Tragédia do Fogo: o que dizem a lei, os tribunais e os precedentes sobre as indemnizações às famílias das vítimas

Em 30 segundos

​💰 Os 100 mil escudos anunciados por cada vítima mortal são um apoio imediato, não a medida da indemnização civil que poderá vir a ser devida.

​⚖️ Em dois processos de morte na estrada analisados pelo Caboverde24.info surgem valores de 700 mil, 1 milhão e 1,5 milhões de escudos, consoante a decisão e as circunstâncias do caso.

​👨‍👩‍👧‍👦 Quando a vítima sustentava cônjuge, filhos ou outros familiares, as pensões previstas na lei podem representar vários milhões de escudos ao longo dos anos.

​🛡️ O seguro obrigatório prevê um capital de 50 milhões de escudos para danos corporais por sinistro, independentemente do número de vítimas.

​📌 As projeções apresentadas neste artigo são simulações do Caboverde24.info. Servem para perceber ordens de grandeza e não representam valores já fixados ou automaticamente garantidos.

Os 100 mil são uma ajuda. A indemnização é outra questão

​Os 100 mil escudos anunciados por cada vítima mortal da tragédia do Fogo podem ajudar as famílias num momento em que surgem despesas imediatas e dificuldades inesperadas.

​Mas juridicamente não respondem à questão central: quanto poderá ser efetivamente devido pela perda de uma vida e pelas consequências económicas deixadas na família?

​Não existe uma resposta igual para todos.

​A idade da vítima, a existência de filhos, cônjuge ou outros dependentes, o rendimento que deixou de entrar em casa, os danos não patrimoniais e as responsabilidades que vierem a ser apuradas podem alterar profundamente o resultado.

​Ainda assim, decisões já proferidas pelos tribunais e a legislação permitem perceber uma coisa: a dimensão pode ser muito superior aos 100 mil escudos do apoio imediato.

O que os tribunais já decidiram

​No Acórdão n.º 61/2023, o Supremo Tribunal de Justiça analisou um homicídio negligente resultante de acidente rodoviário e manteve uma indemnização de 700 mil escudos em favor dos herdeiros da vítima mortal.

​Outro processo é ainda mais esclarecedor.

​No Acórdão n.º 103/2024, Processo n.º 112/2013, a primeira instância tinha fixado uma indemnização global de 1,5 milhões de escudos.

​Nesse valor estavam incluídos cerca de 800 mil escudos pelo dano morte, 250 mil para cada um dos pais e outras quantias relacionadas com o sofrimento anterior à morte.

​O Supremo reduziu depois o montante global para cerca de 1 milhão de escudos, num processo em que também foi considerada a corresponsabilidade atribuída à própria vítima.

​Estes valores não constituem uma tabela aplicável ao Fogo.

​Mas oferecem uma referência importante: em casos concretos de morte na estrada, os tribunais cabo-verdianos já trabalharam com valores entre 700 mil e 1,5 milhões de escudos.

​E isso ainda não representa necessariamente tudo o que pode estar em causa para uma família.

Quando a vítima sustentava uma família, a conta muda

​O regime do seguro obrigatório não contempla apenas os danos não patrimoniais decorrentes da morte.

​Conforme a situação, podem existir também pensões aos familiares, despesas de funeral e outras prestações legalmente previstas.

​Para o cônjuge sobrevivo, a legislação prevê uma pensão correspondente a 60% da remuneração de referência.

​Cada filho tem como referência 30%, podendo o direito prolongar-se até aos 19, 22 ou 25 anos, conforme a idade e a continuação dos estudos nas condições previstas na lei.

​Quando existem simultaneamente cônjuge e filhos, há limites ao conjunto das pensões, podendo ser considerado um máximo de 70% da remuneração de referência para esse grupo nas situações previstas.

​Para estes cálculos, o seguro obrigatório considera um salário máximo seguro de 50 mil escudos mensais.

​É aqui que a dimensão económica pode mudar completamente.

Quando a vítima sustentava uma família, a conta muda

​O regime do seguro obrigatório não contempla apenas os danos não patrimoniais decorrentes da morte.

​Conforme a situação, podem existir também pensões aos familiares, despesas de funeral e outras prestações legalmente previstas.

​Para o cônjuge sobrevivo, a legislação prevê uma pensão correspondente a 60% da remuneração de referência.

​Cada filho tem como referência 30%, podendo o direito prolongar-se até aos 19, 22 ou 25 anos, conforme a idade e a continuação dos estudos nas condições previstas na lei.

​Quando existem simultaneamente cônjuge e filhos, há limites ao conjunto das pensões, podendo ser considerado um máximo de 70% da remuneração de referência para esse grupo nas situações previstas.

​Para estes cálculos, o seguro obrigatório considera um salário máximo seguro de 50 mil escudos mensais.

​É aqui que a dimensão económica pode mudar completamente.

Uma criança, um jovem e um pai de família não produzem o mesmo cálculo

​Se a vítima for uma criança, não faria sentido inventar um rendimento que nunca existiu para construir uma indemnização futura.

​A análise estará sobretudo ligada ao dano decorrente da morte e aos danos não patrimoniais juridicamente reconhecíveis aos familiares.

​Se a vítima for um jovem adulto que contribuía regularmente para sustentar os pais, a situação pode ser diferente. A legislação admite, em determinadas condições, pensões para ascendentes que dependiam economicamente da vítima.

​E quando morre um pai ou uma mãe que assegurava uma parte essencial do rendimento familiar, as consequências económicas podem prolongar-se durante muitos anos.

​Por isso, não existe uma indemnização justa que possa ser encontrada simplesmente aplicando o mesmo valor a todas as vítimas.

​Cada situação familiar terá de ser analisada individualmente.

Há uma interpretação jurídica que aponta ainda mais alto

​Os precedentes judiciais não são a única referência disponível.

​Depois da tragédia de Serra Malagueta, o jurista Silvino Fernandes publicou uma análise segundo a qual, na sua interpretação conjugada do seguro obrigatório e do Código Civil, os danos não patrimoniais poderiam atingir valores entre 2,5 milhões e 6,25 milhões de escudos por vítima naquele caso.

​A distinção é fundamental: não se trata de uma sentença nem de valores fixados pelo Supremo Tribunal de Justiça.

​É uma interpretação jurídica publicada.

​A sua relevância está em mostrar que existe, no debate jurídico cabo-verdiano, uma leitura que coloca a possível compensação por morte numa escala consideravelmente superior à observada nos dois acórdãos analisados.

50 milhões para 38 vítimas: até onde pode chegar o seguro obrigatório?

​O seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel estabelece um capital de 50 milhões de escudos para danos corporais por sinistro, independentemente do número de vítimas.

​Numa tragédia com 25 mortos e 13 feridos, esse limite deixa de ser apenas uma disposição técnica.

​Pode tornar-se uma das questões centrais de todo o processo indemnizatório.

​Os precedentes analisados mostram que uma única morte pode originar indemnizações na ordem das centenas de milhares ou acima de um milhão de escudos.

​Se valores dessa dimensão vierem a ser reconhecidos num número significativo das 25 mortes do Fogo, uma parcela importante do capital obrigatório poderá ficar comprometida antes mesmo de serem integralmente consideradas as situações dos 13 feridos.

​E entre esses feridos poderão existir realidades muito diferentes: tratamentos médicos, períodos de incapacidade temporária ou, eventualmente, situações de incapacidade permanente.

​Também entre as vítimas mortais as consequências económicas não são iguais. Uma pessoa sem dependentes e alguém que sustentava cônjuge e vários filhos não representam o mesmo tipo de perda económica.

​Por isso, a verdadeira questão não é encontrar uma média artificial por vítima.

​É perceber se um único capital de 50 milhões de escudos consegue responder ao conjunto de 38 situações pessoais e familiares potencialmente muito diferentes.

​A própria lei prevê a hipótese de insuficiência: se as indemnizações ultrapassarem o capital seguro disponível, os direitos contra a seguradora podem ser reduzidos proporcionalmente dentro desse limite.

​E é aí que surge outra pergunta.

Quem pode responder para além do seguro?

​Os 50 milhões representam o limite do capital obrigatoriamente seguro para danos corporais.

​Não representam necessariamente o teto absoluto de toda a responsabilidade civil resultante do acidente.

​O regime do seguro obrigatório estabelece que o responsável civil pode responder pela parte das indemnizações que exceda o capital obrigatoriamente seguro.

​Quando o pedido ultrapassa os limites da cobertura obrigatória, a legislação prevê igualmente que a pretensão possa envolver a seguradora e o civilmente responsável.

​Isso não permite concluir, hoje, quem terá de suportar qualquer eventual diferença no caso do Fogo.

​Primeiro será necessário determinar as causas do acidente e estabelecer juridicamente as responsabilidades.

​Se as investigações vierem a demonstrar responsabilidade civil de outros intervenientes, essa eventual responsabilidade terá também de ser analisada à luz da lei e do nexo causal demonstrado.

​A existência de mais do que um responsável não significa multiplicar o valor de uma vida.

​Significa determinar quem está juridicamente obrigado a reparar o dano que vier a ser reconhecido.

Então, quanto pode estar realmente em causa?

​Não existe uma cifra única.

​Mas já é possível perceber a ordem de grandeza.

​Os precedentes encontrados pelo Caboverde24.info mostram 700 mil escudos num caso e valores entre 1 e 1,5 milhões noutro, dependendo da decisão judicial e das circunstâncias concretas.

​São referências reais para os danos associados à morte, não uma tarifa para as vítimas do Fogo.

​Quando a vítima deixava pessoas economicamente dependentes, a dimensão pode ser muito maior.

​A nossa simulação mostra que, para um agregado com cônjuge e dois filhos, as pensões podem acumular cerca de 3,7 milhões de escudos em 15 anos com uma remuneração de referência de 30 mil escudos, ou aproximar-se de 6,1 milhões quando considerada uma remuneração de 50 mil.

​A esses valores podem juntar-se outras prestações e indemnizações, dependendo de cada situação.

​Por isso, em determinados agregados familiares, falar numa dimensão económica global de vários milhões de escudos não é uma estimativa desligada da lei.

​É uma possibilidade que resulta do próprio funcionamento das prestações legalmente previstas.

​O valor concreto dependerá, porém, da situação de cada vítima, de cada família e das responsabilidades que vierem a ser estabelecidas.

Os 100 mil são apenas o primeiro capítulo

​Os 100 mil escudos anunciados têm uma função imediata.

​A discussão sobre as indemnizações começa noutro ponto.

​Os tribunais já reconheceram valores muito superiores em mortes causadas por acidentes rodoviários. A legislação acrescenta pensões e outras prestações quando existem familiares economicamente dependentes. E uma tragédia com 25 mortos e 13 feridos coloca ainda uma questão sensível sobre a suficiência dos 50 milhões de escudos previstos no seguro obrigatório.

​À medida que as investigações avancem, duas perguntas serão particularmente importantes:

​quanto será efetivamente devido a cada família?

​E, se o capital seguro não chegar para cobrir todos os danos reconhecidos, quem responderá pelo que faltar?

​Há ainda muito por determinar.

​Mas a legislação e os precedentes permitem já uma conclusão: os 100 mil escudos podem ser um primeiro apoio. Não são a medida da indemnização que poderá estar em causa.

Caboverde24.info

Fontes:

  • ​Supremo Tribunal de Justiça — Acórdão n.º 61/2023, Processo n.º 84/2014.
  • ​Supremo Tribunal de Justiça — Acórdão n.º 103/2024, Processo n.º 112/2013.
  • ​Boletim Oficial — Decreto-Lei n.º 57/2018, Regime Jurídico do Seguro Obrigatório de Responsabilidade Civil Automóvel.
  • ​Boletim Oficial — regime legal aplicável às pensões aos familiares e despesas de funeral.
  • ​Silvino Fernandes — análise jurídica sobre as indemnizações no caso de Serra Malagueta, publicada no Santiago Magazine.

Quer fazer parte deste blog?

Partilhe conosco as suas ideias e experiências!

  • Sugira temas que gostaria de ver aqui publicados.
  • Conte-nos uma história ou experiência de vida que o tenha marcado.
  • Envie fotografias da sua cidade ou da sua comunidade.
  • Divulgue eventos próximos de si e todas as informações que considere importantes para enriquecer a nossa comunidade cabo-verdiana.

A sua participação é essencial para que este espaço seja cada vez mais vivo, útil e próximo de todos nós.
info@caboverde24.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos relacionados

outras publicações

Artigos relacionados

outras publicações