“José Maria Neves decidiu encaminhar a petição dos familiares ao Ministério da Cultura e ao Instituto do Património Cultural. A avaliação poderá abranger o programa museográfico, a investigação documental e os conteúdos pedagógicos do Museu da Resistência.”
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📜 Familiares de cidadãos detidos no Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975 contestam a alegada ausência desse período no Documento Fundador do Museu da Resistência.
🇨🇻 O Presidente da República, José Maria Neves, considerou legítimas as preocupações apresentadas e defendeu um diálogo técnico e museológico.
🏛️ A exposição será encaminhada ao Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas e ao Instituto do Património Cultural.
🌍 A apreciação deverá envolver especialistas de organismos consultivos da UNESCO, nomeadamente ICOMOS e ICCROM.
Uma petição sobre um período controverso da história do Tarrafal
A memória dos cidadãos detidos no Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975 poderá ser objeto de uma nova avaliação técnica no âmbito dos conteúdos do Museu da Resistência.
O desenvolvimento surge depois de familiares de pessoas detidas naquele período terem apresentado uma petição contestando a alegada omissão dessa fase histórica no Documento Fundador do museu.
Na resposta aos subscritores, o Presidente da República, José Maria Neves, reconheceu a legitimidade das preocupações apresentadas e defendeu que a questão seja analisada através de um diálogo técnico e museológico.
Cultura e Património Cultural vão receber o processo
José Maria Neves comprometeu-se a encaminhar a exposição ao Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas e ao Instituto do Património Cultural.
Segundo a informação divulgada pela Inforpress, a apreciação deverá ser feita em articulação com especialistas de organismos consultivos da UNESCO, designadamente o Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS) e o Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro de Bens Culturais (ICCROM).
A eventual revisão poderá considerar a inclusão de informação contextualizada sobre a utilização daquele espaço durante o período de transição política de 1974–1975 no programa museográfico, na investigação documental e nos conteúdos pedagógicos complementares.
O que defendem os familiares
Os subscritores sustentam que a memória histórica do Tarrafal não deve excluir os acontecimentos posteriores ao encerramento jurídico do antigo campo pelo regime português.
Segundo a exposição, cidadãos cabo-verdianos voltaram a ser detidos naquele espaço entre dezembro de 1974 e julho de 1975, em pleno período de transição que antecedeu a independência de Cabo Verde.
Os familiares defendem que estes acontecimentos estão documentados através de testemunhos, investigação académica e obras publicadas e devem, por isso, integrar a memória histórica apresentada às futuras gerações.
Por que o Documento Fundador termina em 1974
Na sua resposta, José Maria Neves explicou também por que razão o Documento Fundador do Museu da Resistência estabelece atualmente uma delimitação temporal entre 1936 e 1974.
Essa periodização assenta, segundo o Presidente, na documentação jurídica oficial e nas duas grandes fases de funcionamento do espaço sob o regime colonial português.
A primeira corresponde ao Campo de Concentração criado em 1936 e encerrado em 1954. A segunda começa com a reabertura do Campo de Trabalho de Chão Bom, em 1961, destinado sobretudo à repressão dos movimentos de libertação anticolonial africanos, prolongando-se até ao encerramento jurídico definitivo, em 26 de abril de 1974.
O Presidente esclareceu, contudo, que esta opção técnico-jurídica não representa uma negação dos acontecimentos posteriores.
Uma questão também ligada à candidatura à UNESCO
A delimitação histórica está relacionada com a estratégia patrimonial utilizada na candidatura do Campo do Tarrafal à Lista do Património Mundial da UNESCO.
O argumento central assenta no chamado Valor Universal Excecional do sítio e na sua dupla dimensão histórica: primeiro como instrumento de repressão da oposição antifascista e, posteriormente, como espaço utilizado contra os movimentos africanos de libertação anticolonial.
O Campo do Tarrafal é Património Nacional desde 2006 e há vários anos Cabo Verde trabalha para conseguir o seu reconhecimento como Património Mundial.
A possível inclusão do período de 1974–1975 nos conteúdos museológicos deverá, portanto, ser analisada também à luz dessa estratégia patrimonial.
A memória poderá ser ampliada sem apagar a anterior
A resposta presidencial abre agora uma via institucional para avaliar uma questão que ultrapassa a simples definição das datas de funcionamento do antigo campo.
Em causa está a forma como o país decide documentar, preservar e transmitir diferentes períodos da história de um espaço profundamente ligado à repressão política e à memória coletiva.
A avaliação técnica determinará se — e de que forma — os acontecimentos ocorridos entre dezembro de 1974 e julho de 1975 deverão ganhar maior presença na investigação, na narrativa museológica e nos conteúdos pedagógicos do Museu da Resistência.
Não existe, por enquanto, uma decisão de alteração do museu. Existe, sim, a abertura formal para que a reivindicação das famílias seja analisada pelas instituições responsáveis e por especialistas ligados aos organismos consultivos da UNESCO.
Caboverde24.info
Fontes: Presidência da República; Inforpress; Instituto do Património Cultural



























