”O arquipélago paga a factura de uma crise que não criou: a guerra no Médio Oriente chega às ilhas pelo preço do petróleo.”
Um salto que não é coincidência
Os números divulgados esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) são expressivos: os preços das importações feitas por Cabo Verde aumentaram 8,2% em abril face a março, muito acima do aumento registado nas exportações, que ficou em 0,3%. O aumento representa uma forte aceleração face ao mês anterior, quando os preços das importações tinham subido apenas 0,3%.
Para perceber o que está por detrás deste salto abrupto, basta olhar para o mercado energético global.
O petróleo como motor da subida
Segundo o INE, a subida foi impulsionada sobretudo pelos combustíveis, que registaram um aumento de 16,2%, contribuindo de forma significativa para a evolução global do índice.
Não se trata de um fenómeno isolado. O barril de Brent ultrapassou os 100 dólares após ataques contra instalações energéticas iranianas e o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, rota por onde circula cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. A Agência Internacional de Energia (AIE) avalia que o mercado permanecerá “severamente desabastecido” até pelo menos ao fim do terceiro trimestre de 2026.
Cabo Verde, como arquipélago sem produção de hidrocarbonetos e totalmente dependente das importações de combustível, absorve em pleno estes choques externos, sem qualquer capacidade de os atenuar na origem.
Os termos de troca revelam o desequilíbrio
Os termos de troca registaram -7,3% em abril, reflectindo a evolução muito mais forte dos preços das importações em comparação com os das exportações. Este indicador é particularmente relevante: significa que o país está a comprar cada vez mais caro e a vender praticamente ao mesmo preço, deteriorando progressivamente a sua posição comercial.
Em termos homólogos, os preços das importações caíram 2,3% e os das exportações recuaram 1,6%, enquanto os termos de troca registaram uma ligeira melhoria de 0,8%. Esta leitura anual mostra que, no conjunto do último ano, os preços foram mais favoráveis do que em 2025 — mas abril veio inverter essa tendência de forma brusca.
Uma tendência que vinha a ser contida
Os dados de abril surgem depois de meses em que o alívio nos preços era a nota dominante. Em janeiro de 2026, os preços dos produtos importados registaram uma variação de -1,8%, representando uma diminuição de 1,3 pontos percentuais face ao mês anterior. Em fevereiro de 2026, os preços dos produtos importados registaram uma variação de -1,2%, e em termos homólogos os preços tinham diminuído 10,9% face ao mesmo mês de 2025.
Em 2025, os preços das importações tinham registado uma diminuição acumulada de 6,7%, marcando uma forte descida no ano anterior. Abril desfaz, em apenas um mês, muito do alívio acumulado ao longo de mais de um ano.
O que isto significa para as ilhas
A dependência energética de Cabo Verde tem consequências diretas e em cadeia. Quando o preço dos combustíveis sobe, sobem também os custos de transporte interilhas, a produção de electricidade, os serviços hoteleiros, a pesca artesanal e os bens de consumo básico. O impacto não fica confinado às estatísticas do INE: chega ao supermercado, à bomba de gasolina e à factura da luz.
A nível global, o maior receio é o encerramento do Estreito de Ormuz, um canal vital por onde passa grande parte do petróleo mundial; se o fluxo for interrompido, a atual crise de preços pode transformar-se em falta generalizada de produto. Para um arquipélago como Cabo Verde, sem reservas estratégicas de combustível de larga dimensão, este cenário seria de enorme gravidade.
O que diz o INE
O Índice de Preços do Comércio Externo mede a evolução dos preços das trocas comerciais entre Cabo Verde e o resto do mundo. Os dados de abril de 2026 foram divulgados na manhã desta quinta-feira, 21 de maio, e revelam uma aceleração que os economistas locais terão de acompanhar com atenção nos próximos meses, sobretudo se a instabilidade nos mercados energéticos globais se prolongar.
Recordamos que…
Os preços das importações em Cabo Verde tinham registado uma descida acumulada de 6,7% ao longo de 2025, num ciclo favorável que se estendeu até fevereiro de 2026. Em março, deu-se a primeira inversão ligeira (+0,3%). Abril confirmou que a inversão não foi acidental: a escalada dos preços do petróleo no mercado internacional, alimentada pelas tensões no Médio Oriente, chegou às estatísticas cabo-verdianas com força total, fazendo subir os preços das importações em 8,2% — a maior variação mensal registada em muitos meses.
Caboverde24.info
Fonte: Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE) — Índice de Preços do Comércio Externo, maio de 2026; Lusa; Agência Internacional de Energia
Nota editorial: Os dados de termos de troca negativos (-7,3%) em abril são particularmente preocupantes num contexto em que Cabo Verde está a tentar atrair investimento externo e melhorar a sua competitividade turística. Um aumento persistente dos custos de importação de energia pode pressionar a inflação interna nos próximos meses, mesmo que o IPC ainda não reflita o impacto na sua totalidade.



























