias do Norte publicou que o Toyota Coaster tinha lotação para 32 pessoas. Se esse número corresponder à lotação inscrita na documentação da viatura, seguiam no autocarro seis pessoas acima do limite autorizado.

​Caboverde24.info não teve acesso ao livrete e, por isso, não apresenta os 32 lugares como um dado documentalmente confirmado.

​Também não deve confundir-se excesso de ocupantes com excesso de peso. Muitos passageiros eram crianças e adolescentes. Caberá à investigação determinar se a ocupação teve alguma influência na dinâmica ou nas consequências do acidente.

​Uma estrada concluída e uma questão sobre a protecção lateral

​O autocarro saiu da estrada e caiu cerca de 30 metros numa ravina.

​Caboverde24.info reviu as fotografias disponíveis do local. No troço visível imediatamente acima da ravina, nas proximidades da zona da queda, não se observa uma barreira metálica de contenção. Numa parte da estrada é visível uma estrutura em pedra, cuja função técnica não pode ser determinada pelas imagens.

O autocarro no fundo da ravina e, no alto, o troço da estrada nas proximidades da zona da queda.

​A fotografia não permite concluir que a estrada estivesse fora das normas nem que uma barreira teria impedido a queda.

​Mas há outro elemento a considerar.

​Djoy Gonçalves, técnico de segurança rodoviária, afirmou conhecer aquela estrada, descrevendo-a como particularmente íngreme e estreita, e declarou que faltaria naquele percurso a colocação de guarda metálica.

​O técnico disse ainda ter participado em trabalhos relacionados com a segurança rodoviária no Fogo e ter anteriormente chamado a atenção para necessidades de intervenção na ilha.

​As declarações não demonstram que as características da estrada tenham provocado o acidente. Colocam, contudo, uma questão concreta: que sistema de protecção lateral estava previsto para aquele ponto e o projecto da estrada contemplava uma guarda metálica?

​A Estradas de Cabo Verde enviou técnicos ao Fogo para avaliar as condições da via, identificar eventuais factores de risco e propor medidas de segurança.

O relato do filho do condutor: uma possível falha nos travões

​Há também um testemunho particularmente relevante sobre os segundos que antecederam a queda.

​Hamilton, filho do condutor do autocarro — uma das 25 vítimas mortais — seguia num dos Hiaces que regressavam do passeio. O seu relato aponta para uma possível falha no sistema de travagem.

​Segundo contou, percebeu que algo estava errado quando o pai começou a buzinar insistentemente, procurando alertá-lo para que se afastasse e avisasse outro Hiace, que seguia mais à frente, para encostar.

​Hamilton relata que o autocarro ultrapassou as duas viaturas e chegou a tocar no retrovisor de uma delas. O condutor ainda terá tentado fazer a curva, mas não conseguiu controlar o veículo, que acabou por cair na ravina.

​O relato é importante porque descreve acontecimentos imediatamente anteriores ao despiste.

​Mas não prova que os travões tenham falhado.

​A perícia terá de verificar se houve efectivamente perda de capacidade de travagem e, caso se confirme, procurar a sua origem e eventual relação com o acidente.

​E os pneus? Vimos atentamente o vídeo

​Desde as primeiras horas circulou também a hipótese de um problema num pneu. Nas redes sociais surgiram afirmações de que os pneus estariam praticamente “carecas”.

​Caboverde24.info decidiu verificar aquilo que as imagens permitem realmente observar.

​Analisámos atentamente e na íntegra um vídeo com cerca de dois minutos, gravado junto aos destroços, publicado no Facebook e posteriormente partilhado várias vezes por utilizadores e páginas. Perante a ampla circulação das imagens, a redacção guardou uma cópia para análise e verificação jornalística.

Vídeo do autocarro

Vídeo analisado pelo Caboverde24.info mostra os destroços e diferentes rodas do autocarro.

Nos pneus que podem ser observados existem sulcos visíveis na banda de rodagem.

​Isso, contudo, não responde à pergunta sobre o seu estado.

​As imagens não permitem medir a profundidade dos sulcos, determinar se o desgaste estava dentro dos limites técnicos, identificar eventuais danos internos ou conhecer a idade da borracha.

​Por isso, não é possível concluir através do vídeo que os pneus estavam em boas condições, tal como as imagens também não bastam para afirmar que estavam praticamente “carecas” ou que eram demasiado antigos.

​A resposta pode estar nas marcações dos próprios pneus e na perícia à viatura.

​E quantos anos tinha realmente o autocarro?

​Também circulou a afirmação de que o autocarro teria mais de 40 anos.

​Até ao momento, Caboverde24.info não encontrou documentação que permita confirmar essa idade.

​A aparência exterior ou a identificação aproximada de uma geração do Toyota Coaster não são suficientes para determinar o ano de fabrico de uma viatura concreta.

​Aqui, a verificação é objectiva: ano de fabrico, data da primeira matrícula e número de chassis deverão permitir estabelecer exactamente a idade do veículo.

​É uma informação relevante não porque a idade, por si só, determine a segurança de um autocarro, mas porque permite depois confrontá-la com o histórico de manutenção, inspecções e estado dos componentes.

​O autocarro pode guardar as respostas mais importantes

​É precisamente a viatura que poderá esclarecer várias das dúvidas que hoje permanecem.

​A perícia poderá analisar sistema de travagem, pneus, direcção e restantes componentes mecânicos, confrontando os resultados com o testemunho de Hamilton e com a trajectória reconstruída do veículo.

​A remoção do autocarro, porém, revelou-se complexa. A grua de 50 toneladas disponibilizada para a operação não consegue chegar ao local em condições de segurança devido às características da estrada, às numerosas curvas e às limitações de algumas pontes. Entre as alternativas estudadas está a desmontagem da viatura no próprio local.

​Qualquer intervenção deverá preservar os elementos necessários às inspecções e perícias.

​Há igualmente documentos que podem responder a perguntas concretas: livrete, lotação registada, ano e primeira matrícula, histórico e resultado da última inspecção e datas de fabrico dos pneus instalados na viatura.

​A Educação esclareceu ainda que o passeio não foi organizado pela escola. Tratava-se de uma actividade promovida pelo próprio condutor, que habitualmente transportava estudantes.

​Falta, por isso, esclarecer também em que regime estava a ser realizado aquele transporte e que regras e licenças lhe eram aplicáveis.

​Agora sabemos melhor o que é preciso esclarecer

​Cinco dias depois da tragédia, a pergunta principal continua aberta:

Por que razão o autocarro saiu da estrada?

​Mas as questões estão hoje mais precisas.

​Há uma sequência descrita por uma testemunha que seguia na mesma comitiva e que aponta para um possível problema de travagem.

​Há 38 ocupantes e uma informação ainda sem confirmação documental que indica uma lotação de 32.

​Há uma estrada dada como concluída em 2024 e uma declaração técnica segundo a qual faltava colocar guarda metálica.

​Há dúvidas sobre pneus e idade do autocarro que não podem ser resolvidas através da aparência das imagens.

​E há uma viatura que ainda aguarda as perícias capazes de transformar algumas destas perguntas em respostas.

​Nenhum destes elementos permite, neste momento, estabelecer a causa do acidente ou determinar o peso que cada factor poderá ter tido na sua dinâmica e consequências.

​Alguns poderão revelar-se decisivos. Outros poderão não ter qualquer relação com o que aconteceu.

​Depois de dias a acompanhar cada desenvolvimento, Caboverde24.info voltou às imagens, aos números, aos documentos disponíveis e aos testemunhos para distinguir o que sabemos, o que podemos observar e aquilo que continua por provar.

​As respostas definitivas terão de vir da investigação.

​E continuaremos à procura delas.

Caboverde24.info

Fontes: Imprensa nacional e internacional; Estradas de Cabo Verde; Boletim Oficial de Cabo Verde; informações públicas disponíveis e análise de material audiovisual realizada pelo Caboverde24.info.

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